Política: Bush e Ahmedinejad, muitas semelhanças apesar dos enfrentamentos

Washington, 30/06/2005 – Apesar do acirrado enfrentamento entre seus dois países, os presidentes George W. Bush, dos Estados Unidos, e Mahmood Ahmedinejad, do Irã, apresentam destacáveis semelhanças. As táticas aplicadas por ambos em suas campanhas eleitorais demonstram que são "almas gêmeas", afirmou o historiador e especialista em assuntos do Oriente Médio Juan Cole, da Universidade de Michigan. Ambos apresentaram um discurso populista. Os dois criticaram em suas últimas campanhas eleitorais os governos que integravam. Tanto Bush quanto Ahmedinejad se apoiaram em forças religiosas direitistas. Também se assemelham em certas características pessoais, como a falta de preocupação pelo que acontece fora de seus países e o enfoque maniqueísta segundo o qual amigos e inimigos, o mal e o bem, estão claramente delineados.

Evidentemente, há grandes diferenças. Bush nasceu em uma família de grande riqueza e prestígio político. As origens de Ahmedinejad são humildes: seu pai era ferreiro. O norte-americano tem, isso é claro, muito mais poder do que o iraniano, que deverá harmonizar sua ação com as idéias do líder religioso supremo xiita, o aiatolá Ali Khamenei que, entretanto, aplaudiu sua vitória na eleição do dia 24. É que o clérigo viu o resultado das urnas como uma vaia ao próprio Bush, inimigo declarado da Revolução Islâmica xiita triunfante em 1979 e em vigor desde então. De fato, vários analistas consideram que Bush incentivou a participação do eleitorado iraniano (63% dos habilitados a votar) e também a vitória de Ahmedinejad quando insinuou seu apoio à convocação estudantil pela abstenção.

O conservador ministro da Inteligência do Irã, Ali Yunesi, agradeceu publicamente a Bush por suas declarações, repetidas de tempos em tempos pela televisão estatal no dia da votação. Ahmedinejad chegou a utilizar as manifestações do presidente norte-americano contra seu rival, o ex-presidente Ali Hashemi Rafsanjani, que havia deixado clara sua inclinação por explorar uma aproximação com Washington. "Basta ver os comentários" de Bush para compreender que "sente hostilidade" contra o Irã, disse o novo presidente iraniano. Foi a típica declaração para fechar toda possibilidade de diálogo e que se poderia esperar de qualquer falcão do governo Bush a respeito do Irã, da Coréia do Norte ou o Iraque do pós-guerra.

Cole identificou em seu site na Internet, o Informed Comment, várias semelhanças em matéria tática entre os dois presidentes. Nenhum deles nunca atacou pessoalmente seus rivais políticos, mas fizeram pouco para dissuadir seus seguidores para não divulgarem mentiras e difamações contra seus adversários em meio a uma campanha. Ambos se apresentaram com êxito como defensores das "pessoas comuns", mesmo quando eram apoiados por representantes da classe mais rica. O presidente eleito do Irã obteve apoio de "bilionários religiosos de linha dura que pouco fazem pelas pessoas comuns". Bush, por sua vez, foi apoiado pela "massa corporativa de colarinho branco". Os dois atacaram o stablishment de seus próprios governos, mesmo quando os integravam. Apesar de ser ele mesmo um conservador leal a Khamenei, Ahmedinejad queixou-se da corrupção estatal e "sua retórica antigovernamental tocou a tecla de muitos iranianos". Bush também "se apresentou como um intruso e como um crítico do governo", recordou Cole.

Ahmedinejad recebeu apoio dos pregadores de mesquitas de todo o país, bem como de membros da milícia religiosa, os Basij, que conta com uma rede nacional de voluntários que incentivou a população a votar, especialmente nas províncias rurais e pobres. Por seu lado, Bush "dependeu fortemente do apoio de igrejas evangélicas e evangelistas" que se converteram em "soldados de infantaria do Partido Republicano". Outro especialista em assuntos iranianos, o professor Gary Sick, da Universidade de Columbia, em Nova York, considerou que comparar Bush a Ahmedinejad é inútil, "não porque eles ou suas nações sejam particularmente semelhantes, mas para explicar o que acontece politicamente e o que significa".

Sick, principal especialista em assuntos iranianos do governo do ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981), enfatizou a importância de "uma grande massa composta por pessoas que têm especial apreço pelos valores religiosos e tradicionais" para que ambos alcançassem o sucesso. Como Bush, Ahmedinejad "leva a religião na manga", acrescentou. O especialista observou que o presidente eleito iraniano aparentemente nunca viajou ao exterior e não tem experiência em política internacional, como tampouco possuía Bush antes das eleições de 2000. O primeiro cargo de Bush foi o de governador do Texas. A maior parte da carreira ascendente de Ahmedinejad foi à frente da prefeitura de Teerã. Apesar de seu caráter religioso e tradicionalista, os dois se vêem como promotores de soluções e como gerentes.

Bush tem mestrado em Administração de Empresas da Universidade de Harvard e procura conduzir seu governo com um modelo corporativo. Ahmedinejad tem doutorado em engenharia de uma universidade de elite do Irã e seu trabalho na prefeitura da capital foi elogiado até por seus rivais. Assim como Bush rejeitou o Protocolo de Kyoto contra o aquecimento planetário pelo dano que supostamente causaria à economia norte-americana, Ahmedinejad disse, se referindo ao programa iraniano de enriquecimento de urânio: "Discutiremos racionalmente", mas "ninguém nos obrigará a cumprir demandas" da comunidade internacional. Outro aspecto no qual combinam é que não esperam nada de bom um do outro. "O Irã é governado por homens que suprimem a liberdade dentro de seu próprio país e espalham o terror por todo o mundo", disse Bush. "O governo norte-americano rompeu relações unilateralmente para depredar a República Islâmica", afirmou Ahmedinejad. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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