HAITI: Promessas de ajuda deixam muitas dúvidas

Nova York, 09/04/2010 – Há uma semana, 59 Estados-membros da Organização das Nações Unidas e organizações não governamentais prometeram US$ 10 bilhões para reconstruir o Haiti na próxima década.

 - Sophia Paris/UN DPI

- Sophia Paris/UN DPI

Mas ainda reina certa incerteza. Ativistas questionam tanto o plano de reconstrução como a possibilidade de os doadores efetivamente cumprirem suas promessas. No encontro de Nova York, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, também anunciou a criação de uma base de dados na Internet para seguir o rastro do dinheiro entregue.

Já que os compromissos da conferência não são vinculantes, há o temor de que outras prioridades internacionais acabem bloqueando a arrecadação de fundos. Em um comunicado de imprensa anterior à reunião de doadores, Philippe Mathieu, da organização Oxfam, recordou que apenas 30% do dinheiro prometido para o país caribenho, após o furacão Mitch de 1998, foi efetivamente desembolsado. Na própria conferência, o ex-presidente Bill Clinton, atual enviado especial da ONU para o Haiti, admitiu que “fracassou” em seus esforços para reunir fundos antes do terremoto.

“A Oxfam presenciou outras grandes conferências” de doadores, disse Nicole Widdersheim, diretora do escritório da organização em Nova York. “No final do dia, quando as câmeras são desligadas e todos vão para casa, restam promessas. Ainda não se transformaram em dinheiro real”. Acrescentou que dependia “da mídia e das organizações de ajuda” para responsabilizar as nações doadoras por seus anúncios. As dúvidas sobre a distribuição do dinheiro e o contexto para o planejamento e implementação da reestruturação impediram qualquer comemoração após a reunião.

A reunião conseguiu superar a meta inicial (US$ 3,8 bilhões nos próximos 18 meses), mas os haitianos questionam se os recursos efetivamente trarão benefícios. Jessica Desvarieux, repórter da revista norte-americana Time, escreveu, de Porto Príncipe, que “os haitianos temem que o dinheiro da ajuda não chegue ao povo, mas que seja usado pelo governo para seus próprios interesses”. Wideersheim afirmou que o processo de reconstrução excluiu a sociedade haitiana, porque a avaliação do desastre feita pelo governo de René Préval não inclui praticamente nenhuma contribuição dos sobreviventes.

“Muitas organizações de haitianos sentem que o processo consultivo foi nulo e vazio”, disse Widdersheim. “À pessoa média, sentada em uma cadeira de plástico em um acampamento nos arredores de Porto Príncipe, realmente não foi perguntado o que deseja”, acrescentou. Segundo a diretora da Oxfam, o governo haitiano acelerou a avaliação para poder apresentá-la a tempo na conferência de doadores. Assim, poucos sobreviventes do terremoto estavam sequer sabendo que o processo de reconstrução começara. “A maioria das pessoas nos acampamentos nem mesmo sabiam que era realizado” um estudo de avaliação sobre suas necessidades, disse, por sua vez, a jornalista.

O sociólogo e especialista em temas haitianos, Mark Schuller, da City University de Nova York, afirmou que o processo de reconstrução “claramente foi elaborado de cima para baixo”, sem consideração real das necessidades da população. Também disse que grupos de base no Haiti estavam realizando seus próprios estudos de avaliação. “Vi dados cuidadosamente coletados que foram totalmente ignorados”, disse Desvarieux, citando um detalhado censo que incluiu mais de 11.600 pessoas em um único acampamento.

Schuller teme que, sem a inclusão de organizações civis e dos próprios sobreviventes no processo, inevitavelmente sejam repetidos erros de passados esforços de desenvolvimento. “O que vocês estão vendo é uma repetição do mesmo processo de exclusão”, afirmou, alertando que os doadores, “que têm pouco a ver com a realidade no local”, poderiam conduzir um esforço que apenas “reforça muitos dos problemas do Haiti, anteriores ao terremoto”. Esse país caribenho tinha uma população e uma economia excessivamente centralizadas. A área de Porto Príncipe produzia quase 80% do produto interno bruto. Agora há planos para mudar o aparato governamental para outra parte do território. IPS/Envolverde

Armin Rosen

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