Nações Unidas, 06/09/2005 – Um assessor especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas encontra-se em visita ao Sri Lanka para avaliar o conflito entre o governo e os separatistas do norte e leste da ilha, a pedido da capital, Colombo. A visita, que começou no domingo e termina nesta terça-feira, atende a uma solicitação feita pela presidente Chandrika Kumaratunga, explicou Fahran Haq, porta-voz das Nações Unidas. Kumaratunga falou duas vezes por telefone na semana passada com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pedindo ajuda para relançar o processo de paz com os separatistas Tigres de Libertação Tamil Eelam, com a mediação da Noruega. Em resposta, Annan solicitou ao seu assessor especial, Lakhdar Brahimi, que visitasse o Sri Lanka e apresentasse um relatório sobre a atual situação política e militar nesse país, informou Haq à IPS.
Brahimi, ex-chanceler da Argélia, é atualmente assessor especial da Annan sobre prevenção e resolução de conflitos. Nessa condição, atuou no Zaire (Atual República Democrática do Congo), Haiti, Iêmen, Líbano, Libéria, Nigéria, Sudão e Nepal, mas suas missões mais importantes foram as do Iraque e do Afeganistão. "Brahimi avaliará a situação no país e informará o secretário-geral", acrescentou o porta-voz. Sri Lanka, que até agora havia rejeitado toda oferta de mediação da ONU por medo de "internacionalizar" um problema étnico nacional, se viu obrigado a recorrer às Nações Unidas, segundo observadores políticos de Colombo.
Os Tigres lutam desde 1983 pela independência do norte e do leste da ilha, de maioria étnica tamil. Dos 19 milhões de habitantes do país, 74% são cingaleses e 18% tamis, em sua maioria hindus. O conflito entre a minoria tamil e a maioria cingalesa e budista provocou a morte de mais de 76 mil pessoas. Apesar de um cessar-fogo estabelecido em fevereiro de 2002, as negociações estão paralisadas desde abril de 2003, e a relação entre o governo e os rebeldes ficou cada vez mais tensa desde a deserção do ex-chefe militar dos Tigres, Vinayhamoorthi Muralitharan, aliás, Karuna, para o lado do governo.
Os Tigres acusaram Colombo de promover uma "guerra de desgaste" utilizando a facção dissidente de Karuna. Depois ocorreu o assassinato do chanceler Lakshman Kardigamar, no último dia 12, que o governo atribuiu aos Tigres e que marcou a pior crise nas relações entre as duas partes desde o início da trégua. Os rebeldes negaram qualquer responsabilidade no atentado. O assassinato aconteceu quando a trégua entre os Tigres e Colombo estava sob grande pressão. O cessar-fogo conseguido com a intermediação da Noruega é o mais longo dos 21 anos de guerra civil, mas os mediadores não conseguiram destravar o processo depois de mais de três anos de negociações diplomáticas.
Colombo acusou a Noruega de ser "muito branda" com os Tigres de Tamil, responsabilizados por vários "assassinatos seletivos" durante o cessar-fogo, incluindo o do chanceler Kadirgamar e os de vários jornalistas. Kadirgamar, que havia feito uma campanha mundial contra os Tigres e convencido vários países ocidentais a proscrevê-los como "grupo terrorista", foi abatido por um franco-atirador em sua casa de Colombo três semanas antes de sua viagem prevista a Nova York para participar da Assembléia Geral da ONU, que começa no próximo dia 17.
Soube-se que o pedido de ajuda feito por Kumaratunga à ONU se relaciona principalmente com o propósito de por fim ao recrutamento de crianças-soldados pelos Tigres e investigar violações de direitos humanos cometidas pelo grupo rebelde. Além disso, a presidente visaria a uma possível intervenção das Nações Unidas para destravar as conversações de paz com os rebeldes. A decisão do governo de pedir ajuda à Organização das Nações Unidas também é considerado um grande esforço para debilitar a Noruega ou para fazer com que esse país acelere o processo de paz. (IPS/Envolverde)

