Washington, 04/02/2010 – As relações comerciais entre Estados Unidos e China parecem passar por seu pior momento nos últimos anos. Pequim publicamente ameaçou com sanções empresas norte-americanas que participarem de um acordo sobre venda de armas a Taiwan. Isto levou alguns importantes observadores a expressarem preocupação com a crescente guerra de palavras entre norte-americanos e chineses. Embora a China sempre tenha manifestado sua oposição ao apoio militar de Washington a Taiwan, o nível dos protestos de Pequim na última semana desatou novas tensões nas relações bilaterais.
“Temos um amplo vínculo com a China. É uma das relações bilaterais mais importantes do mundo. E, dentro de nosso diálogo estratégico e econômico, discutimos uma ampla gama de assuntos”, disse esta semana o secretário de Estado-adjunto dos Estados Unidos, Philio J. Crowley. No mês passado houve vários reveses nas relações bilaterais, começando com o anúncio da empresa Google de que deixaria de censurar os resultados de seu serviço de buscas na Internet na China, conforme acordo anterior com Pequim, em resposta a uma série de ataques informáticos contra suas contas de e-mail. Este anúncio desatou uma guerra de palavras entre Pequim e Washington, com os chineses acusando os norte-americanos de “imperialismo informático”.
Por sua vez, a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez uma crítica sem precedentes à suposta censura feita pelas autoridades chinesas à web, e as acusou de roubo de propriedade intelectual e de espionagem cibernética. Depois, Pequim ameaçou com sanções as empresas dos Estados Unidos que participarem do acordo de venda de armas a Taiwan, anunciado na semana passada pelo Departamento da Defesa norte-americano, no valor de US$ 6,4 bilhões, incluindo mísseis Patriot, helicópteros Black Hawk, barcos varre-minas e outros armamentos. O acordo não inclui aviões de combate F-16 modernizados nem submarinos, armas que Pequim procurou impedir de chegarem a Taiwan pelas mãos dos Estados Unidos.
“Do ponto de vista militar, já que a China conseguiu uma supremacia nessa área no estreito de Taiwan, as consequências dessas vendas são quase nulas”, disse à IPS o diplomata norte-americano aposentado Chass Freeman, ex-conselheiro em assuntos de segurança internacional. A venda de armas foi aprovada no governo Bush, dentro da Lei de Relações com Taiwan, que obriga qualquer administração a fornecer a essa ilha “armas de caráter defensivo”. A forte resposta de Pequim foi vista por especialistas como uma tentativa de dissuadir a futura venda de armas e de mostrar força política.
“A contínua propensão dos Estados Unidos venderem armas a Taiwan, e não manterem a palavra, é algo exasperante para os chineses”, disse Freeman, que também foi intérprete do presidente Richard Nixon (1969-1974) em sua viagem à China, em 1972. “Não é a venda de US$ 6,4 bilhões o que está perturbando, mas o fato de o governo Obama considerar uma próxima venda de F-16”, afirmou.
Especialistas alertam que, apesar de o discurso de Pequim aumentar o tom, o governo chinês não seria capaz de avançar para um rompimento de relações bilaterais com Washington. “Quando um país faz algo que desagrada muito a China, Pequim pode adotar ações punitivas no curto prazo contra alguém ou algumas empresas na nação com a qual está descontente”, disse à IPS o assessor em negócios com a China, Robert A. Kapp. “Mas essas medidas tendem a ter vida curta. É um gesto. A dor é infligida. Na China fica a impressão de que os estrangeiros foram castigados, mas no longo prazo, três ou quatro anos, os efeitos econômicos tendem a ser limitados e transitórios”, acrescentou.
Outro tema que impacta ainda mais as relações é a próxima reunião entre o líder espiritual tibetano Dalai Lama e Obama. “O Dalai Lama é um religioso e líder cultural internacionalmente respeitado, e o presidente se reunirá com ele em tal condição”, afirmou Kapp. O desenvolvimento destas “tensões políticas, militares e econômicas”, nas relações entre Estados Unidos e China, como Freeman descreveu, desperta temores entre analistas de que os dois países possam adotar mais políticas comerciais protecionistas. IPS/Envolverde

