Mundo: Arsenal nuclear israelense confunde negociadores

Nações Unidas, 23/05/2005 – Na conferência da Organização das Nações Unidas sobre desarmamento nuclear, que acontece na sede do órgão em Nova York, os Estados Unidos se concentram nas atividades suspeitas de Irã e Coréia do Norte, mas outros países destacam o impacto do arsenal israelense nos esforços para estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio. Os diplomatas do mundo árabe e de países em desenvolvimento concordam com as preocupações do presidente norte-americano, George W. Bush, quanto ás ambições de Teerã e Pyongyang. Mas nas duas semanas de debates já transcorridas, um negociador após outro pediu urgência à comunidade para colaborar com um Oriente Médio livre de armas nucleares pressionando Israel para que abandone seu programa de desenvolvimento nesse campo.

"A presença de armas nucleares não é apenas um impedimento para a paz na região, mas para todo o mundo", disse o diplomata do Qatar Nasr Al Ali, na conferência em Nova York para avaliar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, que acontece a cada quatro anos. "Estas armas são um grande obstáculo para a paz e a segurança na região", afirmou, por sua vez, o representante saudita, Naif Bin Bandar Al-sudairy. As demandas pelo estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares consta de várias resoluções da Assembléia Geral da ONU e de outras aprovadas por consenso em passadas conferências de revisão do Tratado.

Com 200 a 300 bombas nucleares, Israel, que não é parte do Tratado, anunciou que irá assiná-lo depois da consagração de um acordo de paz definitivo com seus vizinhos árabes, muitos dos quais considera "hostis". O engenheiro israelense Mordechai Vanunu foi libertado em abril de 2004, depois de passar 18 anos na prisão por revelar ao público a existência de um programa de desenvolvimento de armas nucleares. "Uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio seria vista de forma muito favorável por Israel uma desde que tenhamos uma paz completa na área e não haja perigo de ataques ou deslegitimização por parte de outro país", disse o embaixador israelense, Daniel Ayalon.

Funcionários israelenses afirmaram que suas armas nucleares não representam uma ameaça contra outros países, e que apenas servem como dissuasão contra uma invasão por parte de seus vizinhos. "O risco real da proliferação nuclear no Oriente Médio emana de países que, apesar de serem parte de tratados internacionais, não os cumprem", afirmou Alan Bar, diretor do Departamento de Controle de Armas da chancelaria israelense. "Estes países estão comprometidos em gestões para adquirir armas de destruição em massa e mísseis balísticos com um efeito desestabilizador, não apenas em nível regional, mas mundial", acrescentou Bar. O funcionário assegurou que seu país "nunca ameaçou seus vizinhos nem deixou de cumprir obrigações sob nenhum tratado de desarmamento".

Diplomatas árabes rechaçaram tais afirmações. "A paz não se baseia na posse armas de destruição em massa. A paz real deve se consolidar com base na confiança e nas boas intenções. Ter por base libertar a região da injustiça, da ocupação e da agressão", afirmou Sudairy. Os defensores da política armamentista israelense consideram que o Irã é o maior potencial desestabilizador nuclear no Oriente Médio. "A pergunta é se o Irã ameaça o regime de não-proliferação nuclear como um todo, e não se a criação de uma zona livre de armas nucleares é imediatamente factível", disse á IPS Ariel Cohen, analista da Fundação Heritage, instituição acadêmica norte-americana. "Seria factível de certo modo, mas neste momento a ameaça procede da Índia, do Paquistão, e da Coréia do Norte", explicou Cohen.

Índia e Paquistão, rivais e vizinhos na Ásia meridional, testaram suas armas nucleares em 1998 e se negam a assinar o tratado de não-proliferação. Por sua vez, a Coréia do Norte desafiou a pressão dos Estados Unidos e se retirou dessa convenção internacional há dois anos. "Se o Irã violar o tratado, haverá um efeito dominó envolvendo Turquia, Arábia Saudita e Egito. Isso significa que Israel não deverá mais se esconder por trás de sua criativa ambigüidade, mas que terá de engatilhar suas armas. Essa será a contribuição do Irã a um Oriente Médio mais instável", afirmou Cohen. Muitos especialistas compartilham o temor da instabilidade nuclear,mas de uma perspectiva radicalmente diferente.

"O mundo faz bem em recordar que a maioria dos programas armamentistas do Oriente Médio começou como resposta às armas nucleares de Israel", disse Joseph Cirincione, do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. "Todos sabemos que Israel esconde bombas no armário. Levá-las á mesa como parte de um acordo regional poderia ser o único modo de impedir que outros fabriquem as suas no porão", acrescentou. Por outro lado, representantes dos Estados Unidos não indicaram movimentos significativos nessa direção. "Nossa posição não mudou. Pressionamos Israel para que se una ao tratado. Estamos preocupados há muito tempo pela segurança de suas instalações" nucleares, disse um integrante a missão norte-americana na ONU.

Nos anos 90, Estados Unidos, Israel e o mundo árabe manifestaram seu apoio á meta da não-proliferação, mas não conseguiram avançar devido ao estancamento do processo de paz. Numerosos delegados destacaram que a política nuclear norte-americana se baseia em um discurso duplo e na hipocrisia. "Alguns Estados que fazem a guerra contra o armamentismo nuclear defendem Israel, e assim prejudicam as iniciativas de estabelecer uma zona livre dessas armas no Oriente Médio", afirmou o embaixador da Síria, Fayssal Mekdad, em óbvia referência a Washington, que acusa Damasco de apoiar grupos terroristas. O Egito teve um papel de liderança nesta conferência, representando o Movimento dos Países Não-Alinhados, bloco que reúne 115 nações em desenvolvimento integrantes da ONU. Cairo pediu urgência à conferência no sentido de criar um organismo encarregado de implementar suas resoluções anteriores sobre zonas livres de armas nucleares. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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