Como baixar a mortalidade materna sem ajuda estatal

Lilongwe, Malauí, 29/09/2010 – A população do distrito rural de Ntcheu, no centro do Malauí, se propôs a reduzir a alta mortalidade materna em seu território. Praticamente a erradicaram, obrigando as grávidas a darem à luz sob supervisão médica. A campanha lançada pelo chefe Kwataine, que tem 89 aldeias sob sua responsabilidade em Ntcheu, se concentrou primeiro em certas crenças tradicionais associadas à gravidez, como o primeiro filho ter de nascer em casa, ou o marido decidir quando é necessário recorrer ao médico. Também proibiu o trabalho das parteiras em suas aldeias e obrigou as mulheres grávidas a darem à luz no hospital. Além disso, entre duas e cinco orientadoras possuem um registro de cada gravidez nas 89 aldeias e ajudam as mães a conhecerem os melhores cuidados. Mensagens escritas com spray nas paredes das cabanas recordam práticas saudáveis importantes. “Também controlamos as visitas ao hospital”, disse Pilirani Nkhoma, uma das orientadoras. “Cada vez que as mulheres vão a uma consulta de rotina, nos trazem a carteira para sabermos das anotações do médico”, contou.

Entre 2000 e 2005, antes que o chefe Kwataine lançasse a campanha de educação, morreram 52 mulheres por causas relacionadas com gravidez, parto ou puerpério. Já nos últimos três anos, nenhuma morreu nas 89 aldeias sob sua autoridade. É uma situação única no país, onde morrem 510 mulheres em cada 100 mil nascidos vivos, segundo o Fundo de População das Nações Unidas. O número está abaixo das 807 que perderam a vida em 2006, mas não basta para que este país cumpra o quinto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), de reduzir a mortalidade materna em três quartos entre 1990 e 2015.

As outras metas são reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome, com relação a 1990; garantir a educação primária universal; promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil; combater a aids, a malária e outras enfermidades; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Tudo isto até 2015.

Para cumprir o quinto ODM, o Malauí deve reduzir a mortalidade materna para pelo menos 155 mulheres em cada 100 mil nascidos vivos, o que o governo afirma ser impossível. Para que a iniciativa de Kwataine tenha êxito deve ser mantida no longo prazo. Para isso são necessários recursos humanos e econômicos, além de superar vários obstáculos. O hospital mais próximo ao território sob sua autoridade recebe o dobro de grávidas que pode atender.

“De todo ponto de vista, sua campanha é um enfoque brilhante”, disse à IPS um funcionário da saúde que não quis se identificar. “No entanto, balançamos porque não temos os recursos necessários”, acrescentou. Especialistas temem um retrocesso por falta de profissionais e de capacidade nos hospitais. O Ministério da Saúde não consegue resolver o problema. Em 2005, prometeu contratar mais parteiras e melhorar os centros de saúde, mas a quantidade de profissionais ainda é insuficiente e os hospitais continuam mal equipados.

A Rede de Igualdade em Saúde do Malauí (MHEN), com sede em Lilongwe, responsabiliza pela situação a má distribuição de fundos. Nos últimos quatro anos, o Ministério destinou entre 50% e 60% de seus recursos anuais para financiar atividades em sua sede, segundo uma análise do orçamento feita pela MHEN, uma aliança independente de organizações que promovem a igualdade e a qualidade na atenção médica.

“O dinheiro é gasto em prestações e veículos que circulam pelas ruas da capital, quando 80% da população vive em zonas rurais, onde os problemas de saúde são mais graves”, lamentou Martha Kwataine, diretora-executiva do MHEN. Conscientes das questionáveis prioridades do Ministério, o chefe Kwataine e sua gente decidiram não esperar pelo governo.

A população rural, apesar de majoritariamente pobre, tem capacidade para encontrar soluções próprias que reduzam a mortalidade materna, disse o chefe Kwataine. Dentro de sua iniciativa, ele conseguiu a doação de dinheiro para construir uma clínica obstétrica básica de emergência. “Acreditamos que a clínica aliviará a pressão sobre o hospital, o que permitirá às mulheres receberem melhores serviços e garantirá um atendimento mais rápido aqui”, destacou.

O chefe Kwataine tem esperanças de que o governo tome conhecimento dos êxitos registrados em seu território e destine fundos para que outras comunidades imitem a iniciativa. “Se diferentes comunidades embarcarem em projetos como este no resto do país, e se o governo as apoiar, o Malauí terá uma história melhor para contar em 2015”, ressaltou. Envolverde/IPS

Charles Mpaka

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