Irã: Brincando com fogo nuclear

Nova Délhi, 04/08/2005 – A ameaça do Irã de que reiniciará atividades nucleares limitadas, pois a União Européia não cumpriu a promessa de propor alternativas para seu programa de desenvolvimento econômico, é parte de um perigoso jogo de estratégia internacional. O grupo de países europeus que negociam com Teerã sobre a questão nuclear, integrado por Alemanha, França e Grã-Bretanha, conhecido como UE-3, advertiu que "qualquer movimento unilateral" por parte do Irã seria "desnecessário e prejudicial" e poderia tornar "muito difícil continuar" com as negociações. Observadores na Índia, país que acaba de assinar um acordo sobre comércio nuclear com os Estados Unidos, vêem estas advertências como parte de um jogo de pressão que pode ter um triste final.

No centro da mesa está a volátil situação política no Irã, depois da surpreendente eleição de Mahmoud Ahmedinejad com presidente e o mal-estar do Ocidente por ter de tratar com um líder considerado "linha dura" no islamismo. Se o problema nuclear não for resolvido logo, o perigo aumentará e o jogo pode ficar sem controle. O risco imediato é que a União Européia e os Estados Unidos ameacem levar a questão ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e peçam sanções contra o Irã, país que por sua vez poderia adotar uma postura mais intransigente. Teerã se negou a estender a suspensão de suas atividades nucleares, que aceitou em novembro passado e que terminou dia 31 de julho, em troca de o UE-3 apresentar propostas concretas de alternativas para seu plano de desenvolvimento nuclear, que segundo o governo iraniano tem fins nitidamente "pacíficos".

O UE-3 solicitou ao Irã que prorrogasse o prazo por mais seis dias, mas não foi atendido. "Esse prazo pode parecer muito curto e trivial, mas não é", disse Hamid Ansari, ex-embaixador da Índia em Teerã e destacado membro da Observer Research Foundation, de Nova Délhi. "Provavelmente, o UE-3 deseja ouvir um pronunciamento sobre a questão nuclear por parte do presidente eleito, que assumirá o cargo no próximo sábado", substintuindo o reformista Mohammed Khatami, acrescentou. Não foi um acidente a UE não cumprir o prazo de 31 de julho. Ansari disse que, segundo informes "que parecem confiáveis e sólidos", o UE-3 elaborou um pacote de propostas partindo do pressuposto que um político "moderado", como Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ou outro candidato nas eleições iranianas de junho, seria eleito presidente.

Porém os planos vieram por água abaixo com a vitória de Ahmedinejad. Esse pacote incluiria uma série de acordos para garantir para garantir o fornecimento de urânio levemente enriquecido para as projetadas centrais nucleares iranianas e o levantamento das barreiras para a venda de tecnologia a Teerã. Ficou de lado também a promessa européia de iniciar um sério diálogo de segurança para um acordo de não-agressão que poria fim à postura hostil em relação ao Irã por parte do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que inclui esse país, junto com Coréia do Norte e Iraque, no "eixo do mal".

O fato de esse pacote de propostas finalmente não ter sido apresentado também estaria relacionado com a diplomacia da UE em relação a Washington, que adotou uma postura mais firme com o Irã depois da vitória de Ahmedinejad e a visita a Teerã do primeiro-ministro iraquiano Ibrahim al-Jaafari, que tenta restaurar as relações entre os dois países, que estiveram em guerra entre 1980 e 1988. Washington não só quer pressionar o Irã para que adote "reformas democráticas", como também poderia estar considerando lançar um ataque militar contra esse país. A revista norte-americana The Nation informou na edição de 21 de julho que "Bush deu ao Departamento de Defesa sua aprovação para que antecipe diversos cenários de um ataque, caso Teerã realize suas atividades de enriquecimento de urânio, vistas por Washington como uma preparação para criar armas nucleares".

O artigo, escrito pelo especialista em assuntos de defesa Michael Klare, afirma que altos funcionários do governo Bush defendiam a idéia de uma invasão do Irã ainda antes da eleição de Ahmedinejad. Segundo a publicação The American Conservative, os planos de contingência dos Estados Unidos incluem o uso de armas convencionais, e inclusive nucleares, contra mais de 400 alvos iranianos. Por sua vez, Teerã separou dois dos pontos-chave de seu programa de desenvolvimento nuclear. Na localidade de Natanz, centro do país, estabeleceu a fábrica encarregada de enriquecimento de urânio, enquanto na também central Isfahan fica a unidade dedicada à conservação de óxido de urânio sólido em gás hexafluoruro. No momento, o Irã somente ameaça reiniciar as operações em Isfahan, claramente um passo prévio à atividade de enriquecimento de urânio.

De todo modo, o governo iraniano disse que somente queria continuar com o enriquecimento de urânio para alimentar seus reatores de energia. Teerã insiste que tem direito a adquirir e desenvolver tecnologia nuclear com fins pacíficos e que nunca procurará criar armas de destruição em massa. "Sobre este ponto, todos os principais líderes iranianos são unânimes. Nem mesmo Rafsanjani poderia mudar o forte consenso que existe no Irã sobre a política nuclear", afirmou o analista Gulshan Dietl, da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi. "Existe consenso de que o Irã deve procurar energia nuclear e não fabricar armas atômicas, pelo menos por enquanto. Não há razões para crer que existam diferenças importantes (entre os líderes iranianos) sobre este ponto", acrescentou Dietl.

Os Estados Unidos suspeitam que o Irã, com grandes reservas de petróleo e gás, não necessite de outro tipo de energia e que, na realidade, apenas procura obter armas de destruição em massa. O UE-3 tentou agir como mediador entre Washington e Teerã, mas seus esforços fracassarão se os norte-americanos adotarem uma postura muito dura e isolarem o Irã. Este país é signatário do Tratado de Não-proliferação Nuclear (TNP), que lhe permite desenvolver tecnologia atômica apenas para fins pacíficos. Suas atividades estão sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.

O Irã voltou a reivindicar seus direitos depois que os Estados Unidos assinaram um acordo excepcional com a Índia há duas semanas para reiniciar o comércio de tecnologia nuclear entre ambos. Washington considerou a Índia "um país responsável com avançada tecnologia atômica" e prometeu "ajustar" o regime internacional sobre controle nuclear para permitir uma maior gama de transações com Nova Délhi. O Irã, como era de se esperar, criticou esse acordo e acusou o governo Bush de ter um duplo discurso e de minar o TNP, que não foi assinado pela Índia. (IPS/Envolverde)

Praful Bidwai

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