DESTAQUES: O grande olho do sul em busca de vida extraterrestre

SANTIAGO, 04/05/2010 – (Tierramérica).- Cientistas chilenos destacam os benefícios que trará a decisão do Observatório Europeu Austral de escolher as alturas andinas de seu país para esquadrinhar o universo.

Maquete projetada em computação mostra como será o telescópio E-ELT. - Gentileza do Observatório Europeu Austral

Maquete projetada em computação mostra como será o telescópio E-ELT. - Gentileza do Observatório Europeu Austral

A instalação na região de Antofagasta do maior telescópio do mundo pode converter o Chile – segundo acadêmicos – em líder na pesquisa astronômica e permitir o avanço de outras disciplinas científicas. O Monte Armazones, de 3.060 metros de altura em pleno deserto de Atacama, foi escolhido pelo Observatório Europeu Austral (ESO) para instalar sua mais recente joia destinada a encontrar, graças à sua capacidade de detectar atmosferas, planetas fora do Sistema Solar que abriguem vida.

Trata-se do Telescópio Europeu Extremamente Grande (E-ELT), que será ótico infravermelho, terá um espelho primário de 42 metros de diâmetro e custo de US$ 1,5 bilhão. “Até o final desta década, o Chile concentrará um grande número de instrumentos de observação e se transformará em um grande centro astronômico mundial”, previu ao Terramérica o diretor do Departamento de Astronomia da Faculdade de Ciências Físicas e Matemáticas da Universidade do Chile, Mario Hamuy. Seus trabalhos, e de outros astrônomos chilenos e estrangeiros no campo das estrelas supernovas, ajudaram na descoberta da expansão acelerada do universo.

A responsável por esse fenômeno é a chamada energia escura, que constitui 70% do conteúdo do universo. O E-ELT poderia ter um papel crucial em determinar a origem desta misteriosa matéria, disse o cientista chileno. Em um comunicado divulgado no dia 26 de abril, porta-vozes do ESO disseram que vários fatores jogaram a favor da proposta chilena, que deixou pelo caminho a da ilha espanhola de La Palma. Principalmente a “qualidade astronômica” de seu céu, com mais de 320 noites claras por ano e ausência de poluição luminosa.

Também foram considerados custos de construção e operação, e as “sinergias” com as demais instalações do ESO no norte chileno, os observatórios Paranal e La Silla, e o projeto Alma (Grande Conjunto Milimétrico/Submilimétrico de Atacama), que a entidade criada por 14 países europeus terminará de construir em 2012, junto com outras instituições. Além do Monte Armazones, a 1.200 quilômetros de Santiago, o governo chileno ofereceu outros três lugares para receber “o maior olho do mundo no céu”, que entrará em operação em 2018.

No país também existem os observatórios Cerro Tololo, operado por um consórcio de universidades privadas norte-americanas, e Las Campanas, da também privada Carnegie Institution for Science, com sede em Washington. “A comunidade astronômica nacional se desenvolveu muito bem nos últimos 15 anos, especialmente porque temos acesso a 10% do tempo de observação de todos os telescópios estrangeiros instalados no país”, explicou ao Terramérica o presidente da Sociedade Chilena de Astronomia, Leopoldo Infante.

O Chile, com 17 milhões de habitantes, passou, nas últimas décadas, de 20 para uma centena hoje, que publicam suas pesquisas nos mais prestigiados meios de comunicação científicos do mundo. O Estado tem a oportunidade de transformar o país em “líder na pesquisa astronômica” com um “modesto investimento”, destacou Hamuy. Para isso deveria “focar recursos” para o “projeto e construção de instrumentos” de observação próprios, sugeriu.

“Falta entrarmos na fase da transferência tecnológica, para a qual precisamos de incentivos estatais”, concordou Infante, também diretor do Centro de Astroengenharia da Universidade Católica, que participou da descoberta da galáxia mais afastada da Terra. O governo parece ter captado a mensagem: a presidente da governamental Comissão Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, María Elena Boisier, assegurou que está sendo implantado um plano de fundos para o desenvolvimento de instrumentos e áreas como a engenharia e as tecnologias da informação que estão associadas ao E-ELT.

Para o presidente da Academia Chilena de Ciências, Juan Asenjo, os êxitos no campo astronômico “deveriam extrapolar para outras disciplinas científicas”, como geofísica, física experimental e geologia. “A sociedade chilena, os políticos e empresários não têm ideia de que no Chile se faz ciência de primeiro nível mundial, e não existe o conceito de que os desenvolvimentos científicos levam a uma melhor qualidade de vida”, acrescentou Asenjo, ganhador em 2004 do Prêmio Nacional de Ciências Aplicadas e Tecnológicas. Esta percepção, a seu ver, impede a destinação de maiores recursos a essa área.

Asenjo falou ao Terramérica sobre o trabalho dos especialistas em sismologia chilenos, que na década de 90 previram a ocorrência de um devastador terremoto nas regiões centro e sul do país, tal como ocorreu em 27 de fevereiro deste ano. Esses trabalhos nunca tiveram a difusão nem o impacto que mereciam apesar das graves consequências desses fenômenos. O presidente chileno, Sebastián Piñera, prometeu elevar o investimento em pesquisa e desenvolvimento do atual 0,7% do produto interno bruto para 1,2% até o final de seu mandato, em 2014.

* A autora é correspondente da IPS.

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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