Caribe: Aids poderá matar um quarto de milhão em cinco anos

Puerto España, 22/07/2005 – O Caribe é a região com maior prevalência de HIV/aids depois da África subsaariana, e a epidemia se tornará alarmante nos próximos cinco anos, alertam especialistas em saúde caribenhos. O relatório elaborado pela Comissão Caribenha de Saúde e Desenvolvimento, formada por 19 países e presidida por George Alleyne, diretor emérito da Organização Pan-Americana de Saúde, também inclui dados sobre outros problemas sanitários da região, como doenças cardíacas, câncer, diabetes e obesidade. Porém, o trabalho esteve centrado nas doenças contagiosas como a aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida), que segundo os especialistas persiste como uma epidemia "arraigada em vulnerabilidades sociais e econômicas que perpetuam comportamentos de risco, sobretudo entre os jovens".

"A epidemia não cede, e sua continuidade é favorecida pelo estigma e pela discriminação que cercam" os portadores de HIV (vírus causador da aids), diz o relatório. A comissão calcula em meio milhão de pessoas com HIV/aids na região, 20% delas moradoras nos 15 países que formam a Comunidade do Caribe (Caricom). "Com base na atual taxa de infecção, este número projetado aumentará para 679 mil até o final de 2009, e nos próximos cinco anos a aids matará um quarto de milhão de pessoas se a epidemia não for controlada", alerta do documento apresentado aos governos da Caricom em sua última reunião de cúpula, realizada entre 3 e 6 deste Mês em Santa Lucía. "As meninas e os meninos constituirão 3% dos novos casos nos próximos cinco anos", diz o informe.

O primeiro-ministro de San Cristóbal e Nevis, Denzil Douglas, um dos principais incentivadores de iniciativas de saúde dentro da Caricom, disse à IPS que o HIV se propaga sobretudo na faixa etária de 15 aos 44 anos. "É muito triste informar que não somos capazes de conseguir uma importante redução nos casos de HIV. Agora se converteu na principal causa de morte. Se queremos acabar com isto, devemos promover uma mudança de comportamento", acrescentou. No início do próximo ano, os países caribenhos colocarão em prática o tão negociado Mercado Comum da Caricom, que permitirá a livre movimentação de bens, serviços e força de trabalho dentro do bloco. A comissão advertiu que provavelmente isto "facilitará a propagação de doenças infecciosas, como acontece agora com o HIV/aids".

Uma reunião realizada há três anos em Barbados sobre o impacto da aids no mercado de trabalho, convocada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), concluiu que a infecção pelo HIV cresce no Caribe, e destacou que os países da região "enfrentam a terrível realidade de a doença estar ameaçando sua sustentabilidade política, econômica e social. A menos que os países caribenhos se mobilizem e adotem ações, os efeitos do HIV/aids no mercado de trabalho afetarão a produtividade e a competitividade internacional dos Estados da região", alertou a OIT. Não existem dados recentes sobre o impacto econômico da aids no Caribe, mas se prevê que a diminuição da força de trabalho reduzirá drasticamente o produto interno bruto.

A comissão afirmou que, "devido à situação atual e às perspectivas da economia da região", é pouco provável que os países caribenhos possam contar com os recursos necessários para lançar um plano de atenção universal para os doentes. Ao mesmo tempo, reconheceu que foram feitos "esforços significativos" em níveis nacional e regional para enfrentar a epidemia, assinalando que apesar de "impressionantes casos de êxito em algumas nações", ainda é necessário muito mais. Douglas informou que o Brasil fez uma doação para compra de medicamentos anti-retrovirais para 500 pacientes, sobretudo dos países do leste do Caribe. Por sua vez, a Tailândia, primeira nação do sudeste asiático a introduzir com sucesso um sistema de cuidado médico universal e de baixo custo, também doou dinheiro para compra de remédios para 50 mil portadores do HIV.

No início deste ano, especialistas em saúde do Caribe se reuniram em Santa Lucía para analisar o andamento da Estratégia Regional-Marco Caribenha contra o HIV/aids. No encontro foram analisados projetos em andamento financiados pelo Fundo Mundial de Luta contra Aids, a Tuberculose e a Malária, pelo Banco Mundial e pela Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional, bem como atividades da Sociedade Pan-Caribenha contra o HIV/Aids (Pancap), integrada por governos e organizações civis da região. A comissão presidida por Alleyne destacou que o êxito desse organismo até esta data "é uma mostra de que há vontade para trabalhar de forma coordenada para controlar a epidemia". Douglas e seus colegas elogiaram o relatório elaborado pela comissão, que será divulgado em toda a região. O primeiro-ministro disse esperar que esse trabalho "deixe uma impressão firme nas mentes do povo caribenho".

"É especialmente importante vencer a estigmatização e a discriminação, pois impedem o controle da epidemia e o lançamento de planos de cuidados, prevenção e tratamento em grande escala", destacou a comissão. A Caricom prevê organizar em outubro uma reunião com representantes do setor privado para discutir formas de reduzir a discriminação contra os portadores de HIV. O assistente do secretário-geral da Caricom para Recursos Humanos e Desenvolvimento Humano, Edward Green, informou que a reunião será co-patrocinada pela Associação Caribenha de Indústria e Comércio. Green destacou que a comissão incluiu a recomendação para que os governos aumentem a porcentagem de seu orçamento nacional para cuidados na área da saúde, atualmente estimado em 5%. Embora não tenham sido fornecidas cifras oficiais, funcionários disseram que as nações industriais destinam aproximadamente 9% de seu produto interno bruto à saúde. (IPS/Envolverde)

Peter Richards

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