KIGALI, 18/11/2010 – Dois anos de formação de parteiras tradicionais em áreas rurais remotas permitiram ao Ruanda reduzir a mortalidade materna, afirma o Departamento de Saúde daquele país. No Ruanda, onde quase metade das mulheres dá à luz em casa, a maioria das parteiras tradicionais são trabalhadoras não qualificadas que dependem das competências que lhes são transmitidas pelas mulheres mais velhas da comunidade. Muitas delas utilizam equipamento não esterilizado, por vezes prejudicando mãe e bébe.
Sendo extremamente pobres, as mães grávidas estão muito dependentes das parteiras tradicionais visto não terem acesso aos serviços públicos de saúde, uma vez que não têm os recursos necessários para pagarem o transporte para a clínica ou hospital mais próximos.
Laetitia Mureshyankwano, uma mãe de 42 anos que vive no distrito montanhoso de Gisagara, no sul do país, diz que teve cinco filhos com a ajuda das parteiras tradicionais, mas só dois bébes sobreviveram ao parto.
Como Mureshyankwano, muitas mulheres nas zonas rurais sofreram muito quando tiveram complicações durante o parto, enquanto outras descrevem o medo de serem infectadas com o VIH devido a precauções insuficientes com a segurança e saneamento.
“Embora usem luvas e aventais durante o parto, não nos sentimos seguras porque não sabemos o grau de limpeza do equipamento,” explica Mureshyankwano. Ela acredita que o programa de formação das parteiras tradicionais é uma boa iniciativa para melhorar a situação das mulhers grávidas que vivem em áreas remotas.
Segundo as estatísticas do Fundo das Nações Unidas para a Infância, em 2008 o Ruanda apresentou uma taxa de mortalidade materna de 750 mortes por 100.000 pessoas. O Departamento de Saúde nacional está confiante que o próximo relatório, que deverá ser apresentado em 2011, mostrará uma melhoria significativa relativamente a este número.
Na cimeira das Nações Unidas sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) realizada em Nova Yorque em Setembro, o Ruanda foi aplaudido pelo “importante progresso” alcançado na consecução do ODM 5, referente à melhoria da saúde materna.
“O governo está empenhado em alcançar a meta de nenhuma morte porque nenhuma mulher deve morrer durante o parto,” observpu a Secretária Permanente do Ministério da Saúde, Agnes Binagwaho, acrescentando que, através do programa de formação das parteiras tradicionais, “este empenho tornou-se realidade porque as comunidades estão mais bem servidas.”
A fim reduzir a mortalidade materno-infantil, o Ministério da Saúde do Ruanda lançou um programa de formação destinado às parteiras tradicionais em Agosto de 2008, que lhes ensina técnicas de enfermagem e de obstetrícia básicas. Através do programa, o Ministério da Saúde também espera resolver a escassez geral de trabalhadores de saúde, especialmente nas zonas rurais.
O Ruanda tem menos de uma parteira por 10.000 pessoas, de acordo com as estatísticas do Departamento.
As parteiras tradicionais que não participaram no programa de formação estão oficialmente proibidas de assistirem a partos mas podem ajudar a monitorizar as gravidezes, encorajar as mulheres a receberem cuidados pré-natais regulares e educá-las sobre potenciais problemas.
Para ajudar as parteiras tradicionais recentemente formadas, o Departamento de Saúde também providenciou telemóveis para 432 trabalhadoras de saúde comunitárias responsáveis pela saúde materna a nível distrital. Através delas, as parteiras tradicionais podem agora comunicar os casos difíceis e as complicações ou emergências à clínica ou hospital mais próximos.
O governo também comprou 67 ambulâncias, uma para cada hospital distrital, para assegurar que as mulheres grávidas em zonas rurais possam aceder a cuidados de emergência.
Funcionários do Departamento de Saúde afirmaram que não podiam divulgar o orçamento disponível para o programa de formação das parteiras tradicionais e iniciativas semelhantes.
O Departamento de Saúde reconhece que terá de continuar a investir nos cuidados de saúde materna. Outros serviços de saúde materna e sexual, como o planeamento familiar, vão também precisar de serem reforçados.
Para assegurar a sustentabilidade a longo prazo do programa das parteiras tradicionais será crucial que as parteiras tradicionais formadas recebam um nível de remuneração que as encoraje a continuar a trabalhar nas zonas rurais em vez de procurarem empregos nos hospitais e clínicas das zonas urbanas – como muitos trabalhadores de saúde qualificados o fizeram no passado.
Marie Rose Mujawamariya, residente no distrito de Kamonyi, uma hora a sul de Kigali, a capital do Ruanda, é uma das parteiras tradicionais que recentemente participaramu no programa de formação de parteiras tradicionais de Departamento de Saúde.
Ela ainda não recebe um salário do Ministério da Saúde, mas diz esperar que a formação a ajude a criar uma melhor fonte de rendimento.
Enquanto anteriormente os seus clientes negociavam os honorários pagos pelos seus serviços, Mujawamariya planeia cobrar $10 por parto com base nas suas novas competências.
Embora Mujawamariya costumasse ajudar as mulheres com base naquilo que tinha aprendido da avó, agora fala com orgulho das suas novas competências como parteira, como verificar a posição da criança ainda por nascer para se certificar que pode efectuar-se um parto natural ou determinar quando é necessário prestar assistência médica.
“Agora posso ajudar as mulheres a terem um parto seguro,” declarou.
Diz Mujawamariya: “Esta medida (proporcionar formação às parteiras tradicionais) dá esperança que a saúde da mãe e da criança sejam garantidas.”

