HARARE, 02/02/2010 – A avó de Memory, de onze anos, queria que ela desistisse da escola porque não iria viver tempo suficiente para completar os seus estudos. E o escárnio e estigma que Memory sofre na escola, devido ao facto de ser seropositiva, parecem indicar que a sua educação não vale a pena. Especialmente se esse escárnio vier da professora. Num país onde as agências de luta contra a SIDA calculam que haja 120.000 crianças seropositivas, os professores encontram-se cada vez mais na linha da frente da epidemia.
Recentemente, um estudo do Conselho Nacional para a SIDA constatou que os “professores não tinham recebido suficiente formação sobre o VIH/TAR para poderem cumprir o seu papel de apoio e ajuda a crianças e adolescentes.”
Como se vê com a situação de Memory, é óbvio que os professores estão mal apetrechados para lidarem com o elevado número de crianças seropositivas nas escolas.
Todos os dias Mbuya Tapera, a avó de Memory, ouve relatos da neta sobre como está a ser maltratada pela professora. “A professora acredita que ela está a perder o tempo a ir para a escola quando é óbvio que ela vai morrer antes de completar os estudos. Penso que é melhor ela ficar em casa do que ir para a escola,” disse Tapera.
Mas a situação nas escolas do país não tem passado despercebida. O gabinete da Unidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em Harare desenvolveu uma parceria com o Ministério da Educação Superior e Terciária no sentido de se compilar um manual sobre o VIH/SIDA destinado aos professores.
O manual tornou-se parte do programa de estudo nos colégios de formação de professores, a partir do dia 11 de Janeiro, início do ano lectivo.
O manual também será distribuído aos professores que já estão a trabalhar. Realizar-se-ão cursos especiais e seminários para os professores que já estão a ensinar.
“O papel do professor na luta contra o VIH/SIDA, entre outras questões relacionadas com o desenvolvimento social, nunca pode ser demasiado realçado,” disse o Dr. Washington Mbizvo, Secretário Permanente da Educação Superior e Terciária.
Segundo o Dr. Mbizvo, o Ministério acredita que os professores têm capacidade para desenvolver a potencialidade intelectual e espiritual da criança. “É importante reforçar a educação dos professores como forma de se alcançar uma sociedade sem VIH/SIDA. Temos de assegurar que todos os professores tenham conhecimentos básicos sobre o VIH/SIDA,” afirmou Mbizvo.
O Director e Representante Nacional da UNESCO, Soo Hyang Choi, afirma que o desenvolvimento do manual foi influenciado pela percepção que o envolvimento dos professores iria fortalecer a luta contra o VIH.
“Não se pode olhar para a educação como efectuando as acções do costume, os professores têm de adquirir as competências apropriadas para poderem lidar com estas crianças de modo sensível e informado,” disse Choi.
Tapera concorda. “Estes professores não têm qualquer conhecimento sobre do VIH. Para eles, qualquer pessoa que tenha o vírus recebeu uma sentença de morte. Parece que não acreditam que uma pessoa pode viver uma vida normal mesmo estando infectada. E parece também que não se preocupam em ouvir a mensagem que alguns de nós transmitimos,” acrescentou Tapera.
Um teste a que Memory se submeteu revelou que era seropositiva em 2005, ano em que iniciou a escola primária. Tapera e outras pessoas da família receberam ajuda de grupos de apoio comunitários, que auxiliaram Memory a aceitar a sua condição e a acreditar que ainda podia ter uma boa qualidade de vida.
“Quando foi para a escola, todos acreditámos que a escola era o melhor lugar para ela,” disse Tapera. Mas as coisas mudaram. Agora toda a gente na escola sabe que Memory é seropositiva e que a mãe morreu com uma doença relacionada com o VIH. “Tudo isto se deve ao facto de a professora ter criado a impressão que a Memory cometeu um crime grave,” disse Tapera.
Outros alunos noutras partes do país também conheceram esta estigmatização dos professores.
Devido à falta de apoio na sua escola, um grupo de jovens seropositivos em Gwanda, capital provincial do Sul da Matabelelandia, formou o seu próprio grupo de apoio. Apesar de terem conhecimentos sobre o vírus, não estão autorizados a falar em público aos outros alunos sobre assuntos relacionados com o VIH.
“Se nos virem ou ouvirem a falar sobre o VIH/SIDA ou sobre preservativos, ficamos metidos em sarilhos com os nossos professores,” disse Musa Dube*, um membro do grupo.
Mas, com a introdução do manual, Musa e os outros alunos do grupo esperam que os seus professores os apoiem nos seus esforços para viverem de forma positiva.
Portia Munyoro, professora estagiária no Colégio Morgan de Professores em Harare, acredita que os professores “não são tão desumanos que maltratem estas crianças (seropositivas).”
“Como professores, sabemos que a nossa tarefa consiste em ajudar estas crianças a terem um futuro promissor, quer elas sejam seropositivas ou não,” disse Munyoro.
Ela explicou que, apesar de ter participado numa série de seminários em escolas e a nível de bairro, continua a achar difícil dar conselhos a crianças. “Aconselhar crianças é muito mais difícil do que aconselhar adultos, porque temos de simplificar tudo; espero que este manual nos possa munir dos recursos necessários para lidar com este desafio,” referiu Munyoro.
“Por vezes tentamos usar a força para obrigar as crianças a abrirem-se e é provável que essa conversa acerca dos maus tratos venha daí.”
O manual foi compilado para resolver este problema, entre outras questões.
O manual inclui secções sobre como cultivar uma dinâmica de grupo positiva, prestar informação básica e técnica sobre o VIH/SIDA, a sexualidade e o género.
Rita Mbatha, fundadora e directora executiva do Canto de Consolo Para as Mulheres, uma organização não governamental que trabalha com mulheres a nível de base em várias comunidades, afirmou que o manual vai contribuir para ajudar não só os professores e os alunos, mas também as mulheres, que realizam a maior parte do trabalho de prestação de cuidados de saúde.
“Os educadores desempenham um papel importante na luta contra o VIH/SIDA, especialmente no que diz respeito a assegurar cuidados adequados às crianças infectadas e afectadas. Os professores estão melhor posicionados para lidar com a questão da negação e do estigma entre e contra as crianças,” explicou Mbatha.
Disse ainda que o impacto que os professores podem ter sobre os seus alunos se iria estender ao resto da comunidade.
“A escola oferece uma boa fundação para moldar a forma como as pessoas se comportam na sociedade, e tudo isto está centrado no professor. Não tenho qualquer dúvida que este manual vai proporcionar a ligação que sempre tem faltado entre os pais ou encarregados de educação das crianças que vivem com o VIH e os professores”, acrescentou Mbatha. *Os nomes foram alterados.

