São Francisco, Estados Unidos, 24/02/2011 – Enquanto a região do Oriente Médio está convulsionada por revoltas populares, o governo do Irã reprime cada vez com maior severidade os protestos de opositores em seu território. Na noite do dia 21, agentes de segurança do governo entraram na casa do líder opositor Mehdi Karroubi, o separaram de sua mulher, revistaram o lugar e prenderam seu filho, Ali Karroubi, segundo o Saham News. O site do próprio Karroubi informou que também foram explodidas granadas de percussão dentro da casa.
Enquanto isso, outro dos principais líderes da oposição, Mir Hossein Mousavi, foi submetido a prisão domiciliar pelo menos nas últimas duas semanas, o que indica que o enfrentamento entre governo e opositores está alcançando novos marcos na medida em que os levantes populares se propagam pela região. Mesmo a prisão domiciliar de seus líderes não impediu que milhares de opositores saíssem surpreendentemente às ruas nos dias 14 e 20 deste mês.
Há dois anos, manifestantes reclamaram a anulação das eleições presidenciais que devolveram o poder a Mahmoud Ahmadinejad. Agora, sua ira se volta principalmente contra o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. “Depois de Mubarak no Egito e de Ben Ali na Tunísia, agora é a vez de Seyed Ali (Khamenei)”, proclamaram.
Um ex-funcionário do governo disse à IPS que, logo depois dos protestos do dia 14, o ministro da Inteligência, Heydar Moslehi, participou de uma reunião com Khamenei na qual pediu permissão para prender Karroubi e Mousavi. Nesse encontro, Khamenei criticou o Ministério da Informação por seus informes, perguntando por que sua análise sobre a participação popular nas manifestações tinha de ser tão errada.
“O líder supremo do Irã recebe regularmente informes independentes sobre a situação atual por meio do comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, ministro da Informação, comandante das Forças Armadas, líder da milícia pró-governo Basij e titular do Sistema de Transmissões da República Islâmica”, disse a fonte, pedindo reserva sobre seu nome.
“Parece que os informes que recebeu contradizem a intensidade dos protestos. Assim, embora vários membros extremistas do parlamento tenham pedido a execução dos líderes da oposição, a retórica oficial das autoridades tenta somente expressar apoio ao regime, e nenhuma outra demanda de suas prisões ou execuções é pronunciada publicamente”, disse a fonte. Durante seu sermão do dia 18, Ahmad Jannati, à frente do conservador Conselho de Guardiões, pediu o isolamento dos líderes da oposição.
Os funcionários iranianos costumam chamar de “revoltosos” os manifestantes, bem como declarar que são “algumas centenas”. Segundo algumas fontes, nas manifestações do dia 21 havia jovens aparentando 15 ou 16 anos misturados com a polícia, vestidos com coletes à prova de balas e brandindo cassetetes típicos dessa força. Um ativista estudantil, que esteve presente nos protestos da semana passada, disse à IPS que a população está muito mais indignada do que antes, e disposta a reagir à violência.
Líderes da oposição e agrupações políticas geralmente incentivam seus partidários a não incorrerem em atos de violência. Mas agora muitos afirmam que as ações recíprocas são autodefesa. Embora o Ministério do Interior costume recusar autorizações para realização de manifestações, na semana passada dezenas de forças pró-governo se reuniram diante da casa de Karroubi, insultando-o.
O titular do Poder Judicial anunciou na semana passada que o governo não tem nenhum interesse em prender líderes da oposição, mas parece que as radicais forças de segurança se esforçam para incitar um confronto sério. “À noite, as pessoas gritavam Allah-o-Akbar para expressar seus protestos. Antes, isso era símbolo dos protestos populares contra o xá”, disse à IPS um jovem que presenciou as manifestações.
Outro ativista que esteve nos protestos do dia 21 disse, ao regressar da universidade, que viu centenas de policiais armados com rifles Kalashinikov. “Veículos transportando membros das Guardas Especiais iam de um lado a outro da cidade. As pessoas estavam muito exaltadas e constantemente temerosas de que a polícia começasse a disparar ao acaso e matasse alguém”, contou. Nas manifestações do dia 14 foram mortos os jovens Sane Jaleh e Moahmmad Mokhtari. Segundo informações a respeito, centenas de pessoas foram presas. Algumas fontes falam que também foi assassinada uma pessoa durante os protestos em Shiraz.
“Segundo a Constituição da República Islâmica do Irã, sempre e quando não incluírem porte de armas nem forem contra os princípios islâmicos, as manifestações estão permitidas e não exigem autorizações” especiais, disse à IPS Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz 2003 e destacada defensora dos direitos humanos. “O governo é responsável pelo derramamento de sangue”, acrescentou.
Por outro lado, o governo parece estar usando métodos cada vez mais brutais e sofisticados para manter os opositores enquadrados. Um dos manifestantes disse ter visto que muitas pessoas presentes aos protestos do dia 14 vomitaram sangue e sofreram fortes dores nas mãos e nas pernas, a ponto de não poderem se mover. A mesma fonte afirmou que, segundo um médico que tratou dos doentes, foram acrescentadas substâncias ao gás lacrimogêneo utilizado contra os manifestantes para alterar o equilíbrio de potássio e magnésio no sangue, o que pode ter efeitos prejudiciais de longo prazo. Envolverde/IPS

