Tibete: Histórias do inferno chegam à Justiça espanhola

Dharamsala, Índia, 14/07/2005 – Para Adhe Tapontsang, os 27 anos que passou em uma prisão da China por ajudar a resistência do Tibete na década de 50 podem ser resumidos em uma palavra: inferno. "Tenho sorte de estar viva", disse à IPS. "No centro de detenção de Gothang Gyalgo havia 300 prisioneiras tibetanas. Somente quatro sobreviveram", acrescentou. Adhe Tapontsang, ou Amah Adhe (mãe Adhe), como é conhecida afetuosamente em Dharamsala, falou sobre a fome que ela e as demais prisioneiras passavam na prisão. "Muitas de nós decidimos cortar nossos sapatos de couro para comê-los, tamanha era a fome que sentíamos. Os guardas nos davam umas lavagens de aspecto repugnante, mas isso não era suficiente. Sempre acreditei que chegaria o dia em que poderia deixar a prisão e reencontrar meus filhos, mas às vezes sentia que não havia muitas possibilidades, porque todas morriam à minha volta", recordou.

Tapontsang foi libertada em 1985, e em 1987 fugiu para a Índia, deixando para trás sua família. Atualmente vive em Dharamsala, sede do governo tibetano no exílio, ao pé do monte Himalaia. "Fico triste por ter de viver com meu povo em uma comunidade de refugiados. Mas somente no exílio estou livre", afirmou. Em 1951, cerca de 40.000 soldados chineses invadiram Kham, no leste do Tibete, e rapidamente avançaram rumo à capital, Lhasa, segundo um plano militar concebido pelo falecido líder comunista Deng Xiaoping. Mais de 1,2 milhão de tibetanos morreram na invasão chinesa e cerca de seis mil monastérios foram destruídos pelo Exército de Libertação do Povo. Outros milhares ficaram cercados e foram presos

De acordo com a Campanha Internacional para o Tibete, com sede em Washington, a detenção, aprisionamento e tortura de tibetanos continua sendo parte da estratégia de Pequim para reprimir a insurgência no Tibete, de maioria budista. "Distribuir panfletos, gritar palavras de ordem revolucionárias ou estimular para que sejam gritadas, hastear ou possuir a bandeira tibetana e participar de manifestações podem ser motivo de prisão", acrescentou a organização. O último informe anual do Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre direitos humanos vai além e afirma que as autoridades chinesas cometem "execuções extrajudiciais, torturas, prisões arbitrárias e detenções sem julgamento público, e prendem tibetanos por longos períodos por expressarem pacificamente suas opiniões políticas ou religiosas". O documento acrescenta que a repressão política e social ameaça "o patrimônio cultural, religioso e lingüístico do Tibete".

Ngawang Sangdrol, uma jovem monja tibetana que passou mais de 10 anos na prisão, disse que atualmente Pequim utiliza uma nova estratégia para reprimir o povo tibetano. Segundo Sangdrol, o governo chinês está investindo milhares de milhões no Tibete que somente beneficiam os chineses e que levam consigo uma onda de imigração de chineses da etnia han e a conseqüente aculturação tibetana. "A China quer erradicar a raça tibetana", afirmou Sangdrol, que foi presa pela primeira vez aos 13 anos por gritar "independência para o Tibete" e "longa vida ao Dalai Lama", o líder espiritual do Tibete, durante um protesto em Lhasa. Os posteriores desafios contra as autoridades lhe valeram uma extensão de sua pena de prisão para 23 anos, embora há três tenha sido comutada repentinamente às vésperas de uma visita do presidente chinês, Jiang Zemin, ao seu colega George W. Bush, nos Estados Unidos.

Mas Jiang e outros seis funcionários de Pequim, incluindo o ex-primeiro-ministro Li Peng, foram processados no mês passado perante um tribunal espanhol por crimes contra a humanidade e genocídio cometidos no Tibete. O demandante é o Comitê de Apoio ao Tibet, uma associação cultural espanhola apoiada por 31 especialistas legais, organizações não-governamentais tibetanas, indivíduos e grupos de direitos humanos. O Comitê iniciou um processo que pode abrir as portas da Justiça para milhares de vítimas tibetanas de violações dos direitos humanos. Juízes espanhóis assumiram um papel protagonista no julgamento de violações dos direitos humanos, baseados na doutrina da "justiça universal".

Em abril deste ano, um tribunal espanhol condenou o ex-capitão de navio argentino Adolfo Scilingo a 640 anos de prisão por crimes contra a humanidade durante a última ditadura militar na Argentina (1976-1983). Antes de designar um juiz, a Audiência Nacional espanhola deve concluir que o sistema legal chinês não reconhece os crimes alegados nem é capaz de prender os culpados e deve inclusive embargar suas propriedades. "Este é um triunfo não só para o povo tibetano, mas para todos aqueles que defendem um Tibete livre", afirmou Tapontsang. (IPS/Envolverde)

Sonny Inbaraj

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