Nações Unidas, 12/01/2011 – A Organização das Nações Unidas (ONU), que tenta ajudar cerca de um bilhão de pessoas famintas no mundo, antecipa outra crise alimentar neste ano.
Rob Vos, diretor de políticas de desenvolvimento e análise no Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU, disse à IPS que o aumento dos preços já afetava vários países em desenvolvimento. Afirmou que nações com Índia e outras da Ásia oriental e do sudeste já sofrem inflação de dois dígitos, devido ao aumento nos preços dos alimentos e da energia. Na Bolívia, o governo foi obrigado a reduzir os subsídios de alguns dos alimentos da cesta básica, já que estavam fazendo disparar o déficit fiscal.
No curto prazo, além de os pobres serem afetados e mais gente poder ser arrastada à pobreza, essa alta também dificultará a recuperação dos países que enfrentam maior inflação e cairá o poder aquisitivo dos consumidores em geral, afirmou Rob, economista-chefe da ONU. Alguns bancos centrais estão endurecendo suas políticas monetárias, e governos se veem obrigados a apertar o cinto fiscal, acrescentou.
Frederic Mousseau, diretor de políticas do Instituto Oakland, com sede na cidade norte-americana de San Francisco, disse à IPS que Moçambique já havia sofrido, em setembro, revoltas populares pelos altos preços do pão, nas quais morreram 13 pessoas. “Manifestações afetaram cerca de 30 países em 2008, e isto poderia se repetir já que a situação não mudou nos últimos três meses”, afirmou Frederic, autor do livro “O desafio dos altos preços dos alimentos: uma revisão das respostas para combater a fome”.
Os países mais vulneráveis são os mais dependentes das importações e os menos capazes de enfrentar o aumento nos preços nos mercados com políticas públicas, acrescentou Frederic. Isto diz respeito a muitas das nações mais pobres, com menos recursos, menos instituições e menos mecanismos públicos para apoiar a produção de alimentos, explicou. No final do ano passado, houve protestos na China pelos altos preços da merenda para estudantes secundários, e na Argélia pelo aumento da farinha, do leite e do açúcar.
Os argelinos voltaram às ruas na semana passada para protestar contra as duras condições econômicas. As manifestações acabaram com três mortos e centenas de feridos, enquanto na vizinha Túnis distúrbios similares causaram pelo menos 20 vítimas fatais. Segundo o índice da FAO divulgado na semana passada, os preços de cereais, sementes oleaginosas, lácteos, carnes e açúcar continuam aumentando por seis meses consecutivos.
“Estamos entrando em terreno perigoso”, disse Abdolreza Abbasian, economista da FAO, a um jornal londrino. Frederic explicou que os preços começaram a aumentar em 2010, depois das más colheitas na Rússia e na Europa oriental, em parte devido aos incêndios durante o verão boreal. Agora, as severas inundações que afetam a Austrália, quarto maior exportador mundial de trigo, provavelmente afetarão a produção desse cultivo e pressionarão ainda mais os preços para cima, previu.
“Qualquer outro acontecimento, como outro desastre climático em algum país exportador, ou nova alta do petróleo, sem dúvida alguma disparará os preços e fará com que a situação seja pior do que em 2008, ameaçando, portanto, o sustento de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo”, acrescentou.
Entretanto, Frederic esclareceu que não se trata de um problema de escassez, como ocorreu em 2007-2008. “Não se pode usar a palavra escassez se for considerado que mais de um terço dos cereais produzidos no mundo são usados como alimento para animais, e que uma parte cada vez maior é usada para fazer combustíveis”, afirmou. De fato, no mundo foram produzidas 2,232 bilhões de toneladas de cereais em 2008, uma quantidade sem precedentes, destacou.
O nível de produção para o período 2010-2011 é levemente menor do que em 2008. Ao contrário daquele ano, quando o arroz foi o responsável pelo aumento dos preços, desta vez é o trigo. Em todo caso, deve-se a uma combinação de fatores: má colheita em uma parte do mundo supõe uma pressão sobre o mercado, o qual envia sinais negativos aos especuladores. Estes, então, começam a comprar e os preços disparam. Envolverde/IPS


