Washington, 13/06/2005 – Se os Estados Unidos desejam a democratização do Oriente Médio, devem apoiar a participação política de grupos islâmicos que renunciarem à violência, em uma "evolução" democrática, exortou o Conselho de Relações Exteriores, grupo de especialistas independentes. Ao mesmo tempo, Washington deve promover mecanismos constitucionais, por exemplo, sistemas judiciais independentes ou câmaras legislativas eleitas especialmente para enfrentar "a tirania da maioria" e impedir que movimentos fundamentalistas "dominem sistemas políticos mais abertos. Para o bem ou para o mal, os movimentos e partidos políticos islamitas terão um papel destacado em um Oriente Médio mais democrático", disseram os autores de um relatório patrocinado por esse influente gabinete de especialistas com sedes em Washington e Nova York.
O documento foi dirigido por Madeleine Albright, secretária de Estado no governo democrata de Bill Clinton (1993-2001) e pelo ex-legislador republicano Vin Weber. O informe de 65 páginas, intitulado "Apoiando a democracia árabe: por quê e como", diz que "os Estados Unidos devem permanecer alerte frente a organizações terroristas, mas não deve permitir que líderes do Oriente Médio usem a segurança nacional como desculpa para reprimir organizações islamitas não-violentas". A divulgação do relatório acontece em meio a uma crescente incerteza sobre a direção dos supostos esforços de democratização de Washington no Oriente Médio, onde a invasão do Iraque criou um fermento político e uma violência sem precedentes.
Além das eleições dos últimos seis meses na Palestina e no próprio Iraque, a retirada das tropas sírias do Líbano, as eleições municipais na Arábia Saudita e uma reforma constitucional por enquanto apenas cosmética no Egito criaram, pelo menos, uma perspectiva de transformação no Oriente Médio, segundo o governo de George W. Bush. Entretanto, o potencial enfraquecimento das elites pró-norte-americanas na Arábia Saudita e em outros grandes exportadores de petróleo, bem como a possível chegada ao poder de movimentos islamitas antiocidentais, representam graves riscos para Washington em uma região onde tem vitais interesses de segurança. O governo Bush investiu até agora US$ 200 bilhões para sustentar as operações militares no Iraque, mas seu orçamento para a promoção da democracia no Oriente Médio não supera os US$ 100 milhões ao ano, e, de fato, caiu desde 2003.
Em uma viagem pela região no mês passado, a mulher do presidente Bush, Laura Bush, surpreendeu ativistas árabes pela democracia ao elogiar o presidente egípcio, Hosni Mubarak, por tomar "uma medida muito audaz" ao promover uma reforma constitucional que a maioria dos especialistas coincide em qualificar de "cosmética", no melhor dos casos. Especialmente preocupante é a percepção de que os beneficiários imediatos de reforma são grupos fundamentalistas islâmicos antinorte-americanos, como os Irmãos Muçulmanos Sunitas no Egito e Síria, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) na Palestina, e o grupo xiita Hizbolá no Líbano, apoiado pelo Irã. O risco de dar poder aos radicais islâmicos através da reforma democrática é fonte de preocupação e debate dentro de Washington e inclusive entre correntes ideológicas que apóiam as políticas unilateralistas de Bush.
Por exemplo, os neoconservadores estão divididos entre os que exortam o governo para tratar diretamente co ma Irmandade Muçulmana no Egito e os que se opõem a essa medida e consideram uma prioridade "a desaceleração da política de democratização no Iraque". A política norte-americana em relação a grupos islâmicos armados (como o Hamas ou o Hizbolá, incluídos na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado) também é um tema de discórdia. Não é segredo que o governo Bush não fez nenhuma objeção à decisão do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de adiar as eleições legislativas previstas para o próximo mês, principalmente pelo fundado temor de que o Hamas obteria um forte apoio nas urnas.
É nesse contexto chegou às suas conclusões o grupo de trabalho do Conselho de Relações Exteriores, que se reuniu no Cairo com especialistas e ativistas árabes. A primeira conclusão é que o Oriente Médio não deve ser considerado uma exceção à promoção da democracia no exterior. Entretanto, essa promoção deve ser feita "a longo prazo, tendo em conta que a democracia não pode ser imposta de fora nem de forma repentina", advertiram os especialistas. "O objetivo dos Estados Unidos no Oriente Médio deve ser a promoção de uma evolução democrática, não uma revolução", e a reforma ser promovida "país por país", considerando os problemas específicos, aconselharam os especialistas. (IPS/Envolverde)

