Mulheres-Colômbia: A base da mudança, no cotidiano

Bogotá, 28/01/2010 – Por que não se organiza? Esse é o título de um olhar no cotidiano, no comportamento social previsível, cortês, repetido através dos séculos, acolhido por homens e mulheres, e que elas são mais receptivas a mudar como um passo para uma autonomia maior. Trata-se de mulheres que tentam fazer um contrapeso à docilidade feminina que ainda se assume como inata na Colômbia, onde foi publicado, bem como em muitos outros países, com culturas e desenvolvimentos muito diferentes.

“Por que não se organiza?” é uma publicação com frases cotidianas que traduzem e reforçam estereótipos sobre as mulheres, que impedem a mudança de seu papel na esfera pública e privada.

Um formulário inicial ajudou a autora do folheto, Zenaida Osorio, a coletar as frases que marcam as mulheres em seu dia a dia. A quantidade de mulheres que aceitaram participar da pesquisa e a abundância de dados que forneceram são, por si só, uma evidência da carga que representam para elas, disse Osorio à IPS.

“Tem rosto bonito, pena que é tão gorda”; “quando pagar, imponha as condições; mas esta é minha casa”; “deve ter 40 ou 50, mas se considera uma ‘cuchibarbi’ (velha boneca), deveria vestir-se de acordo com sua idade”.

Também foram compiladas muitas frases discriminatórias para quem opta pela homossexualidade: “tão bonita essa moça, mas é lésbica”, ou “por ter pego em suas anáguas ficou assim”, recordou um gay.

E mais ainda com relação à população com alguma deficiência: “dizem que é cega, e quer ter filhos”.

Frases ditas por pessoas de diferentes idades, sexo e níveis socioculturais. Grupos vulneráveis unidos no efeito de palavras que marcam, induzem, discriminam, que são um substrato na conservação de sociedades repressivas paralisadas no tempo.

“Por que não se organiza?” é o título do mais recente trabalho de Osorio, comunicadora social com estudos em pós-graduação na Universidade Nacional da Colômbia e na Autônoma de Barcelona, na Espanha.

Antes publicou “Minha Mamãe me Mima, Meu Papai Fuma Cachimbo”, “Pessoas Ilustradas, Imagem das Pessoas na Iconografia Escolar”, “Estude ou Trabalhe”, “O Que Quer Ser Quando Crescer” e “Pertence a…”.

Docente da Escola de Desenho Gráfico da pública e maior universidade da Colômbia, Osorio tem como inspiração o cotidiano, o que há ao seu redor, os amigos, os alunos, a família.

Um olhar no detalhe no qual investiu “46 anos”, respondeu com uma sonora gargalhada à pergunta de quanto tempo dedicou a este trabalho. “Toda a vida”, disse, o que a levou para o que chama de “não perguntas”.

Vai à escola? O que quer ser quando crescer? Estuda ou trabalha? Ainda não tem noivo? O que vai estudar? Quando vai ter um bebê? Pensou em um casal de filhos? Continuam casados? Quando se aposenta? Já chegaram os netos?

“´Não perguntas´ porque não são feitas no sentido gramatical, mas de maneira retórica. Mais do que uma pergunta, é uma afirmação”, disse Osorio.

No mesmo contexto se situa “Por que não se organiza?”, outra das fórmulas retóricas que se repetem para homens e mulheres quando, segundo a sociedade, estão na idade de se casar, cumprem a idade para ter um trabalho estável, ou qualquer outro comportamento próprio do modelo social tradicional.

“É uma recordação do momento de vida que se exige das pessoas, em cada tempo, e sob condições semelhantes”, prosseguiu.

“Isto é, mais do que perguntas, são mandatos. Estratégias de transmissão cultural com uma eficácia que reside em propor, transmitir e exigir um único modelo de vida”, ressaltou.

E, por ser um modelo hostil, se converte em freio para a mudança.

“O termo cuchibarbi, por exemplo, é muito agressivo para mulheres de 40 ou 50 anos que não atendem as expectativas do corrente, do tradicional”, disse Osorio.

Os mandatos de moda, e mesmo do contexto físico que se espera em mulheres de idade média. E que, se rompem o esquema, se expõem a chacotas e desqualificações.

Palavras que se convertem em impulsos, conscientes ou inconscientes, para escolher caminhos aceitos socialmente. Lugares cômodos, com frequência à custa de interesses pessoais reais.

Reflexões que “Por que não se organiza?” reúne em um folheto e um cartaz com frases selecionadas, uma cartilha e uma foto de casamento tradicional.

A publicação tem distribuição gratuita em ônibus, bares e centros de lazer frequentados por pessoas de todo tipo, e entre alunos e professores da Universidade Nacional e de alguns centros de ensino superior em Bogotá.

A entrega é feita por uma moça com vestido de noiva branco, longo com rendas, em uma fantasia que propicia maior impacto ao conteúdo impresso.

Um texto que reflete uma realidade consolidada com mensagens comerciais, religiosas e artísticas, cotidianas, por meio de saudações, piadas e frases soltas ou feitas.

Para a compilação de “Por que não se organiza?” Osorio tomou como base a canção “El camino de la vida”, do compositor colombiano Héctor Ochoa, com 50 versões gravadas.

Foi catalogada como “a mais bela da Colômbia” em 1991, e como “canção do século XX na Colômbia” em 1999, pela emotividade de sua letra.

Em quatro estrofes descreve como, “rápido como o vento vão passando os dias e as noites da infância”, para seguir com os anos juvenis, os amigos, “o mel do primeiro amor”, e continuar até quando são entendidas “a dor e a alegria, como essência permanente da vida”.

Depois os filhos partem. Então diz que “é por isso meu amor que te peço, uma e outra vez, se eu chegar à velhice, que esteja comigo”.

Imagens que incidem. Poderia ser o caso de Martha Perdomo, uma profissional de 29 anos, que disse à IPS que, ao se casar, assumiu a responsabilidade doméstica de uma casa que “antes meu noivo cuidava sem problema”.

“E eu sei, mas é quase mais forte do que eu”, admitiu.

Outro caso foi vivido por Osorio em um primeiro dia de aula, quando uma jovem interpretou “El camino de la vida”, completa e à capela.

Confessou ser estudante de música e estar ali, no curso de desenho, porque a família exigiu que, junto com o canto, estudasse algo que garantisse recursos futuros.

Comportamentos sociais tão arraigados que até mesmo Osorio se surpreende consigo mesma quando percebe diferentes olhares para homens e mulheres.

Porque, na frequente leitura dos prêmios Nobel de Literatura, um gosto pessoal que alimenta e complementa seu trabalho, descobriu-se curiosa por saber o tipo de vida das escritoras.

“Sobre como elas conseguem vencer seu cotidiano, ou entrelaçá-lo com sua obra”, enfatizou Osorio. “Não tive a mesma curiosidade com Charles Dickens, por exemplo”, acrescentou.

Também se surpreendeu com o conteúdo da obra da austríaca Elfriede Jelinek (Nobel 2004) porque em seu conteúdo literário “encontrei maravilhas. Me surpreendi porque em suas novelas coloca na boca de seus personagens frases semelhantes às de ´Por que não se organiza?´”.

“Senti as limitações como uma experiência compartilhada: Áustria, Colômbia, Inglaterra permanecem aí, intocadas, paradas nos século XVIII e XIX, sendo países de diferentes condições”, assegurou Osorio.

Jelinek é autora, entre outras obras, de “As Sombras de Lisa” (1976), “Somos a Isca” (1970), “As Amantes” (1975) e “A Professora de Piano” (1983), levada ao cinema.

Sobre sua obra, os críticos dizem que “em suas novelas se detém na impossibilidade de as mulheres conseguirem vidas completas em um mundo onde são pintadas, com base em imagens estereotipadas”.

Osorio sabe bem “como é difícil demarcar temas e comportamentos”. E destaca o interesse das mais jovens de entregar o material “à minha mãe”, “à minha tia”, irmãs ou amigas, ao sentir que a mensagem seria uma contribuição para mudar mentes e comportamentos tradicionais.

As crianças, em sua maioria, se interessam quando a mensagem se converte em um gesto solidário por outro que, por exemplo, não quer ir à universidade, o que também rompe o mandato estabelecido.

E os mais velhos se evadem assegurando “não entender” a mensagem. IPS/Envolverde

Helda Martínez

Helda Martínez escribe para IPS desde Colombia, en especial sobre desarrollo y sociedad. Se graduó en 1981 como comunicadora social y periodista. Ese mismo año obtuvo el Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar en la categoría Mejor Trabajo Social, modalidad radio. Trabajó para medios de comunicación masivos de su país, como el periódico El Espectador y la radio Todelar. También se desempeñó como investigadora y redactora de varias publicaciones. Entre ellas se destacan "La guerra: Una amenaza para la libertad de información", editado por Medios para la Paz en 2002; "Prensa, conflicto armado y región. Aprendizajes del diplomado - Periodismo responsable en el conflicto armado" - Medios para la Paz, 2006; "Colombia y las Sentencias de la Corte Interamericana de Derechos Humanos" - IIDH, 2010.

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