Oriente Médio: Islã e ambientalistas unidos pela água

Dubai, 25/05/2005 – Autoridades e ambientalistas do Oriente Médio preocupados com a escassez da água encontraram um novo aliado na luta pela preservação desse recurso: a religião. Na realidade, essa aliança não é nova, porque o Islã promove o uso prudente da água e outros recursos naturais, mas agora a Corporação Geral de Eletricidade e Água do Catar decidiu concretizá-la, instalando medidores de água nas mesquitas e nos edifícios governamentais. "O objetivo é conscientizar as pessoas da importância da conservação da água, que é um precioso recurso natural", explicou Jalid al Mansouri, diretor da Rede de Fornecimento de Água.

Todas as mesquitas contam com grandes lavatórios para a cerimônia do "wazu", a lavagem obrigatória de mãos, pés e outras partes do corpo antes das orações. Várias possuem refrigeradores de água para beber, doados por organizações religiosas de caridade, mas não se controla o uso da água nem a quantidade de pessoas que entram nesses recintos no horário das orações. Além disso, os vizinhos usam grandes quantidades de água dos lavatórios para fins pessoais, como para lavar veículos. Motoristas que passam pelo lugar e trabalhadores de baixa renda que não possuem refrigeradores também se abastecem dessa água para beber. A Corporação Geral de Eletricidade e Água do Catar espera que a instalação desses medidores permita, pelo menos, registrar estatisticamente o volume consumido.

"É bom saber destas medidas", disse um imã (clérigo que conduzi as orações) em uma mesquita de Sharja, Emirados Árabes Unidos. "Nós ainda não contamos com medidores, mas, difundindo a pregação de nosso profeta (Maomé), esperamos conscientizar os fiéis sobre a necessidade de conservar o precioso recurso", afirmou. A palavra "ma", que significa "água" em árabe, aparece mais de 60 vezes no Corão, o texto sagrado dos muçulmanos, que promove o uso sustentável do recurso, baseado nos valores de justiça, igualdade e preocupação com os semelhantes. Vários "haidith", ou ditados de Maomé, destacam esse princípio, segundo o livro "Conservação da Água Através da Conscientização Pública Islâmica na Região do Mediterrâneo Oriental".

Segundo esses ditados, não se deve desperdiçar água nem mesmo quando se tem um rio por perto, explicam os autores do livro, S. Atallah, M. Z. Ali Khan e M. Malkawi. Porém, advertem sobre o que consideram más interpretações desses ditos. "O profeta Maomé dizia que as pessoas são sócias no uso da água, da pastagem e do fogo. Alguns usam isso contra a imposição de tarifas para reduzir o uso da água, e afirmam que ela deveria ser fornecida gratuitamente, porque é assim que chega do céu até os reservatórios subterrâneos", mas isto é "uma interpretação incorreta", afirmaram. O consumo de água no Oriente Médio é muito alto em comparação com a disponibilidade do recurso. Nos Emirados Árabes Unidos, cada pessoa consome, em média, 378,5 litros por dia.

Em nível mundial, o uso da água cresce entre 8% e 10% ao ano. Enquanto isso ocorre, as reservas de água subterrânea doce, há 30 anos, vêm diminuindo ao ritmo de um metro por ano. A recarga anual dos recursos subterrâneos nos Emirados é estimada em 20 milhões de metros cúbicos, enquanto a extração chega a 880 milhões de metros cúbicos. "Nossos recursos hídricos estão sob pressão por três razões principais: rápido crescimento da população, expansão do setor agrícola e industrial e condições climáticas", explicou Essam Al Muhairi, pesquisador de uma empresa de desanilização do Emirado de Dubai. Por outro lado, na Arábia Saudita a demanda aumentou de um milhão para cerca de cinco milhões de metros cúbicos por dia nos últimos 25 anos. Para 2030, prevê-se que o consumo chegará a 12 milhões de metros cúbicos por dia.

Em todos os membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CGC), que compreende os Emirados, Bahrein, Arábia Saudita, Omã, Catar e Kuwait, o consumo de água potável subiu de 1,9 bilhão de metros cúbicos, em 1958, para 3,9 bilhões em 1999, e se prevê que chegue a 8,8 bilhões em 2010. Para atender a essa crescente demanda, os governos desse grupo recorrem à desalinização. Os seis membros investiram em conjunto mais de US$ 40 bilhões na construção de aproximadamente 550 estações de desalinização nos últimos 25 anos. "Os cinco países árabes ricos em petróleo (Kuwait, Catar, Bahrein, Arábia Saudita e Emirados) são parte dos nove países com menos água por habitante. Nos Emirados, o custo de um litro de gasolina e o de um litro de água é quase igual", disse Essam. (IPS/Envolverde)

Meena S Janardhan

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