PARIS, França, 27/07/2010 – (Tierramérica).- Na costa atlântica da Nicarágua, um projeto procura preservar uma cultura indígena promovendo o desenvolvimento sustentável.
Atualmente, esta entidade sem fins lucrativos emprega cerca de 20 técnicos desses dois países e outros tantos colaboradores nicaraguenses. Guillaume e Mathias passaram sua infância em Bluefields e são filhos da linguista e antropóloga norte-americana Colette Craig, que trabalhou na Nicarágua na década de 80. Regressaram 20 anos mais tarde, Mathias como engenheiro e Guillaume como administrador, para prosseguirem o trabalho de conservação cultural de sua mãe, complementado com desenvolvimento ambiental, contou ao Terramérica Anne-Cécile Mailfert, diretora da filial francesa da blueEnergy.
Em seis anos de operação, a organização instalou paineis solares e pequenas turbinas que produzem 12 quilowatts/hora. Além disso, distribuiu mais de 50 filtros que fornecem água potável a 12 comunidades de aproximadamente três mil pessoas. Também entregou freezers para uso coletivo de pescadores e liderou a construção e instalação de equipamentos de pequenos hotéis ecológicos para incentivar o turismo.
Estas instalações não se limitam a Bluefields, capital da Região Autônoma do Atlântico Sul, e chega a comunidades inclusive mais isoladas, como Monkey Point, 50 quilômetros ao sul e acessível apenas de barco. A aldeia conta hoje com eletricidade gerada por turbinas eólicas e água potável, graças a filtros operados com essas turbinas. O resgate cultural tem suas razões. A língua dos rama procede da família de idiomas chibchas da região central da atual Colômbia, e poderia ser uma chave para entender as migrações pré-colombianas. No entanto, está em risco de extinção, pois pouquíssimas pessoas a utilizam.
O Terramérica conversou sobre estes temas com Anne-Cécile Mailfert em Paris.
Terramérica: Além das razões familiares, qual outra motivação tiveram os irmãos Craig e Lâl Marandin para trabalhar em Bluefields?
Anne-Cécile Mailfert: Sabiam das dificuldades econômicas e deficiências em infraestrutura de eletricidade na região. Bluefields é muito isolada, quase sem ligação com a rede elétrica nicaraguense. Além disso, as correntes dos rios locais são fracas, de modo que hidrelétrica não é uma alternativa. Destas dificuldades, a blueEnergy fez uma virtude, ao usar o Sol e o vento. Por outro lado, estamos considerando o uso da biomassa como uma fonte energética adicional. Dessa forma são atendidos dois objetivos: fornecer eletricidade a uma região muito necessitada e evitar a contaminação.
Terramérica: Mas a blueEnergy não fornece apenas energia limpa…
ACM: Outro objetivo essencial é colocar à disposição dos indígenas rama instrumentos de desenvolvimento e preservação de sua cultura, de sua língua. Para isso cooperamos com a população com programas educacionais e colocamos à sua disposição equipamentos como freezers para os pescadores. Nossos equipamentos são simples, pois a intenção é que os rama adquiram e desenvolvam competências em áreas da vida econômica e cultural cruciais para sua existência. Além do mais, como o acesso a Bluefields é muito difícil, custa muito transportar pessoas ou equipamentos até lá. Instalamos sistemas de água potável em várias comunidades, ajudamos a criar associações comerciais com as mulheres rama, realizamos estudos de viabilidade econômica para microprojetos e damos assessoria aos indígenas em questões financeiras, como a obtenção de microcréditos. A energia limpa é apenas um meio para incentivar o desenvolvimento econômico local e a conservação da cultura rama.
Terramérica: Como as entidades nicaraguenses reagiram a estas iniciativas?
ACM: Temos programas de cooperação com o estatal Instituto Nacional Tecnológico, que supervisiona a formação técnica e profissional em todo o país, e com o Fundo para o Desenvolvimento da Indústria Elétrica Nacional. Também cooperamos com o projeto Ecofogão da Pró-Lenha, uma organização não governamental cujo objetivo é o uso mais eficiente, moderno e sustentável da biomassa nos setores doméstico e industrial, rural e urbano.
Terramérica: Em nível internacional, quais são os associados da blueEnergy?
ACM: A Kiva, organização de microcréditos com sede em São Francisco, nos Estados Unidos, apoia o escritório de microcréditos em Bluefields. Também trabalhamos com a Good Energies, uma companhia internacional de investimentos em energia limpa; com a Trojan, que fabrica baterias e acumuladores, e com várias empresas de engenharia e eletrotécnica.
* O autor é correspondente da IPS.


