Waziristão do Sul, Paquistão, 11/01/2011 – O movimento islâmico Talibã, outrora considerado por muitos nas áreas tribais do Paquistão um verdadeiro defensor da fé muçulmana, perde popularidade devido aos seus contínuos ataques contra mesquitas, escolas e civis.
Jamilur espera que o Talibã logo se desfaça, porque rapidamente perde apoio local devido às atrocidades que comete, matando mulheres e crianças. Movidos por sentimentos religiosos, milhares de paquistaneses fizeram generosas doações ao Talibã e milhares de jovens se dirigiram ao Afeganistão para apoiar este grupo em sua luta contra a invasão norte-americana em 2001. Partidos e grupos religiosos paquistaneses arrecadaram milhões de rúpias para apoiar o talibã.
Talibã significa, literalmente, “estudantes de uma escola religiosa”, mas agora a palavra é sinônimo de militância, violência e terrorismo. O grupo islâmico adquiriu protagonismo internacional em 1994, e em um par de anos conseguiu controlar 95% do Afeganistão, país que governou até 2001. A maioria das Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata) do Paquistão, com população total de cinco milhões de habitantes, receberam e deram abrigo a membros do Talibã. Dali, o grupo lançou ataques contra o próprio exército paquistanês.
O apoio sem precedentes de que gozava o Talibã no Paquistão ficou em evidência quando a aliança de partidos religiosos Muttahida Majlis-i-Amal (MMA) venceu as eleições regionais de outubro de 2001 em Khyber Pakhtunkhwa e no Baluchistão, províncias que governou por cinco anos. Os líderes do MMA se opuseram vigorosamente à campanha antiterrorista dos Estados Unidos no Afeganistão e acusaram o presidente Pervez Musharraf de se converter em ferramenta de Washington. A aliança também fez campanha a favor da aplicação da shariá (lei islâmica) no país e pela retirada das forças norte-americanas do Paquistão. Mas o apoio ao extremismo islâmico foi diminuindo.
Em 2002, a MMA recebeu 11% dos votos nas eleições nacionais, mais de 3,3 milhões, mas em 2008 ficou com apenas seis cadeiras na Assembleia Geral, ao conseguir 772.798 votos. “O assassinato de respeitados eruditos religiosos, como Muhammad Farooq Khan, Maulana Hasan Jan e Mufti Farooq Naeemi corroeram ainda mais a imagem pública do Talibã’, disse à IPS o especialista em política Majeed Shah, da Universidade de Gomal, em Dera Ismail Khan. “As pessoas que os tinham em alta conta agora amaldiçoam seus atos insensatos”, acrescentou.
Dera Ismail Khan, um dos 24 distritos de Khyber Pakhtunkhwa, é lar de aproximadamente 80 mil refugiados dos vizinhos Waziristão do Sul e Waziristão do Norte, onde o Talibã paralisou a vida de seus moradores. “Nossos filhos não podem sair de casa devido ao toque de recolher e às contínuas batalhas. O Talibã não permite que nossos filhos brinquem ou frequentem a escola. Como podemos apoiá-los?”, disse Jamal Akbar, outrora forte partidário do grupo islâmico. Jamal, comerciante no Waziristão do Sul, disse que os paquistaneses ficam cada vez mais pobres por culpa das atividades do Talibã.
“Os ataques a mesquitas e escolas feriram profundamente os sentimentos das pessoas, e o Talibã fez as duas coisas”, disse Wajid Ali, de 25 anos, professor de uma escola religiosa em Khyber, uma das sete áreas que formam as Fatas. O Talibã até agora executou 54 pessoas condenadas por tribunais islâmicos, acrescentou, lembrando o caso de uma dançarina assassinada que teve seu corpo pendurado em um poste de iluminação pelos radicais islâmicos. “Na semana passada, cortaram as mãos dos integrantes de uma família que discutiram com um comandante talibã em Orakzai”, disse Wajid.
Antes de 2004, costumava haver manifestações cada vez que as forças do Paquistão, dos Estados Unidos ou da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) matavam um combatente talibã, mas depois de 2005 não houve mais protestos, apesar de, semanalmente, aviões não tripulados norte-americanos matarem cerca de 50 militantes islâmicos. “Os militantes incendiaram mesquitas e livros sagrados nos ataques”, disse Juma Gul, ex-funcionário de inteligência afegão.
No dia 19 de novembro, combatentes com ligações com a rede islâmica Al Qaeda queimaram uma mesquita na área de Gerai, no distrito afegão de Gizab, onde foram queimados dezenas de textos religiosos. “No ano passado, 1.224 pessoas inocentes morreram e 2.100 ficaram feridas em ataques suicidas cometidos por combatentes islâmicos. Isto foi suficiente para criar um sentimento de desprezo do povo contra o Talibã”, disse Sajjad Shah, oficial de polícia em Dera Ismail Khan. Envolverde/IPS


