África: Missões militares da ONU seriam bem-vindas

Washington, 30/06/2005 – A maioria dos africanos apoiaria uma intervenção militar autorizada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas em conflitos do continente que apresentam sérias violações de direitos humanos. Foi o que revelou uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira, na qual também se constatou que os africanos preferem uma força internacional da ONU em lugar de soldados da União Africana (UA). Cerca de dois terços dos 11 mil consultados em Angola, Camarões, Gana, Quênia, Nigéria, África do Sul, Tanzânia e Zimbábue coincidiram em afirmar que as Nações Unidas deveriam intervir nesses casos, enquanto pouco mais da metade afirmou que a intervenção estaria justificada mesmo sem o aval do Conselho de Segurança.

As conclusões do estudo, feito no ano passado pela consultoria canadense Globescan, foram divulgados nesta quarta-feira junto com os resultados de uma nova pesquisa de opinião realizada nos Estados Unidos pelo Programa sobre Atitudes em Política Internacional (PIPA) da Universidade de Maryland. Na pesquisa norte-americana, feita há uma semana em vários Estados, a maioria dos entrevistados disse estar de acordo com uma intervenção com o aval da ONU na região sudanesa de Darfur. Sessenta e um por cento dos consultados consideram que os países-membros das Nações Unidas deveriam "intervir com uma força militar para deter a violência", e 54% afirmaram que os Estados Unidos deveriam contribuir com essa operação.

Aproximadamente três quartos disseram que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deveria colaborar com equipamentos e apoio logístico na operação de vigilância que atualmente é realizada por tropas da União Africana em Darfur. Os problemas no ocidente do Sudão começaram nos anos 70 como uma disputa entre nômades árabes e agricultores de tribos negras. A tensão se transformou em uma guerra civil, em 2003, quando guerrilheiros negros responderam com violência às hostilidades das milícias Janjaweed (homens a cavalo), ao que parece, apoiadas pelo governo. Entre 180 mil e 400 mil pessoas morreram nos últimos dois anos e meio – a maioria indígenas negros – e 2,5 milhões viraram refugiados devido a uma campanha contrainsurgente que incluiu bombardeios por parte do governo e incursões das milícias.

O governo dos Estados Unidos chegou a qualificar a situação em Darfur de "genocídio". O "que mais chama a atenção é que, apesar de Washington estar preso no Iraque, onde sofre perdas todos os dias, a maioria dos norte-americanos concorda em colaborar em uma operação multilateral em Darfur", destacou o diretor-executivo do PIPA, Steven Kull. "Isto sugere que o que está ocorrendo nesse lugar vai diretamente contra os valores da sociedade norte-americana", acrescentou. "De fato, várias pesquisas já indicavam que muitos norte-americanos acreditam que se há graves violações dos direitos humanos, sobretudo um genocídio, a ONU deve ter o direito de intervir e os Estados Unidos deveriam estar dispostos a contribuir com tropas", ressaltou.

A idéia de que uma intervenção militar com fins humanitários em casos de graves violações dos direitos humanos prima sobre a soberania nacional do país em questão é ao que parece compartilhada pela maioria dos africanos, segundo a pesquisa da Globescan que, entretanto, descobriu diferenças de opiniões entre os países estudados. O apoio a uma intervenção autorizada pela ONU foi maior em Gana (80%), seguido de Nigéria e Tanzânia (55%) e África do Sul (47%). No total, somente 19% disseram ser contra uma intervenção das Nações Unidas, e o rechaço a essa possibilidade foi maior em Angola, com 37%.

Consultados sobre quais atores deveriam intervir em conflitos "como o de Darfur", 30% disseram preferir operações de paz da ONU, 22% optaram pela União Africana e somente 5% se inclinaram pela ação de um país "rico" não-africano. Sete por cento dos entrevistados disseram que apoiariam quaisquer das opções. Uma força da paz da ONU conta com maiores preferências em Gana (terra natal do secretário-geral da ONU, Kofi Annan) Quênia e Zimbábue, e menos na África do Sul. "Claramente, os africanos olham para fora de seus próprios países e sobretudo para a ONU quando buscam ajuda para enfrentar seus próprios problemas", disse Lloyd Hetherington, da Globescan.

"Contrariamente ao que afirmam seus líderes, parece que gostariam de ver a ONU intervindo em problemas como a crise em Darfur, embora também exista uma crescente confiança de que a União Africana pode assumir esse papel", acrescentou Hetherington. Treze por cento dos consultados disseram estar contra qualquer tipo de intervenção, a maioria deles de Camarões, enquanto 24% indicaram não ter opinião formada sobre o assunto. A preferência pela ONU reflete maior confiança nessa organização apesar de seus polêmicos antecedentes na África, segundo a Globescan. Sessenta e nove por cento dos pesquisados disseram ter muita ou alguma confiança nas Nações Unidas para agir nesse tipo de conflito. Sessenta e três por cento expressaram sua confiança na União Africana, 59% nos governos dos próprios países africanos, 51% nos governos locais em zonas de conflito e 45% nos conselhos tribais. Mais de um terço dos africanos entrevistados pela Globescan garantiram ter ouvido ou lido muito sobre a crise em Darfur.

Por sua vez, a pesquisa do PIPA revela que a postura da população norte-americana depende de a crise ser, ou não, qualificada de genocídio. Em dezembro, a PIPA fez uma pesquisa apresentando a violência em Darfur como um "genocídio". Nesse caso, 75% dos consultados disseram que a ONU deveria intervir com uma força militar, enquanto 60% concordaram que os Estados Unidos deveriam contribuir com soldados. Mas a pesquisa da semana passada se referia à crise sudanesa como "violência em grande escala que alguns, incluindo o presidente George W. Bush, chamam de genocídio". Neste caso, o apoio à intervenção caiu 14 pontos percentuais e o apoio à contribuição norte-americana seis pontos percentuais. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *