MIDRAND, África do Sul, 14/12/2011 – O Sudão e o Sul do Sudão irão eventualmente chegar a um acordo razoável de partilha de petróleo entre as duas nações visto que existe vontade política por parte dos dois países para se encontrar uma solução. Quem o afirma é o Dr. Ali Yousif Ahmed Alsharif, embaixador do Sudão na África do Sul.
Este comentário foi proferido uma altura em que o Presidente do Sul do Sudão, Salva Kiir, efectuou a sua primeira visita oficial ao Sudão no dia 8 de Outubro. Alsharif afirmou que a visita de Kiir é prova que agora existe uma vontade política de ambos os países para se chegar a um acordo, o que é “um desenvolvimento importante”.
“No final, vão chegar a um resultado razoável. A cooperação entre os dois países é muito importante, é uma questão da viabilidade dos dois países. Têm de ser viáveis para poderem viver juntos. O Sul não tem acesso ao mar e precisa dos portos do Sudão,” disse Alsharif à IPS.
“Durante a visita concordaram em nunca recorrer à guerra para resolverem os problemas e que o diálogo seria a base de qualquer solução,” disse Alsharif.
Alsharif encontrava-se no Parlamento Pan-Africano, que concluíu a sua Quinta Sessão Ordinária do Segundo Parlamento em Midrand, na África do Sul.
A IPS falou com Alsharif acerca das dificuldades que o Sudão e o Sul do Sudão têm de enfrentar depois da secessão que teve lugar em Julho e das tensões na região de Abyei. Abyei continua a fazer parte do Sudão e poderá juntar-se ao Sul do Sudão se os grupos étnicos na região votarem num referendo a favor de tal medida.
Alsharif explicou que a região de Abyei é rica em petróleo, sendo povoada pela tribo Dinka Ngok, o maior grupo étnico na Sul do Sudão, assim como os Missiriya, uma tribo nómada do norte.
P: Que desafios é que o Sudão e o Sul do Sudão enfrentam depois da secessão?
R: O “divórcio” não tem sido fácil.
De acordo com o plano de paz global, ficou acordado que haveria um referendo na região de Abyei para determinar o futuro da área e se os seus residentes queriam ficar no Sudão ou fazer parte do Sul do Sudão. Neste referendo ambos os Sudaneses do Sul e os Sudaneses votariam.
O problema foi causado pela recusa do Sul em permitir a tribo Missiriya a votar. O Sul afirmou que só os Dinka Ngok é que podiam votar. O Norte não concordou.
As tensões continuam e o referendo está pendente. Resultou na ocupação da área pelo exército do Sudão devido a ataques do exército do Sul. Agora existe um acordo para as tropas etíopes – sob um mandato das Nações Unidas – substituírem o exército sudanês, estando planeada a formação de uma administração conjunta entre o Sudão e o Sul do Sudão, com a continuação das negociações.
P: O que se passa quanto à questão da partilha do petróleo entre o Sudão e o Sul do Sudão?
R: A partilha do petróleo (acordo) está pendente. Perto de 75 por cento do petróleo descoberto encontra-se no Sul, estando o restante localizado no Norte. Contudo, toda a infrestrutura petrolífera está localizada no Norte.
Estamos agora a debater a divisão da riqueza petrolífera e não há problemas quanto à partilha 75 e 25 por cento. A questão é o preço, apesar da oferta em aceitar (a partilha) de 75 e 25 por cento ser injusta para com o Norte.
De acordo com a prática internacional aceite, normalmente devem dividir-se os recursos metade para cada lado durante 10 ou 15 anos depois da secessão porque inicialmente a nação que existia anteriormente contribuíu para os custos de instalação, etc. É por isso que o Norte quer cobrar mais pelo transporte, para repor a perda de rendimentos.
P: Alguns analistas politicos dizem que a China, devido aos grandes investimentos no petróleo do Sudão, está posicionada para desempenhar um maior papel diplomático na redução do conflito entre o Sul do Sudão e o Sudão. O que é que pensa sobre isto?
R: Fui Embaixador do Sudão na China entre 1993 e 1998, altura em que começámos a cooperar com a China no Sudão. É claro que o governo do Sul do Sudão herdou os acordos que foram assinados pelo governo do Sudão naquela altura.
Portanto, a China está no Sul e está no Norte, e é no interesse das três partes cooperarem de forma construtiva.
A nossa experiência é que a China tem sido um bom parceiro de desenvolvimento e pensamos que pode ser um bom elemento de estabilidade e desenvolvimento entre o Norte e o Sul.
A presença da China em África suscita inveja e preocupações no Ocidente porque a China é uma economia estável ao passo que as economias da Europa e da América estão em maus lençóis.
P: Como é que reage à acusação que o conflito que afecta as comunidades ao longo dos estados fronteiriços pode resultar em genocídio?
R: A principal razão para o conflito no Nilo Azul e Sul de Kordofan é o facto de haver muitos indivíduos que lutaram no Movimento de Libertação do Sul do Sudão (SPLM) no Sul e no seu exército (o Exército de Libertação do Povo do Sudão – SPLA). Quando o Sul assinou o acordo de paz, foi necessário decidir-se como é que iria progredir e como é que as regiões iriam ser governadas dentro de um Sudão unido no Norte.
Começámos a ter problemas causados por elementos do SPLA.
No Sul do Kordofan tivemos eleições gerais em 2009 e o SPLM discordou do censo, apesar de ele ter sido declarado justo pela comunidade internacional.
Com base no segundo censo, realizaram-se eleições e ganhou o candidato do Partido do Congresso Nacional (NCP), ligado ao Norte, tendo o NCP obtido mais votos que o SPLM. O SPLM afirmou então que as eleições tinham sido manipuladas e começou a lutar.
No Nilo Azul tivemos um problema similar com a facção do SPLM Do norte.
Não existe genocídio, mas o que acontece é quando as forças rebeldes atacam e matam, essas acções são toleradas, mas quando as forças governamentais actuam para se proteger, isso é encarado (de forma diferente).
Quando Kiir visitou Cartum, foi-lhe pedido que se abstivesse de apoiar os rebeldes que lutam no Norte, não dando importância às existentes relações anteriores. O Sul do Sudão é agora um estado soberano e não tem o direito de interferir nos assuntos do Norte.

