Cairo, Egito, 24/03/2011 – Enquanto as urnas mostraram um apoio esmagador à reforma das regras eleitorais no Egito, a Irmandade Muçulmana, proscrita durante 30 anos, surge como uma força política central após o fim do regime de Hosni Mubarak (1981-2011).

Manifestantes muçulmanos rezam na Prara Tahrir em um dos 18 dias de manifestações contra o governo de Mubarak. - Khaled Moussa al-Omrani/IPS
“Apesar de três décadas de repressão por parte do regime de Mubarak, a Irmandade Muçulmana é um jogador primordial no cenário político pós-revolução”, disse à IPS o professor de ciência política Tarek Fahmi. E, “pela primeira vez desde sua fundação, tem a oportunidade de alcançar o poder em eleições livres e justas”, acrescentou.
No dia 11 de fevereiro, Mubarak renunciou ao cargo perante as forças armadas. Em pouco mais de cinco semanas, os militares, que prometeram conduzir o país até a realização de eleições presidenciais e parlamentarias, atenderam várias reclamações populares, incluindo a substituição da maioria dos ministros nomeados pelo ditador.
Nos dias posteriores à saída de Mubarak, a Irmandade Muçulmana anunciou sua vontade de se transformar em partido político. Apesar do importante apoio popular que sempre teve neste país, a organização criada em 1928 e colocada na ilegalidade pelo Estado em 1954, nunca existiu oficialmente como força política. “Tão logo seja reformada a lei de partidos políticos, desejamos nos inscrever como tal”, disse no mês passado Mohammad Saad al-Kitatni, que lideoru o bloco legislativo da Irmandade entre 2005 e 2010.
Nessas declarações, que se constituíram na primeira aparição de um dirigente da Irmandade na televisão estatal, Al-Kitatni destacou que a organização apoia um sistema de governo civil, em lugar de uma teocracia. “Queremos um Estado civil, baseado na lei islâmica e em princípios como liberdade de pensamento, justiça para todos e igualdade perante a lei, sem distinção de raça, religião ou gênero”, acrescentou, lembrando que o grupo não apresentará candidato nas próximas eleições presidenciais, nem buscará fazer uma grande maioria no parlamento.
“Não queremos dar aos nossos adversários internos nem aos nossos críticos internacionais motivo algum de medo”, afirmou Kitatni. “Queremos competir de maniera justa com outros movimentos políticos que, sabemos, também foram oprimidos pelo regime de Mubarak. Três dias antes destes comentários na televisão, o líder do grupo, Mohammad Badie, anunciou de maneira formal o desejo de fundar uma organização que se chamaria Partido da Justiça e da Liberdade e que, apesar de compartilhar os mesmos membros e objetivos políticos da Irmandade, seria uma entidade à parte.
Baide encarregou o dirigente Khairet al-Shatter que determine os mecanismos para a coordenação entre a Irmandade e o novo partido. Al-Shatter foi nomeado há pouco número dois da organização, depois de passar quatro anos na prisão do regime de Mubarak.
Entretanto, muitos críticos da Irmandade dizem que esta ainda não articulou sua posição sobre um conjunto de assuntos cruciais. No começo de 2008, a organização publicou um programa político preliminar, mas depois se retratou dele diante da polêmica causada por sua posição sobre a apresentação de candidatos presidenciais de mulheres ou de não-muçulmanos.
“alguns setores da opinião pública continuam suspeitando da Irmandade devido à sua postura ambígua sobre o papel dos cristãos e das mulheres na política”, disse Fahmi. “Por que demora tanto criar uma plataforma política oficial? A Irmandade deve explicar claramente seus pontos de vista em grandes questões e abrir o dialogo com outras figuras da oposição e líderes religiosos”, afirmou.
No mês passado, a Irmandade instalou um comitê encarregado de formular o programa político do Partido da Justiça e da Liberdade. No último dia 16, o jornal independente Al-Shorouk publicou declarações de um membro do comitê de que o programa “será divulgado logo que estiver redigido”. A mesma fonte afirmava que “foi acordado eliminar uma quantidade de artigos polêmicos que foram incluídos na plataforma política prévia, especialmente os que estipulavam que todo candidato presidencial do partido deveria ser um homem muçulmano”.
Alguns críticos disseram que se a Irmandade assumir o poder poderá se ver tentada a denunciar o Acordo de Paz de Camp David, acordado entre Egito e Israel em 1979. O porta-voz da Irmandade Muçulmana, Essam, al-Arian, insistiu que qualquer mudança na política externa do país deverá refletir a vontade do povo egípcio. “O futuro parlamento, que será eleito pelo povo, decidirá a postura do Egito a respeito de todos os acordos e tratados internacionais”, disse Al-Ariana à IPS.
Para Fahmi, a recém-nascida legitimidade política da Irmandade levará à “formulação de uma nova política externa que, se pode esperar, revigorará o papel histórico deste país como líder regional, um papel em grande parte destruído pela estreita relação de Mubarak com Estados Unidos e Israel. Para citar só um exemplo, a Faixa de Gaza (na Palestina) governada pelo Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) era considerada por Mubarak uma ameaça estratégica”, acrescentou. Envolverde/IPS

