Interesses no Oriente Médio contra o desarmamento nuclear

Nova York, 07/05/2010 – A proposta de criar uma zona livre de armas atômicas no Oriente Médio pode levar ao fracasso a Conferência das Partes encarregada do exame do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNPN) O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, chamou de “reconhecido fracasso” a revisão do tratado de 2005 e reiterou a necessidade de criar uma zona livre de armas nucleares (ZLAN), segundo declarações ao International Herald Tribune na semana passada.

“O Egito armará um grande alvoroço, como o Irã”, disse Joseph Gerson, diretor de desarmamento do Comitê de Serviços de Amigos Norte-Americnaos. “Mas as crises sempre abrem uma oportunidade. Vejamos o que se pode fazer a respeito”, afirmou o autor de “Empire and the Bomb: How U. S. Uses Nuclear Weapons to Dominate the World” (Império e a Bomba: Como os Estados Unidos recorrem às Armas Nucleares para Dominar o Mundo).

“Há quem tenha medo de que o assunto jogue por terra a conferência”, afirmou Anne Penketh, diretora de programa do Conselho Britânico Norte-Americano de Informação para a Segurança (Basic). “No entanto, creio que o Egito pode chegar a ser mais flexível do que parece, e os Estados Unidos podem realizar grandes esforços de negociação com esse país”, acrescentou. Um esforço de boa fé sobre medidas práticas pode representar um grande avanço, mas é muito cedo para saber que rumo tomarão as negociações, acrescentou.

A Casa Branca afirma que é bom para as negociações de paz a criação de uma ZLAN no Oriente Médio. Washington apoia de forma incondicional a segurança de Israel, único país dessa região com armas nucleares. Mas, “se for permitido manter o beco sem saída, será como ceder a Israel, país signatário do TNPN, a possibilidade de vetar o futuro do tratado”, disse Penketh no estudo “Peeling the Onion: Towards a Middle East NWFZ” (Descascando a Cebola: para uma ZLAN no Oriente Médio).

Causam preocupação as armas atômicas que, oficialmente, não se reconhece que Israel possui e o profundo sentimento de injustiça que têm os Estados árabes, que acusam os países nucleares de “duplo discurso”, acrescentou. Também dizem que “protegem Israel enquanto aplicam sanções a países como o Irã, que insiste em seu direito de ter energia nuclear para fins civis”, acrescentou Penketh. “Sempre foi usado o duplo discurso na realpolitik, política pragmática, para o Irã”, respondeu Gerson ao ser consultado sobre o assunto.

Desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as grandes potências ocidentais fizeram o que consideraram necessário para controlar o “centro geopolítico da luta pelo poder mundial”, como disse o escritor e ativista Eqbal Ahmad. A Primeira Guerra Mundial foi uma luta pelo controle do moribundo Império Otomano e pelo que Winston Churchill (1874-1965) considerou como “prêmio”, em alusão ao petróleo do Oriente Médio.

O Irã é considerado uma ameaça para o controle dos Estados Unidos sobre essa rica região em petróleo. Quando a República Islâmica desafia a ordem estabelecida, movimentam-se esforços para colocá-la no lugar, disse Gerson. “Para ser claro, creio que nenhuma nação deveria ter armas nucleares, nem mesmo centrais” de geração de energia, ressaltou. “O uso de armas atômicas é genocida e as centrais nucleares apresentam um perigo inerente, não só pela possibilidade de fusão do núcleo, mas porque ainda há a necessidade de se desfazer do lixo radioativo que contamina a Terra e é um perigo para a vida por dezenas de milhares de anos”, explicou.

Os Estados Unidos têm uma aliança tácita com a Índia, ao mesmo tempo em que procura se acercar da China, enquanto o Paquistão é um aliado importante de Washington na Ásia central, disse Gerson ao ser consultado sobre o duplo discurso da Casa Branca para esses países. “Não irá pressioná-los”, afirmou Gerson, como já se viu na cúpula de segurança organizada em abril pelo presidente Barack Obama.

Há tempos que Israel é considerado o martelo dos Estados Unidos no Oriente Médio, porque lhe permite reforçar sua hegemonia na região. O Estado Judeu conta, ainda, com o poder do lobby sionista, acrescentou. “Os próximos dias podem deixar interessantes as tensões entre Estados Unidos e Israel e pela tentativa de Cairo de dar relevância ao assunto das armas nucleares israelenses na conferência sobre o TNPN”, disse Gerson.

Washington negou visto a cientistas e engenheiros israelenses que pretendiam entrar nos Estados Unidos para aprofundar seus estudos, fato que teve pouca divulgação, disse Gerson. “Apoiamos os esforços para declarar uma ZLAN na região, segundo a resolução sobre Oriente Médio de 1995”, afirmou, no dia 3, a secretária de Estado, Hillary Clinton, na abertura da cúpula. “Estamos preparados para apoiar medidas práticas que nos aproximem desse objetivo”, acrescentou, após declarar que o Oriente Médio pode ser a maior ameaça mundial contra o desarmamento nuclear.

Há várias ZLAN na África, Ásia central, América Latina e Caribe, bem como na Mongólia. Faltam no Oriente Médio e na Ásia meridional, onde estão Índia e Paquistão. O governo Obama enviará ao Senado protocolos para ratificar a participação nas ZLAN criadas na África e no sudeste asiático, anunciou Hillary. “Estamos dispostos a realizar consultas na Ásia central e no sudeste asiático para conseguir um acordo que nos permita assinar esses protocolos”, acrescentou. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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