EUA: Aumenta a pobreza na única potência mundial

Nova York, 05/09/2005 – O ditado "os ricos enriquecem e os pobres empobrecem" costuma ser usada para ilustrar a situação dos países em desenvolvimento. Mas hoje descreve o panorama econômico dos Estados Unidos, a única superpotência mundial. Os últimos estudos do Escritório de Censos dos Estados Unidos a esse respeito refletem, segundo muitos economistas, o impacto negativo da "sociedade de proprietários", uma plataforma programática proposta à população pelo presidente George W. Bush. O esquema se caracteriza pela redução de impostos ao investimento de capital e à poupança e a privatização da previdência social. A tendência regressiva ficou evidente em todos os lares norte-americanos pelas imagens mostradas pela televisão de desesperadas vítimas do furacão Katrina no sudeste do país, cuja esmagadora maioria é de pobres e negros.

Muitos sobrevivem graças à minguante previdência social e não podem gastar em combustível ou passagem de ônibus para fugir do furacão. "Em geral, a pobreza não mata rapidamente. Mas ás vezes sim se, por exemplo, um furacão monstruoso devasta uma região", escreveu Bill Berlow, editor do jornal Tallahassee Democrat,em um comentário sobre o censo. "Em meio ao terrível sofrimento que o Katrina produziu em poucas horas, e que atravessa um grande espectro sócio-econômico, nos inteiramos de que muitos pobres morrem simplesmente por terem menos opções", afirmou Berlow. Os dados do Escritório de Censos explicam isso com números.

No ano passado, a pobreza atingia 12,7% da população. Foi o quarto ano consecutivo de aumento dessa porcentagem. Isso significa que 37 milhões de pessoas vivem com renda inferior a US$ 19.157 anuais por família de quatro pessoas. Traduzindo em números absolutos, isso quer dizer que no ano passado houve nos Estados Unidos 1,1 milhão de pobres a mais do que em 2003. A iniqüidade econômica em 2004 se aproximou do recorde: os 20% mais ricos da população receberam 50,1% da renda total. Os 5% mais ricos foram o único setor que desfrutou de um aumento real em sua renda. A renda dos restantes 95% se manteve ou caiu. Mas a situação real de fato pode ser ainda pior, pois não fica claro se o Escritório de Censos contabiliza os imigrantes ilegais.

A renda média por família de quatro membros se manteve em US$ 44.389, estancados desde 2003. Entre as comunidades étnicas, os negros são os que recebem a mais baixa média de renda, enquanto os asiáticos recebem a maior média. E entre as regiões,o sul – no sudeste do país, onde passou o furacão – foi a que teve a renda média menor, e o nordeste e oeste a maior. O aumento da pobreza se registra em meio a um forte crescimento econômico de 3,8% ao ano, que permitiu em 2004 a criação de 2,2 milhões de empregos. Porém, a maioria desses postos de trabalho correspondiam ao setor de serviços, com salários menores que os da indústria.

Os empregos industriais desaparecem, ao mesmo tempo em que a força de trabalho norte-americana continua carecendo dos conhecimentos necessários para ter acesso aos empregos que melhor remuneram no setor de serviços. A maioria dos trabalhadores deve ter dois empregos, para com o segundo cobrir as reduções salariais que sofreram no primeiro. Como se não bastasse, boa parte do crescimento da riqueza econômica dos últimos anos se canalizou puramente através de bens financeiros adquiridos por ricos na forma de entrada de capital, como juros, rendas e dividendos, segundo muitos economistas.

A quantidade de pessoas sem seguro de saúde aumentou de 45 milhões para 45,8 milhões. Mas o Escritório de Censos afirmou que a respectiva porcentagem se mantém inalterada, já que um "aumento na cobertura do governo" implica "uma queda na base sobre o emprego". Porém, os programas públicos de saúde, como o Medicaid, sofrem cortes em Estados que não podem financiá-los, o que deixa os pobres ainda com menos recursos sanitários. A paisagem econômica desde a Casa Branca e o Capitólio, sede do Congresso em Washington, é, obviamente, muito diferente da que se vê desde abaixo da linha de pobreza.

Na última legislatura, o Congresso, pressionado por firmas emissoras de cartões de crédito, aprovou uma lei que dificulta pessoas de baixa renda se declararem falidas para evitar as dívidas. Por outro lado, essas companhias incentivam seus clientes a utilizar seus cartões. Segundo organizações de defesa dos consumidores, seu objetivo é aumentar a possibilidade de inadimplência, mais lucrativa por causa dos juros e das multas exorbitantes. Nesta semana, quando reiniciarem as sessões, o Congresso analisará projetos de lei que afetam os mais ricos (o imposto sobre bens de raízes ou reduções de tributos nos investimentos) e os mais pobres (aumento do salário mínimo).

Os legisladores também examinarão propostas para reduzir ainda mais os programas de assistência aos mais pobres, como o Medicaid, cartões para alimentos e empréstimos estudantis. Por outro lado, a Casa Branca e o Congresso continuam paralisados em torno da reforma da previdência social, em parte porque, segundo as pesquisas, a maioria do público não acredita que a privatização aumente o valor das aposentadorias e pensões por incapacidade física, como assegura o presidente Bush. Nos últimos anos, o motor da economia norte-americana tem sido o gasto dos consumidores, mais do que nos investimentos dos ricos beneficiados pelo corte de impostos.

O que acontece com o consumo quando os pobres ficam mais pobres? À medida que caem os salários e os cartões de crédito ficam bloqueados, o consumo diminui, advertem economistas. Cada vez mais pessoas afundarão em um abismo financeiro e sua sobrevivência se converterá em responsabilidade do governo e, por fim, de todos os contribuintes. Devido ao enorme déficit fiscal disposto por políticos que defendem compromisso com a responsabilidade no gasto público, os contribuintes – atuais e futuros – deverão carregar o pesado fardo de financiar a dívida acumulada pelo Estado. Pelo menos a metade dessa dívida é propriedade de residentes no exterior que esperam receber os juros de seus investimentos.

Isso implica em uma pressão adicional sobre a balança internacional de pagamentos dos Estados Unidos e deprime o valor do dólar, o que por sua vez deixa fora do alcance dos pobres muitos produtos importados de primeira necessidade. "Definitivamente, os Estados Unidos não cumprem um critério-chave do progresso econômico: elevar a qualidade de vida do segmento mais pobre da sociedade", disse à IPS o ex-subsecretário de Comércio Jack Behrman, professor da Escola de Negócios da Universidade da Carolina do Norte. "As atuais políticas favorecem os ricos e se concentram mais no êxito financeiro do que na produção de bens e serviços reais. É uma receita mais para o conflito econômico e social do que para a construção de uma sociedade unida", concluiu. (IPS/Envolverde)

William Fisher

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *