Imigrantes fogem da Líbia com grande carga para seus países

Berlim, Alemanha, 14/03/2011 – O êxodo maciço de trabalhadores imigrantes que fogem da violência na Líbia agravará a situação social e econômica em seus países de origem, do Chade a Bangladesh, afirmam especialistas.

Um refugiado de Bangladesh na fronteira entre a Líbia e o Egito. - Acnur/P. Moore

Um refugiado de Bangladesh na fronteira entre a Líbia e o Egito. - Acnur/P. Moore

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que havia mais de um milhão de imigrantes trabalhando na Líbia antes de começar a rebelião contra o regime de Muammar Gadafi, há um mês, que procediam fundamentalmente de países vizinhos, como Egito, Tunísia, Sudão e Chade, além de alguns distantes, como Bangladesh e China.

“A OIT estima que mais de um milhão de imigrantes trabalhava legal ou ilegalmente na Líbia até o começo deste ano”, disse à IPS Dorothea Schmidt, economista da organização e radicada no Cairo. Dorothea afirmou que a maioria dos imigrantes na Líbia era da Tunísia e do Egito. A maior parte já regressou aos seus países de origem. Contudo, a situação humanitária dos que permanecem em território líbio, especialmente os de Bangladesh e da África subsaariana, é uma catástrofe.

Informes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e outros grupos humanitários indicam que dezenas de milhares de bengalis, sudaneses e chadianos fogem da violência das milícias leais a Gadafi. Estão em acampamentos perto das fronteiras líbias, esperando transporte para poderem regressar aos seus respectivos países. Em entrevista coletiva no dia 8, em Genebra, o porta-voz do Acnur, Adrian Edwards, confirmou informes de que trabalhadores imigrantes eram vítimas de violência e intimidação por forças de Gadafi.

“Uma equipe do Acnur na fronteira entrevistou um grupo de sudaneses que chegaram do Leste da Líbia e contaram que líbios armados iam de casa em casa expulsando os africanos subsaarianos. Em um caso, uma menina sudanesa de 12 anos teria sido violentada”, afirmou Adrian. Os refugiados sudaneses “informaram que muitos tiveram seus passaportes confiscados ou destruídos. Ouvimos declarações semelhantes de um grupo de chadianos que fugiu de Bengasi, Al Bayda e Brega nos últimos dias”, acrescentou.

“Nas duas fronteiras líbias, a maioria dos que esperavam por evacuação era de homens solteiros de Bangladesh. Neste momento, há uma escassez crítica de voos de longa distância para esse e outros países asiáticos e da África subsaariana”, disse Edwards. O Acnur e a Organização Internacional para as Migrações estão usando contribuições em dinheiro para pagar voos charter, e vários doadores ofereceram voos de longa distância. Entretanto, são necessários entre 40 e 50 voos para repatriar todos os imigrantes, e ainda mais apoio para conseguir que cheguem aos seus lares, acrescentou Adrian.

Dorothea disse à IPS que esse êxodo de trabalhadores da Líbia representa maior carga social e econômica para seus países de origem. “Para o Egito e outras nações, o regresso dos imigrantes da Líbia é fatal. De um lado, aumentará o número de jovens desempregados, que já é alto. Por outro, o dinheiro que mandavam e que apoiava economicamente suas famílias agora acabou”.

A OIT estima que o total de remessas da Líbia para Egito, Tunísia, Sudão, Bangladesh e outros países chegava a US$ 1 bilhão ao ano. Aproximadamente, metade desse dinheiro ia para o Egito. De acordo com o Banco Mundial, os egípcios que trabalhavam fora de seu país enviaram às suas famílias US$ 7,6 bilhões no ano passado.

Dorothea alertou que sem ajuda econômica estrangeira e sem políticas de êxito imediato, Egito e Tunísia não poderão enfrentar o retorno de tantas pessoas. “Na Tunísia, o desemprego saltou de 14% para 17% depois do regresso dos trabalhadores procedentes da Líbia”, afirmou. Sem perspectivas econômicas imediatas, os jovens do Magreb voltarão a abandonar seus países, muito possivelmente rumo à Europa, acrescentou a especialista da OIT.

As nações do Magreb não podem enfrentar as consequências econômicas e sociais de um êxodo maciço da Líbia, alertou, por sua vez, o austríaco Robert Holzmann, diretor de pesquisas do Programa de Mobilidade Trabalhista no Centro de Marselha para a Integração Mediterrânea. “No curto prazo, não haverá um êxodo maciço. No entanto, no médio prazo a Europa deverá se preparar para uma crescente imigração vinda da região do Magreb”, ressaltou.

Robert recordou que após o colapso da União Soviética, em 1991, e de seus satélites na Europa oriental, muitos trabalhadores emigraram para o Oeste do continente, sem importar as reformas econômicas que foram aplicadas em seus países de origem. “Algo semelhante vai ocorrer nas nações do Magreb”, explicou. “Nem mesmo as reformas mais auspiciosas bastarão para criar trabalho suficiente e enfrentar o desemprego juvenil maciço. Portanto, a União Europeia deveria lançar agora uma nova política de manejo da imigração”, acrescentou.

Por sua vez, Thomas Straubhaar, diretor do Instituto para Economia Internacional, com sede na cidade alemã de Hamburgo, disse que a Europa não deveria ter medo da nova imigração. “A história mostra que pode ser um fator positivo no desenvolvimento de sociedades. Apesar das sangrentas causas do êxodo maciço, a imigração pode ser uma fonte de inovação”, afirmou. Envolverde/IPS

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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