KIKWIT, República Democrática do Congo, 19/01/2011 – Quando se cavar a terra para dar lugar à barragem de Kakobola, os engenheiros talvez consigam ouvir o regozijo na cidade de Kikwit, a 200 quilómetros de distância. Os habitantes daquela cidade, que totalizam um milhão, precisam desesperadamente de melhorar a qualidade do abastecimento da água.
Prevê-se que a construção da barragem hidroeléctrica se inicie no dia 15 de Janeiro. Quando a barragem estiver concluída, ela irá permitir à empresa pública responsável pelo abastecimento de água a ampliação da rede de água potável aos 800.000 habitantes de Kikwit que a ela não têm acesso actualmente.
A REGIDESO, empresa de serviços públicos, gere 25 condutas de emergência que fornecem água a cerca de um quinto dos habitantes da cidade. Mas mesmo esta rede limitada – instalada em 2008 com o apoio da Cooperação Técnica Belga – não é fiável.
“A companhia reconhece que existem problemas técnicos relacionados com a construção,” diz Dieudonné Fundaboy, um funcionário da REGIDESO em Kikwit. “Muitas vezes temos dificuldades financeiras ou problemas na obtenção de gasóleo para as bombas. Se tivéssemos electricidade regularmente, a companhia podia fornecer água 24 horas por dia.
Kikwit, a principal cidade da província de Bandundu, no sudeste na RDC, teve durante um breve período uma rede de água canalizada entre 1985 e 1992. Mas este sistema foi encerrado em 1992 – segundo a REGIDESO, devido ao facto dos clientes não pagarem as suas contas – e deixou de funcionar.
Todos os dias às cinco horas da manhã, mulheres, jovens e crianças de diversas idades, com recipientes de diversas multicolores nas mãos, atravessam as ruas de Kikwit à procura de água. Podem chegar a andar dois quilómetros desde sua casa para extrair água de ribeiros e poços de escavação manual, arriscando-se a contrair doenças transmitidas pela água – visto que a cidade tem falta de saneamento adequado – ou a serem mordidos por cobras no mato denso ao longo dos ribeiros e do rio Kwilu que corre perto da cidade.
“Quando é que acaba o castigo?” diz Chantal Nsanga, balançando um bidão vazio de 25 litros. “Perdi mais de duas horas e meia sem fazer nada à procura de água, porque o meu merido teve de ir trabalhar.”
Está acompanhada da sobrinha de oito anos, que transporta com ar grave uma cabaça de cinco litros.
“Perdemos três jovens em 2008. Morreram. Sufocaram quando a terra desabou sobre eles quando estavam a tirar água de uma fonte no fundo de um desfiladeiro em Likemi,” disse outro residente de Kikwit, Rigobert Angwete. “A isso, podemos acrescentar os muitos casos de crianças afogadas no rio Kwilu, especialmente na época seca.”
O Dr Paulin, Director do Hospital Geral Número Dois em Kikwit, disse à IPS que a cidade já conhecera duas epidemias de febre tifóide e uma de cólera. “Perto de 30 por cento dos casos examinados nas nossas clínicas e hospitais todos os dias são causados por doenças transmitidas pela água.”
Quando o Presidente Joseph Kabila visitou Kikwit pela primeira vez em Junho de 2001, as pessoas juntaram-se para saudarem a escolta de automóveis – gritando palavras de ordem a exigir melhor água potável.
O Presidente prometeu nessa altura que iria resolver o problema, mas já decorreu uma década com poucos resultados.
Agora o governo está conta com a barragem de Kakobola como solução. “Se tudo correr bem, a obra começa no dia 15 de Janeiro,” afirmou o Presidente da Câmara, Cyrille Kiyungu.
A barragem e uma central eléctrica que produz 9.3 MW são financiadas pelo Banco de Exportação-Importação da Índia, o último de uma série de empréstimos que demonstram o crescente envolvimento do gigante económico do Sudeste Asiático em África. A Índia comprometeu-se a fornecer mais de um quarto de 250 milhões de dólares em apoio financeiro à RDC em 2009 e uma linha de crédito de 42 milhões de dólares para Kakobola, que na sequência de outros empréstimos de 33.5 milhões de dólares para autocarros e uma fábrica de cimento, assim como 25 milhões de dólares para bombas hidráulicas.
Tem havido notícias que indicam que o empréstimo será isento de juros durante cinco anos antes de ser cobrada uma taxa de juro de 1.75 nos próximos 20 anos. As condições do empréstimo também especificam que será uma firma indiana a construir a barragem e que 75 por cento dos materiais e serviços virão da Índia.
Prevê-se que a construção seja fique concluída em 2013.

