Direitos Humanos: A hora britânica

Londres, 22/07/2005 – O desastre constitucional da Europa colocava o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em uma posição de protagonismo, enquanto vários de seus colegas sofriam reveses e ameaças de perda do poder. A firmeza em resistir ao orçamento da União Européia convertia Blair – assumindo as rédeas da presidência semestral da UE – em líder da oposição à rotina (especialmente a Política Agrícola Comum). Como se fosse pouco, o processo de seleção da sede das Olimpíadas de 2012 favorecia Londres, que superava um quarteto impressionante (Moscou, Nova York, Madri e Paris). Era a coroação de Blair, beneficiado por uma decisão que se percebia com cores de conotações políticas.

Mas a incerteza internacional se tornou espetacularmente dramática com os atentados do último dia 7. De repente, os britânicos se tornaram vítimas do terrorismo do tipo do 11 de setembro em Nova York e Washington e 11 de março em Madri. Como um segundo golpe, um informe do prestigioso think tank Chatham House revela que a participação britânica no Iraque converteu o Reino Unido em objetivo favorito do terrorismo, uma obviedade que Blair ainda se nega a admitir. Além disso, se diz que Londres é um mero comparsa de Bush, sem poder de decisão, pagando com fundos e baixas militares (que se aproximam de cem). Enquanto Blair reclama europeísmo e diz que agora resolverá o enigma do papel do Reino Unido na União Européia, sem dar detalhes e nem mesmo linhas gerais, o desastre do Iraque o afasta mais de Bruxelas.

De certa forma, se confirma a síndrome do alienamento britânico ao projeto europeu. Em Londres não se vê uma bandeira da UE e nem as estradas exibem a ajuda comunitária. O viajante, que já chega irritado por ter de trocar euro por libra, tem a impressão de não estar na Europa, pelo menos não da mesma maneira que na França, em Portugal ou em qualquer outro país que tenha entrado recentemente no bloco. Na realidade, em Londres se está em um mundo, em um mar de multiculturalismo do qual os britânicos estão tão orgulhosos, vestidos de uma identidade nacional que nunca teve necessidade de cimentar-se em uma base étnica impossível e optou por um sutil nacionalismo cívico ao qual se podia pertencer discretamente, sem renunciar à sua origem. O atentado do dia 7 fez cacos desse mito.

Um punhado de britânicos de segunda geração, que falam tão bem o dialeto de Oxford como o das classes trabalhadoras, são os terroristas que aparentemente não só se vingam pelos excessos imperiais, como também aderem a esta guerra santa que aparentemente começou com o 11 de setembro. Isso é o que mais dói para os britânicos. Os que mandaram para o túmulo mais de meia centena de inocentes (de todas as raças, cores e origens nacional e social) não são como os estrangeiros dos atentados em Nova York e Madri. Em contraste com este detalhe(a distância da identidade dos terroristas e dos suspeitos, incluindo os presos em Guantânamo), fundamental até agora da fascinante imobilidade do povo norte-americano, os britânicos foram atacados por alguns dos seus.

Depende de como se desenvolvem as investigações do atentado do último dia 7 em Londres, de como Blair maneja as conseqüências e de como os radicais manipulam e exploram o ambiente, o certo é que o momento é perigoso, não somente para o Reino Unido, mas para a Europa. Da mesma maneira que não convém aos Estados Unidos uma UE fraca, dividida e mal integrada, aos europeus não convém uma Londres à deriva.

O dilema é enorme. A opção entre a tentação de se deixar levar para um nacionalismo mal entendido e decidir unir esforços com "o resto da Europa" (uma expressão que os britânicos quase nunca usam) é urgente. O problema é que a crise não poderia ter chegado em pior momento para a indecisão hamletiana de Blair, à vista da ausência de liderança na Europa.

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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