MALAWI: Cólera numa altura de cheias

NSJANE, Malawi, 02/03/2012 – Sobreviveram às cheias e assistiram a cenas terríveis ao verem as suas casas, gado, artigos domésticos e jardins serem arrastados pelas cheias no final de Janeiro. Agora, as pessoas dos distritos de Nsanje e Chikhwawa, na fronteira com Moçambique, no sul do Malawi, enfrentam outra ameaça, um surto de cólera que já matou uma criança e infectou mais de 103 pessoas.

Os funcionários governamentais atribuíram este surto ao declínio das condições sanitárias, agravadas pelas cheias; mais de 550 latrinas secas foram destruidas pela água só em Nsanje, um distrito que foi duramente atingido pelas cheias.

Os esgotos provenientes das latrinas contaminaram as fontes de água no distrito, incluíndo os furos e poços abertos, aumentando os incidentes de cólera, de acordo com Humphrey Magalasi, funcionário adjunto responsável pela gestão de catástrofes em Nsanje.

"Quase todas as casas nas zonas rurais do distrito usam apenas latrinas secas. Tudo o que estava dentro das latrinas nas áreas afectadas pelas cheias entrou nas fontes de água," explicou Magalasi à IPS.

Os furos, poços, rios e riachos são a principal fonte de água nas zonas rurais do Malawi e as pessoas usam-nos para todas as tarefas domésticas. Em muitas aldeias não há torneiras.

Lucy Mateyu, de 46 anos, mãe solteira de sete filhos na aldeia de Mulolo, em Nsanje, contou à IPS que as cheias tinham chegado à aldeia quando se preparava para almoçar com a sua família no dia 23 de Janeiro de 2012.

"Tinha chovido contínua e intensamente nos últimos três dias e fui alertada pelo meu filho mais velho que tinha acabado de ver a nossa retrete desaparecer. Mesmo antes de eu poder verificar o que se tinha passado. a parte principal da minha casa abateu. Penso que nos salvámos porque estávamos sentados na cozinha enquanto eu cozinhava e os outros seis filhos estavam sentados à roda do fogo para se manterem quentes," disse Mateyu.

Acrescentou que a família tinha corrido rapidamente para cima de um monte e testemunhado a formação de águas violentas em redor da casa, arrastando tudo à sua frente. A família acabou por ser alojada num campo para vítimas das cheias preparado pelo governo.

Mais de 6.000 pessoas passaram por provação idêntica à da família de Mateyu. Nalguns casos o Exército do Malawi teve de intervir e usar meios aéreos para transportar muitos aldeões que ficaram presos nas suas propriedades inundadas. Estas pessoas foram depois levadas para os campos.

Mas os campos encontarm-se agora sobrelotados e os sobreviventes vivem em condições pouco higiénicas. Neste momento, as salas de aulas e os escritórios governamentais estão a ser utilizados como quartos para acolher as vítimas das cheias.

"Somos 21 num pequeno quarto e temos de partilhar uma casa de banho, que raramente está limpa," disse James Masitala, de 51 anos, que vive no mesmo campo que Mateyu e os seus filhos.

"Algumas pessoas defecam no mato perto do campo e isso está a aumentar o problema da falta de limpeza," queixou-se Masitala à IPS.

Os registos no Ministério da Saúde indicam que perto de 103 pessoas de Nsanje e do vizinho distrito de Chikhwawa foram infectadas pela cólera desde o início da época das chuvas em Novembro.

"Há muitas outras doenças diarreicas que se estão a registar nos campos," disse Magalasi.

Explicou ainda que o governo está agora a distribuir cloro às vítimas das cheias, às aldeias afectadas pelas cheias e às aldeias vizinhas em redor dos campos.

"Queremos que as pessoas bebam água tratada visto que a maior parte das fontes de água está contaminada. Também estamos a fazer campanhas de sensibilização sobre a importância da higiene e a trabalhar no sentido de melhorar a situação de saneamento nos campos mediante a construção de casas de banho temporárias,"disse Magalasi.

Houve alguns incidentes de cheias em Nsanje e Chikhwawa durante a época das chuvas no ano passado, e em todo o país só houve 76 casos de cólera.

O Comissário do Distrito de Nsanje, Rodney Simwaka, disse à IPS que nos últimos três anos o governo tinha estado a fortalecer a capacidade de preparação dos aldeões para lidarem com as cheias visto que esta é uma área propensa a elas.

Nsanje e Chikhwawa estão localizados na parte mais baixa do Malawi e o rio Ruo, proveniente do ponto mais elevado do Malawi, a montanha de Mulanje, costuma trazer águas turbulentas que inundam os dois distritos. O Ruo desagua no maior rio do Malawi, o Shire, um afluente do rio Zambezi em Moçambique.

"Temos equipamento que verifica o nível da água e envolvemos os comités das aldeias no seu funcionamento mas as cheias apanharam-nos de surpresa este ano," disse Simwaka à IPS.

Afirmou ainda que o governo aconselha as pessoas que vivem em áreas afectadas pelas cheias a deslocarem-se para terrenos mais elevados antes do início da época das chuvas mas muitas destas pessoas opõem-se a essa mudança.

"Normalmente as pessoas mostram-se relutantes em abandonar as suas casas e campos e só se mudam quando chegam as cheias. Isto torna difícil controlar a situação," disse Simwaka.

Entretanto continua a ter lugar uma enorme campanha de plantio de árvores na área como uma das medidas de mitigação das cheias. Tem havido muita desflorestação nos dois distritos visto que uma das principais actividades de subsistência das pessoas é a produção de carvão vegetal, que é depois vendido na vizinha cidade de Blantyre, o principal centro comercial do Malawi.

A época das chuvas no país normalmente termina em Abril e ainda existe o risco de cheias adicionais em Chikhwawa e Nsanje, de acordo com as previsões do Departamento de Alterações Climáticas e Serviços Meteorológicos, que já fez um aviso sobre ciclones tropicais que irão trazer mais chuvas intensas este mês.

Claire Ngozo

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