México, 06/09/2005 – Milhares de imigrantes de origem latino-americana nos Estados Unidos foram afetados pelo furacão Katrina, e pelo menos três deles morreram. Governos e organizações não-governamentais tentam ajudá-los, mas tropeçam nas restrições impostas por Washington. Autoridades consulares latino-americanas calculam que cerca de 300 mil pessoas originárias do México, da América Central e América do Sul viviam nos Estados do sul dos Estados Unidos nos quais zonas inteiras foram devastadas pela tempestade tropical da semana passada e pelas conseqüentes inundações. Grande parte dessa população ficou sem emprego e perdeu seus pertences.
"A situação é muito difícil agora, pois temos problemas para contabilizar os afetados e chegar com ajuda. Além disso, o Departamento de Estado tem limitado o trabalho que poderíamos fazer", disse á IPS o embaixador de Honduras em Washington, Norman García. Segundo o diplomata, apenas em Nova Orleans e arredores, uma das regiões mais afetadas, viviam cerca de 140 mil pessoas de origem ou ascendência hondurenha. Quase todos foram vítimas, inclusive os funcionários do consulado nessa cidade. García lamentou que toda ajuda em alimentos, remédios e apoio logístico oferecido por vários governos da América Latina e do Caribe não tenham se materializado. "Isso porque o governo no momento só permite ajuda em dinheiro e através da Cruz Vermelha", explicou em entrevista telefônica.
O furacão Katrina entrou em território norte-americano pelo golfo do México no dia 29 de agosto e causou uma destruição que levará anos para ser superada, segundo afirmou o presidente George W. Bush. Algumas estimativas indicam que 10 mil pessoas podem ter morrido. O governo do México informou que cerca de cem mil mexicanos estão entre os afetados pelo furacão, cujas chuvas inundaram parte dos Estados do Alabama, Mississippi e Louisiana. No momento, existe a informação de três mexicanos mortos, disse na segunda-feira o chanceler Luis Derbez, que viajará nos próximos dias à região afetada com outros funcionários.
Honduras, Nicarágua, Peru e El Salvador enviaram funcionários consulares, disponibilizaram números de telefones especiais para atender pedidos de ajuda e se dirigiram a refúgios instalados em diferentes pontos dos Estados Unidos para receber as vítimas. "Porém, os consulados não podem operar como bem entende na zona afetada, já que o Departamento de Estado não nos permite", disse o embaixador hondurenho. Seu governo enviou o comissário presidencial, René Becerra, para trabalhar diretamente com as vítimas. "Temos informes sobre 300 compatriotas afetados, que estão a salvo, mas não sabemos mais nada nem temos informações sobre mortos, pois está vetado o acesso aos registros que o governo dos Estados Unidos está fazendo", acrescentou o diplomata.
Washington aceitou a ajuda do México, que enviará uma equipe de militares, médicos e socorristas, informou o governo do presidente Vicent Fox. Honduras e outros países, como Brasil, Cuba, México, Panamá, Guatemala e Venezuela ofereceram ajuda ao governo norte-americano, incluindo médicos, equipes de resgate, remédios e alimentos. Porém, Washington não respondeu. Carlos Ávila, funcionário do Banco Centro-americano de Integração Econômica (BCIE), informou à IPS de seu escritório em Honduras que a entidade trabalha em um projeto para auxiliar os danificados do istmo. "Na América Central temos experiência com o furacão Mitch de 1998 e sabemos que depois do golpe inicial vem, para as vítimas, um processo difícil de reinserção na vida, pois muitos perderam seu patrimônio, seu emprego e os jovens deixaram até a escola", afirmou.
O plano visa coordenar esforços com Washington para assessorar os afetados. "A idéia é buscar a maneira de reinserí-los na sociedade", explicou Ávila. O BCIE é formado por Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, e tem como membros associados Argentina, Colômbia, Espanha, México e China. Através do Banco, os países centro-americanos financiam e coordenam tarefas de reconstrução diante de desastres naturais, comuns na região. O Mitch deixou mais de sete mil mortos em Honduras e três mil na Nicarágua. As perdas econômicas foram calculadas em US$ 4,788 bilhões. Segundo o embaixador hondurenho, o Katrina provocou uma "extraordinária mobilização da comunidade latina". Vários consulados trabalham juntos na identificação e ajuda às pessoas e coordenam trabalhos com organizações não-governamentais que apóiam os imigrantes, explicou.
Entretanto, a situação é muito complexa, pois muitos dos que vivem ilegalmente nos Estados Unidos evitam procurar os abrigos e solicitar ajuda, afirmou Carlos González, cônsul dos México na cidade texana de Houston, aonde chegaram centenas de evacuados. "O imigrante ilegal vive em um estado de terror, e alguns acreditam que serão pegos e repatriados", disse o funcionário. Dados do Escritório de Censo dos Estados Unidos indicam que a comunidade latino-americana no país é de 39,9 milhões de pessoas, a maioria mexicana, em uma população total de 290,8 milhões. Cerca de cinco milhões não têm residência legal. (IPS/Envolverde)

