ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS: Colocar as crianças em perigo

VALE DO RIFT, 07/07/2011 – É o final da tarde e a figura solitária de Nancy Chepkemboi, de nove anos, caminha em direcção a casa. Para manter a cabeça seca devido à forte chuva, Chepkemboi coloca os livros dentro da camisa e usa o saco de plástico, que funciona como pasta de escola, para cobrir a cabeça. A menina não pode molhar os livros porque senão a professora enviá-la-á para casa. Mas também não quer molhar a cabeça. Com os dentes a bater de frio, explica que, nos últimos dias, regressa a casa a pé à chuva ao longo da estrada de Nakuru-Eldoret, no Vale do Rift. Está molhada até aos ossos, o que agora acontece regularmente devido às chuvas invulgarmente frequentes e fortes, colocando-a em risco de contrair pneumonia e possivelmente malária. Poças permanentes de água são agora comuns nessas regiões, sendo responsáveis pelo elevado incidente de infecções de malária. De acordo com o Ministério da Saúde, a malária é a principal causa de morte de crianças com idade inferior a cinco anos. Quase 34.000 crianças quenianas morrem com malária todos os anos, e encontram-se em maior risco de contrair malária durante a época das chuvas. Em termos climáticos, o Quénia enfrenta dois extremos. Devido às alterações climáticas, não tem havido chuva em grande parte do país. A seca na região do nordeste foi classificada como catástrofe nacional. Mas no Vale do Rift e no Quénia Ocidental as chuvas têm sido mais fortes do que o esperado. E espera-se mais chuva. O Departamento Meteorológico do Quénia confirmou que o Vale do Rift e as regiões ocidentais do país vão continuar a ter chuvas mais fortes do que o normal até Agosto. As severas condições climáticas colocaram milhares de crianças em situações potencialmente perigosas. Às vezes só o facto de irem à escola pode colocá-las em perigo. “Nesta altura, a estrada entre Karandi e a escola primária de Kiambogo ainda está em mau estado porque a ponte foi levada pelas enxurradas durante a época das chuvas no ano passado. Os esforços feitos para a reparar foram infrutíferos,” explicou Peter Leseni, um pai na região de Laikipia Ocidental, no Vale do Rift. Charles Mwangi, aluno da escola primária no Quénia Central, quase que se afogou quando tentava atravessar um rio de caudal turbulento em 2010, altura em que o país começou a registar os efeitos das alterações climáticas. “Para chegar a casa, a maioria de nós na escola tinha de atravessar o Rio Kamiti. Nesse dia, a ponte tinha ficado submersa; em vez de andarmos mais dois quilómetros, decidimos nadar até ao outro lado.” Mas o rio era mais fundo do que Mwangi previra e ele começou a afogar-se. Teve sorte porque um homem que trabalhava numa exploração agrícola ali perto ouviu os gritos dos amigos e chegou a tempo de o salvar. Mesmo os campos de deslocados internos correm o risco de serem destruídos pelas chuvas quando os seus habitantes dormem nas suas precárias habitações. “Chove a cântaros e amontoamo-nos dentro do campo…. O meu filho de três anos apanhou pneumonia. O meu filho mais velho, de dez anos, tem problemas respiratórios…” explica Nduta Kamau, residente do campo de Ebenezer, na região de Naivasha, no Vale do Rift. John Morris, director nacional do Plano Internacional-Quénia, que faz parte de seis organizações que formam a coligação Crianças num Clima em Mudança, afirma que num clima em mudança as crianças têm o direito à segurança (A coligação tem por objectivo a protecção e a participação de crianças e jovens num clima em mudança.) “Os direitos fundamentais das crianças incluem os direitos à protecção e educação. Isto aplica-se a todas as crianças em todos os tempos, mesmo quando ocorrem catástrofes. Todos os anos, e de forma regular, nalguma parte do Quénia, crianças e respectivos pais e comunidades ficam desalojadas devido às chuvas e à seca.” Morris explica que, nestas circunstâncias, as crianças, que já são o grupo mais vulnerável na comunidade, ficam mais em risco. “Portanto, é crucial que todos – autoridades como governo local, agências responsáveis pela aplicação das leis, pais, agências humanitárias e de desenvolvimento como o Plano Internacional – façam tudo ao seu alcance para assegurar que as crianças permaneçam num meio ambiente protegido, longe de perigos e da exploração.” A Ministra responsável por programas especiais, Esther Murugi, que dirige a gestão de catástrofes e o desenvolvimento de medidas que reduzam os riscos, apelou vivamente à tomada de consciência da importância de estratégias sociais eficazes dirigidas a crianças como grupo vulnerável. “Para a protecção das crianças, as estratégias têm de começar já, porque amanhã pode ser demasiado tarde,” refere , falando das crianças afectadas pelas catástrofes relacionadas com o clima. Contudo, o país não implementou quaisquer medidas formais para proteger as crianças num clima em mudança. Devido às fortes chuvas e cheias repentinas, diversos líderes na região do Vale do Rift aconselharam os seus eleitores a tomarem as precauções necessárias, especialmente quando se trata de assegurar que as crianças sejam afastadas do perigo. Maison Leshomo, deputado da região de Laikipia Ocidental, no Vale do Rift, uma zona susceptível às cheias repentinas, tem instado repetidas vezes o governo a implementar as medidas de intervenção necessárias para se evitar uma repetição do desastre de 2010. Estima-se que 85 pessoas morreram durante as cheias repentinas quando as margens do Rio Nzoia transbordaram.

Miriam Gathigah

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