ADDIS ABEBA, 20/03/2012 – A Etiópia afirma que o crescimento económico do paÃs, com valores de dois dÃgitos nos últimos sete anos, começou a beneficiar a maioria da população no paÃs, aumentando os seus rendimentos e a sua produtividade na agricultura e negócios em pequena escala. Embora o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial afirmem que o paÃs registou um crescimento do PIB de 8.7 por cento, o governo refere que a economia cresceu 11.4 por cento. Contudo, no ano de 2011 a Etiópia foi referida como a segunda economia com mais rápido crescimento em Ãfrica, depois do Gana, segundo o relatório económico anual da Comissão Económica das Nações Unidas para Ãfrica (ECA). No passado, a Etiópia fez manchete por ter registado algumas das piores situações de fome em Ãfrica, e ainda devido ao seus indicadores de saúde negativos "“ registava uma das mais elevadas taxas de mortalidade materna no mundo. Em 2005, 871 mulheres morreram por cada 100.000 nados-vivos. Mas esta situação está a mudar lentamente, já que o governo tem feito progressos na prestação de serviços sociais como saúde, educação e infraestruturas. "Em 2010 a Etiópia continuou a registar um rápido crescimento, como tem acontecido nos últimos cinco anos. O crescimento do PIB em 2010 continuou a bom ritmo, a 8.8 por cento. O crescimento é impulsionado pelo sector dos serviços (14.5 por cento), seguido pelos sectores industrial (10.2 por cento) e agrÃcola (seis por cento)," segundo o relatório da ECA. Numa entrevista exclusiva à IPS, o Ministro de Estado junto do Gabinete de Assuntos de Comunicação Governamental, Alemayehu Ejigu, afirmou que a Etiópia tinha registado um crescimento impressionante ao aumentar a produção vegetal de 11.9 por cento em 2005 para 18.08 por cento no final de 2010. A vida das pessoas está a melhorar nas áreas rurais e urbanas devido à expansão dos serviços de saúde e ao desenvolvimento de infraestruturas, segundo Ejigu. Ejigu atribuÃu o sucesso à implementação eficaz do Plano de Crescimento e Transformação (GTP) nacional quinquenal. Afirmou que, de 2011 a 2016, este Plano iria ajudar a Etiópia a juntar-se ao grupo de paÃses de rendimento médio. Ejigu também disse à IPS que o governo planeava criar oportunidades de emprego com a construção de 73.000 quilómetros de estradas rurais. "Isso irá criar uma oportunidade para que os agricultores possam transportar facilmente os seus produtos agrÃcolas para o mercado," explicou Ejigu. Abeba Bezu, consultor sobre assuntos económicos em Adis Abeba, referiu que, de acordo com o ambicioso Plano para o Desenvolvimento Acelerado e Sustentável para Acabar com a Pobreza, o governo tinha reduzido a pobreza de 38.7 por cento em 2005 para 31 por cento cinco anos mais tarde. "Embora se debata com dificuldades devido à numerosa população de 91 milhões de pessoas, fazendo deste o segundo paÃs mais populoso na Ãfrica Subsariana, tem havido progressos significativos na melhoria do nÃvel de vida. Há um desenvolvimento notável." No entanto, Teshome Adugna, professor assistente do Departamento de Economia da Universidade do Serviço Público EtÃope, advertiu que, como o PIB considera o valor de mercado de bens e serviços, não pode constituir um instrumento perfeito para indicar o crescimento real de um paÃs, tendo em conta o manuseamento incorrecto de registos e sistemas de gestão na Etiópia. "Uma vez que o PIB não divulga informações sobre quem produz e qual a quantidade produzida, é difÃcil saber como é que os cidadãos individuais beneficiam do crescimento mencionado," explicou. Adugna descreveu o crescimento da Etiópia como tendo "amplo apoio", que atribuÃu ao crescimento dos sectores dos serviços, industrial e agrÃcola. "Claro que não podemos esperar que o desemprego urbano acabe dentro de muito pouco tempo." "Posso afirmar que muitas pessoas beneficiam com o crescimento económico na Etiópia, mas não diria que a vida da maioria das pessoas melhorou. Precisamos de tempo para acelerar o desenvolvimento social necessário para modificar a vida da maioria." Há dez anos, só dois terços dos EtÃopes tinham acesso aos serviços de saúde, deixando os outros 68 milhões de pessoas em todas as grandes áreas rurais em condições precárias. "Desde 2004 que o Ministro de Saúde tem expandido o acesso aos cuidados de saúde através do Programa de Extensão de Saúde, cujo alvo é a população rural," afirmou Amanuel Ayalew, profissional de saúde voluntário no norte da Etiópia. Consequentemente, o relatório nacional sobre a Etiópia do Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID), o departamento governamental britânico responsável pela promoção do desenvolvimento e pela redução da pobreza, revelou que o impacto do programa de saúde era notável, visto que o Programa de Extensão de Saúde chegava a nove milhões de agregados familiares. O DFID irá gastar, em média, 524 milhões de doláres por ano na Etiópia até 2015. Os mais de 35 milhões de mosquiteiros tratados com insecticidas contra a malária levaram a uma redução de 73 por cento dos casos de malária. Esta acção, associada ao vasto e consistente programa de vacinação contra doenças mortais dirigido a crianças com idades inferiores a cinco anos, levou a uma redução significativa das mortes nessa faixa etária em 62 por cento nas aldeias com acesso ao Programa de Extensão de Saúde. Há agora cerca de 1.4 milhões mais mulheres que usam contraceptivos em relação a 2005, e a taxa bruta de matrÃculas a nÃvel da escola primária cresceu de 91.3 por cento para 96 por cento entre 2005 e 2010. Porém, continua a haver desafios. "Apesar do componente do crescimento económico de dois dÃgitos nos últimos cinco anos, e da projecção de um crescimento igualmente notável pelos analistas económicos, o crescimento económico sustentável e a redução da pobreza continuam a constituir um desafio," disse Bezu. A maioria dos pobres nas zonas rurais continua a debater-se com graves alterações climáticas e é ainda altamente susceptÃveis à s secas. É uma situação que o governo reconhece parcialmente. "Quando afirmamos que o paÃs está a crescer não queremos dizer que cada um dos cidadãos não tenha de enfrentar problemas… mesmo nos Estados Unidos há pessoas que recebem ajuda alimentar," disse Ejigu. Acrescentou, porém, que ninguém iria morrer de fome visto que não haveria escassez de alimentos no paÃs. Esta é uma opinião com a qual Mushe Semu, o lÃder do Partido Democrático EtÃope, na oposição, não concorda. "A Etiópia é um paÃs onde muitos dos seus cidadãos passam fome. Não é uma questão de ter comida duas ou três vezes por dia," disse Semu à IPS. Asseverou ser impossÃvel que a EtÃopia se tornasse um paÃs de rendimento médio. "Quando pensamos na maioria da população etÃope, estamos a falar de agricultores e comunidades rurais, que constituem 85 por cento da população. Aqui, a gestão da terra e a fertilidade do solo têm de ser consideradas," disse. Acrescentou ainda que, sem a distribuição eficaz de toda a terra arável à população, e tendo em conta a existente degradação dos solos, não era possÃvel haver desenvolvimento. Os analistas também dizem que o paÃs não propicia o crescimento do sector privado. "Embora o governo tenha em mente o desenvolvimento liderado pelo sector privado, o ambiente não promove o crescimento do sector privado. Na realidade, o investimento privado como percentagem do PIB tem estado a baixar desde 2004," disse Bezu. Num estudo global do Banco Mundial denominado Facilidade de Fazer Negócios, em 2010 e 2011 a Etiópia ficou colocada no 103° e 104° lugares, respectivamente, de um total de 183 paÃses. Entretanto, disse Abiy Getahun, funcionário público, que o crescimento económico de dois dÃgitos reiteradamente propalado pelo governo ainda não tinha trazido o desenvolvimento social desejado à sua vida. Referiu os baixos salários pagos na Etiópia. O Relatório do Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento relativo a 2011 coloca a Etiópia no 174° lugar de um total de 187 paÃses em todo o mundo. Getahun queixou-se que a maior parte das pessoas, particularmenete os habitantes das zonas urbanas, não conseguia resistir ao aumento do preço de bens e serviços. "O aumento salarial que recebi nos últimos 10 anos foi só 400 Birr EtÃopes (menos de 25 doláres), ao passo que o preço de bens e serviços tem subido de forma assustadora." * NotÃcias adicionais produzidas por Miriam Gathigah em Nairobi

