Estados Unidos: A quarta fase

Miami, 05/09/2005 – Passou-se para uma nova etapa na percepção norte-americana da aventura no Iraque. É a fatídica quarta fase, letal para que Bush não passe à história como o que desejam 51% dos eleitores efetivos que o reelegeram em 2004. Por outro lado, pode-se confirmar que o dirigente é denunciado, detestado e rechaçado pela outra metade (54% da opinião pública que consideram um erro enviar tropas ao Iraque, e os 57% que consideram os Estados Unidos menos seguro diante do terrorismo desde então). O marco que assinala o novo capítulo da era inaugurada em 11 de setembro de 2001 é o protesto organizado por Cindy Sheeha, de 48 anos, mãe de Casey Sheehan, um soldado de 24 anos morto no Iraque, que resiste a sumir da entrada do rancho do presidente em Crawford.

A primeira fase deste drama, que ameaça converter-se em uma repetição do erro do Vietnã, durou apenas algumas horas depois da queda das Torres Gêmeas e do ataque ao Pentágono na manhã do 11 de Setembro. Mas, de repente abriu-se a segunda fase, já com o presidente ressurgido depois de seu vôo ziguezagueante até Nebraska. A mudança sutil aconteceu quando as telas de televisão deixaram de repetir as terríveis cenas dos vôos fatais em parafuso dos que ilusoriamente queriam escapar do fogo dos últimos andares das torres de Manhattan. O lema foi unânime: não podia ser; negar-se a aceitar a realidade. Ou, pelo menos, era inaceitável nos Estados Unidos como se concebia. Daí que todo o cenário foi protagonizado por forças externas e se construiu uma estratégia de guerra total contra o "mal", uma entidade etérea, internacionalizada, alheia a todas as luzes. Estrangeiros eram os terroristas suicidas que haviam planejado maquiavelicamente a trama desde o exterior.

Se construiu um universo dividido claramente em dois: os Estados Unidos, e seus aliados voluntários, e o resto. Foram aprovadas por unanimidade leis anticonstitucionais e discriminatórias. Se toleraram covardemente porque seus prejudicados eram tão estrangeiros quanto os que cometeram os crimes. Inventou-se uma argúcia legal pela qual não são considerados combatentes e, portanto, merecedores dos privilégios da Convenção de Genebra, um conceito "pitoresco" e "obsoleto", segundo Alberto Gonzales, assessor de Bush, depois colocado como ministro da Justiça. Em todo caso, as prisões eram secretas ou ficavam em Guantânamo. Com o país em permanente choque sem entender o que havia acontecido, insistiu-se na alienação do fenômeno. Todos eram estrangeiros: terroristas, presos, Estados rebeldes.

Além disso (chave da sobrevivência das teses de Bush), o mecanismo pelo qual se lutava contra o mal externo era um exército projetado também para a guerra externa, sem as limitações dos direitos garantidos no interior. Estes exércitos, curiosamente, também eram alheios à sociedade, pois estavam profissionalizados, formados por voluntários, para fazer um trabalho, por mais desagradável que fosse. A armação funcionou até o final da guerra, quando Bush debaixo de uma cobertura de um porta-aviões declarou vitória e deu a ordem de conversão do Iraque em uma sociedade paradisíaca. Este esquema sofreu um estrondoso desastre tão sonoro que somente o autismo da Casa Branca convence alguns poucos iludidos de que é plausível.

A terceira fase começou quando a estratégia se tornou cara em meios materiais e humanos, e a imagem dos Estados Unidos foi ao chão. O conta-gotas da retirada de tropas no Iraque foi o começo do fim, e daí o ódio em relação ao primeiro-ministro espanhol, Zapatero, pela retirada fulminante. Mas a chantagem do patriotismo se voltou para um Bush alçado pela vitória eleitoral, sem pensar que, na realidade, os três ou quatro milhões de eleitores que inclinaram a balança não o fizeram pela bondade do projeto do Iraque, mas para cobrar uma fatura ideológica por temas como aborto, laicidade e medo da imigração descontrolada.

A quarta fase foi inaugurada por Cindy e pelos que pressionarão congressistas democratas e republicanos a frearem o aparentemente inexorável caminho para o novo Vietnã. Significativamente, o fim da aventura de Bush pode ser gerado por um detalhe não ideológico, não sentimental, mas simplesmente administrativo: a fatura da guerra já se aproxima dos US$ 2 bilhões, com a gasolina quebrando os orçamentos domésticos e os desesperados escritórios de recrutamento. Para se parecer com o Vietnã, entretanto, o incipiente protesto carece de um detalhe também latente. Naquela época lutavam na guerra todos os homens (poucas mulheres) em idade de recrutamento; agora, somente os mais pobres ou desfavorecidos, ou os impelidos por uma desmedida vocação, a sofrem. Tudo tem um limite. (IPS/Envolverde)

(*) Joaquín Roy é catedrático Jean Monnet e diretor do Centro da União Européia da Universidade de Miami (jroy@miami.edu).

Correspondentes da IPS

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