Gleneagles, Escócia, 07/07/2005 – A ajuda ao desenvolvimento que possa ser oferecida pela cúpula do Grupo dos Oito, aberta nesta quarta-feira, não resolverá a pobreza mundial, porque é insuficiente e não estará acompanhada de um comércio mais justo, advertiu o grupo War on Want (Guerra contra a Pobreza). Esta organização não-governamental com sede em Londres calcula que o dinheiro que estão dispostos a oferecer Estados Unidos, Canadá, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Japão e Rússia representa menos de 5% do alívio da dívida e menos de 20% da ajuda necessária para cumprir as metas da campanha internacional "Façamos da Pobreza História".
"Nossa informação se baseia em informes que obtivemos do Tesouro britânico", explicou à IPS o diretor de campanhas da War on Want, John Hilary. O pacote de ajuda que provavelmente será anunciado girará em torno de US$ 25 bilhões, "e grande parte dessa quantia já foi prometida", acrescentou. O presidente norte-americano, George W. Bush, "disse que oferecerá US$ 4,5 bilhões adicionais, mas desse total, US$ 3 bilhões já estão prometidos através da Conta do Desafio do Milênio", recordou Hilary. O Japão também anunciou novos fundos de cooperação, no entanto, grande parte "é apenas remanejamento" de recursos. "Não percebemos nada novo. No máximo, um pouco mais aqui ou ali em acordos particulares", ressaltou.
A cooperação, o alívio da dívida e o comércio são considerados os três principais pilares do desenvolvimento. Quanto à dívida, os ministros das Finanças do G-8 decidiram no dia 1 de junho, em Londres, perdoar "de imediato" a dívida de 18 dos países mais pobres do mundo, 14 deles da África subsaariana e quatro da América Latina. Mas em matéria de comércio, "parece que os Estados Unidos e a União Européia lançarão um selvagem ataque aos regimes comerciais dos países em desenvolvimento. Portanto, as migalhas que oferecem a título de ajuda e alívio da dívida serão varridas pelas políticas comerciais dos países do G-8", lamentou Hilary.
A ajuda econômica oferecida pelos membros do G-8 "apenas arranha a superfície", afirmou o secretário-geral da Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth), Don McKinnon. "As verdadeiras oportunidades econômicas podem ser proporcionadas pelos Estados Unidos e pela UE eliminando seus subsídios às exportações agrícolas", explicou. Esses subsídios permitem que os países ricos coloquem seus produtos a preços muito abaixo dos custos de produção dos países pobres, cujos agricultores ficam, dessa maneira, afastados do mercado. Quase a metade do orçamento da União Européia se destina a subsídios agrícolas, mas o presidente da França, Jacques Chirac, declarou à imprensa no dia 10 de junho que não estava disposto a aceitar mudanças nessa área.
McKinnon não acredita que a cúpula do G-8 ajude a fazer com que o comércio internacional seja mais justo. "Devo dizer que me senti muito decepcionado quando ouvi o presidente francês dizer que os subsídios agrícolas são parte da essência da Europa. Isso demonstra uma grande ignorância sobre as necessidades dos países em desenvolvimento", disse à IPS. As oportunidades comerciais dos países em desenvolvimento dependem em grande parte do resultado da atual rodada de negociações comerciais multilaterais, lançada na Quarta Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, realizada em dezembro de 2001 em Doha, capital do Qatar.
A Rodada de Doha está dedicada principalmente à abertura comercial da agricultura e dos serviços, às tarifas alfandegárias e a temas específicos a favor dos países em desenvolvimento, mas até agora colheu mais fracassos do que êxitos. Espera-se que as negociações ganhem impulso antes da Sexta Conferência Ministerial, que acontecerá em dezembro, em Hong Kong. War on Want lamentou que os países industrializados que integram o G-8 tenham respondido ao chamado da Façamos da Pobreza História para uma justiça comercial endurecendo suas posturas comerciais.
"A União Européia e os Estados Unidos lançaram um novo ataque às indústrias e aos serviços dos países em desenvolvimento na OMC, e tentam abrir pela força esses "mercados emergentes" para benefício de suas próprias empresas", afirmou a War on Want. Entretanto, "admitem que essas políticas provocarão quebras em grande escala, desemprego em massa e pobreza generalizada no Sul", ressaltou a organização. Por outro lado, o gasto militar dos membros do G-8 aumentou em 2004 pelo sexto ano consecutivo. O orçamento para a defesa nesses países constitui a maior parte do gasto mundial em defesa, que ultrapassou US$ 1 trilhão no ano passado. (IPS/Envolverde)

