Ambiente: Socialismo à portuguesa

Lisboa, 22/07/2005 – Portugal tem desde o último dia 12 de março um governo de maioria socialista. Um jovem e decidido primeiro-ministro, líder do PS – o engenheiro José Sócrates -, demonstrou saber o que quer, é enérgico, lúcido e mantém nas pesquisas uma popularidade invejável: cerca de 60% dos portugueses consideram que sua ação de governo é positiva. Entretanto, a situação econômica e financeira que herdou, bem como a situação européia e internacional, são francamente insípidas e ainda desoladoras. Segundo as últimas previsões do Banco de Portugal, revisadas para baixo, a taxa de crescimento do PNB português este ano não passará de 0,5%. Fator que guarda relação com o aumento do preço do petróleo, evidentemente, mas também segundo alguns analistas, com as medidas de redução do déficit financeiro impostas pelo plano de estabilidade e crescimento (PEC) da União Européia e com o aumento do IVA. Por outro lado, economistas e alguns sindicatos acusam o governo de não ter reduzido significativamente o gasto público.

Entretanto, não é tão simples introduzir cortes em setores tão determinantes como educação, saneamento, proteção social dos idosos ou obras públicas, suscetíveis de contrapor à tendência ao aumento do desemprego. O período de sessões parlamentares chega ao fim. O debate sobre o estado da nação não oferece más perspectivas para Sócrates. O país se prepara para iniciar as férias. A oposição de direita está dividida e especialmente enfraquecida. Sua coalizão de governo constituiu, em todos os sentidos, um tremendo desastre. O PP (Partido Popular, de direita) e o PSD (Partido Liberal, de centro-direita) com seus novos líderes – Ribero e Castro e Marques Mendes, respectivamente – procuram não se atacar mutuamente, mas vai cada um por seu caminho. São políticos sensatos, pois cumprem o que dizem – até este momento – mas ainda não têm o peso necessário para impor suas vozes.

Por sua vez, o PS ainda não pôde forjar um entendimento mínimo em seu flanco esquerdo. Provavelmente se deva falar sobre responsabilidades compartilhadas. Tanto o antigo Partido Comunista quanto o recente Bloco de Esquerda lutam pelo terceiro lugar atrás do PS (maioria absoluta) e do PSD (segundo partido em importância, mas que não supera os 30%). O PCP, bem como o Bloco de Esquerda, procuram conquistar o voto do inevitável descontentamento contra o partido do governo. Porém, neste jogo no curto prazo dão preferência às táticas frente a uma estratégia de fundo de unidade da esquerda, que garantiria à esquerda um longo período no poder.

A volta das férias em setembro provavelmente será árdua: o custo de vida e o desemprego em alta, que derivam irremediavelmente em uma crescente agitação e mal-estar social – com repercussão nos meios de comunicação social dominados por grupos econômicos da direita – são fatores suficientes para não facilitar as coisas para o governo. Ainda mais que se aproximam as eleições locais (9 de outubro) e as presidenciais (janeiro ou fevereiro de 2006). Trata-se de um acúmulo de circunstâncias que aconselham os estrategistas do PS a definirem um rumo claro de um entendimento no seio da esquerda, se realmente pretendem uma permanência no poder a médio prazo.

Por outro lado, a crise da União Européia, provocada pelo NÃO dos franceses e holandeses para a Constituição européia e certamente agravada pelo governo britânico, obriga toda a esquerda européia a uma profunda reflexão, contando com a existência de vontade política para seguir adiante com o projeto de paz e o modelo social europeu, que são fundamento da identidade e da coesão européias, bem como da construção da União Política Européia enquanto potência internacional, fator de equilíbrio, contenção e esperança no cenário mundial. Não se trata de uma utopia, neste mundo sombrio, desumano e cruel de globalização sem regras.

Trata-se de um caminho que a esquerda européia deverá reconsiderar e promover se pretende ser ouvida e respeitada no mundo. Um caminho capaz de ser pioneiro para Estados como Portugal e Espanha, já que possuem governos de esquerda, críticos com o neoliberalismo. Um caminho que poderá servir de estímulo e contribuir positivamente para a reflexão entre todos os europeus – incluídos os da Europa do Leste – que sentem a necessidade de cortar pela raiz o pensamento único neoliberal que tanto prejudica o planeta. Social-democratas, socialistas, trabalhistas, partidários de uma globalização diferente, comunistas, mulheres e homens que reivindicam o socialista humanista, livre de sua perversão totalitária, que não querem se limitar a ações de simples protesto e dão fé de que é possível construir solidariamente um mundo mais justo e melhor para todos os seres humanos.

(1) Esta coluna é publicada na Espanha pelo jornal La Vanguardia e distribuída nos demais países pela IPS.

(*) Mario Soares, Presidente de Portugal entre 1986 e 1996.

Correspondentes da IPS

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