Bangkoc, 21/01/2005 – "São algumas das imagens mais belas que já vi em minha vida", confessou o fotógrafo Sebastião Salgado, se referindo ás paisagens austrais que captou durante seus primeiros dias a bordo do veleiro científico francês "Tara", que se dirige à Antártida. "Estamos com muita sorte, pois o clima está magnífico para fotografar maravilhas do cabo Horns, extremo sul do continente americano, o estreito de Drake, entre os oceanos Atlântico e Pacífico, e as ilhas Shetland do Sul, Capitão Arturo Pratt e Esperança", disse Salgado ao Terramérica em entrevista telefônica via satélite de Tara.
O veleiro de dois mastros partiu no dia 5 deste mês do porto chileno Williams, cerca de 2.400 quilômetros ao sul de Santiago, dentro do Projeto Gênesis, que o fotógrafo lançou em 2004 com apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A meta desse programa é fotografar durante oito anos "a face pura e virginal da natureza e da humanidade", resumiu o artista. O projeto tem quatro capítulos, e o primeiro, "A criação", busca registrar em zonas isoladas vestígios do estado natural puro, com referência ao ar, à água e ao fogo como elementos geradores de vida.
Essa etapa, em andamento, começou no ano passado nas equatorianas ilhas de Galápagos; nas selvas de Virungas, na República Democrática do Congo, e na argentina Punta Valdez, na costa do Atlântico e cerca de mil quilômetros ao sul de Buenos Aires, onde baleias chegam para procriar todo mês de setembro, no início da primavera austral. Os capítulos seguintes serão "A arca de Noé", sobre espécies animais que resistem à domesticação; "Os primeiros seres humanos", sobre grupos sociais que mantêm um modo de vida ancestral e por fim "As primeiras civilizações", sobre os demais assentamentos humanos mais antigos. "A intenção de nosso projeto é educativa e de proteção ambiental. Queremos documentar simultaneamente a beleza e a fragilidade de nosso planeta", explicou Salgado, que pretende terminar estes trabalhos em 2011, com um livro e uma exposição itinerante.
O "Tara" é um veleiro de dois mastros de 27 metros de altura, 26 de comprimento e 10 de largura, com velas de mais de 400 metros quadrados. Um casco reforçado de alumínio o protege durante a viagem através do gelo. Há 15 anos transporta equipes de ambientalistas. Com o nome "Seamaster" serviu ao legendário marinheiro neozelandês Peter Blake, representante especial da Organização das Nações Unidas assassinado por piratas em dezembro de 2001 durante uma expedição na Amazônia. Depois de sua morte, o barco foi adquirido pelo francês Etienne Bourgois, que o rebatizou de "Tara" e que coordena a atual expedição. Dessa maneira se fecha um círculo, porque antes de ser usado por Blake, o veleiro fora propriedade de outro marinheiro ecologista francês, Jean-Louis Etienne, veterano de expedições científicas à Antártida e ao oceano Ártico, e alguns membros de sua tripulação agora trabalham no "Tara".
Etienne Bourgois disse ao Terramérica que esta viagem com Salgado também serve para preparar outra expedição ao oceano Ártico, que prevê realizar durante dois anos a partir do final de 2006, para estudar efeitos da mudança climática sobre as geleiras. O projeto se chama "Deriva Ártica" e comemorará também o Ano Polar Internacional em 2007. Nesta expedição à Antártida "devemos ainda resolver alguns problemas técnicos como, por exemplo, melhorar a eficiência no uso de combustível e o acondicionamento para suportar temperaturas dezenas de graus abaixo de zero", explicou. Acompanham Bourgois e Salgado vários cientistas, que aproveitam a aventura para pesquisar e classificar flora e fauna marinhas e da Antártida. Um deles é o biólogo marinho Laurent Ballestra, que mergulhou nas águas do estreito de Drake.
"A 30 metros de profundidade, a corrente marinha ainda é muito violenta", escreveu Ballestra no diário da expedição no dia 5 deste mês. "À primeira vista, rocha submarina parece desnuda. Mas, a curta distância nos damos conta de que a flora e a fauna realmente se adaptaram a força das ondas e se aderem à rocha. Alguns tipos de algas têm raízes mais volumosas do que suas folhas", acrescentou. O "Tara" fez uma parada no arquipélago de Diego Ramírez, onde habitam pingüins, pelicanos, albatrozes e os atraentes pingüins de penacho amarelo (Eeudyptes chrysocome). Nas próximas semanas a expedição visitará as ilhas argentinas e a antiga base chilena de Videla, totalmente ocupada por pingüins-papua (Pygoscelis papua) e pingüins de barbicha (Pygoscelis Antarctica) – Ver infografia.
Na região também vivem baleias e focas, sobretudo da espécie Leptonycghotes weddellii, que podem chegar a profundidades de 600 metros e sobreviver debaixo da água por mais de uma hora. Finalmente, o "Tara" alcançará o norte do mar de Weddell, já em plena Antártida, até chegar à ilha da Decepção, onde a base chilena do golfo de Péndulo foi destruída pela erupção de um vulcão em1967.
* Correspondente da IPS.

