Estados Unidos: O desastre começou antes do Katrina

Oakland, Estados Unidos, 09/09/2005 – Depois da desconcertada resposta do governo de George W. Bush às vítimas do furacão Katrina nos Estados Unidos, uma coisa fica clara: o chefe da Agência Federal para a Administração de Emergência (Fema), Michael Brown, não teve competência. O jornal Times-Picayune, de Nova Orleans, a cidade mais afetada pelo desastre, pediu sua destituição. A jornalista Maureen Dowd, do The New York Times o chamou de "idiota despreocupado encarregado da Fema". Segundo seus muitos críticos, o homem, cuja principal preocupação nos anos 90 foi a criação de cavalos árabes, precisa de qualificação e de preparação para responder a crise e proporcionar serviços de emergência às centenas de milhares de vítimas que deles necessitam.

Está claro que a principal razão de Brown ter entrado na Fema foi que seu antecessor no cargo era um velho companheiro de quarto na universidade, Joseph Allbaugh, principal colaborador de Bush quando este governava o Texas e chefe de sua campanha presidencial em 2000. Muito antes de o furacão Katrina golpear Nova Orleans e o Mississipi, Allbaugh havia se dedicado a reduzir os recursos e o alcance da Fema. Segundo versões jornalísticas, Allbaugh começou a reduzir o alcance dos programas de prevenção de desastres da agência tão logo assumiu sua direção. Em abril de 2001, três meses depois da posse de Bush, a Casa Branca anunciou seus planos de privatizar boa parte das tarefas da Fema.

"Muitos estão preocupados de que a ajuda federal diante de desastres possa evoluir de programas muito grandes para um manejo efetivo de riscos nos Estados e municípios", disse o hoje ex-funcionário no Congresso em 2001. "As expectativas sobre a participação do governo federal podem ter inflado além do apropriado", afirmou. Antes de deixar a Fema, em dezembro de 2002, para fundar a Allbaugh Company, empresa de assessoria em estratégia corporativa que participa de lucrativos contratos na reconstrução do Iraque, Allbaugh ajudou a enterrar a Fema dentro do Departamento de Segurança Interna.

Que melhor maneira de reduzir a importância da Fema que a de colocar à sua frente uma pessoa sem experiência alguma em assistência a vítimas de desastres? Talvez, destruir a capacidade de resposta da agência diante de desastres naturais não foi o que Allbaugh tinha em mente, mas sim reduzir as expectativas do público no manejo de uma crise da magnitude do furacão Katrina. Michael Brown foi o homem certo para continuar esse trabalho. Brown se converteu em subdiretor da Fema convocado por Allbaugh pouco depois de ser demitido de seu cargo de "kzar" da Associação Internacional de Cavalos Árabes (IAHA), organização de criadores e expositores radicada no Estado do Colorado.

Em primeira instância, Brown exerceu o cargo junto com o de conselheiro-geral da agência, e em janeiro de 2003 se converteu no primeiro subsecretário de Preparação e Resposta a Emergências do Departamento de Segurança Interna, depois da renúncia de Allbaugh. Na IAHA, Brown foi alvo de intensas críticas por sua conduta. O site conservador de notícias na Internet WorldNetDaily informou no último dia 5 que, na realidade, Brown havia sido demitido da organização. Um ex-presidente da IAHA, Bill Pennington, disse à imprensa que o hoje questionado funcionário "não seguia instruções. Era cabeça dura, fazia o que queria, e ponto final".

Na análise da má resposta da Fema diante da destruição provocada pelo Katrina, o assunto da privatização provavelmente seja o que tenha menos atenção, porque é um dos problemas principais. Por décadas, os centros de estudos conservadores promoveram a redução do tamanho do Estado e a privatização da maior quantidade possível de serviços governamentais. Pouco depois de assumir a presidência em janeiro de 2001, Bush anunciou a criação do Escritório de Iniciativas Comunitárias ou com Bases de Fé na Casa Branca, que destina dinheiro a organizações religiosas para que proporcionem serviços antes fornecidos pelo governo.

Grover Norquist, assessor externo de Bush em assuntos econômicos e chefe da campanha "Norte-americanos pela Reforma Tributária", afirmou que o ideal era reduzir o governo "ao tamanho que seja possível afogá-lo em um balde". Norquist disse no programa Clube 700, do polêmico tele-pastor Pat Robertson, que queria "reduzir o tamanho do governo à metade" do atual "nos próximos 25 anos". "Queremos reduzir o número de pessoas dependentes do governo para que haja mais autonomia e mais cidadãos livres", acrescentou. Mas a contratação de Brown não é a única razão pela qual a Fema não esteve preparada para enfrentar o desastre provocado pelo furacão Katrina. As privatizações também contaram.

Em junho do ano passado, a Fema assinou contrato de US$ 500 mil com a empresa Innovative Emergency Management (IEM), na Louisiana, que prometeu "liderar o desenvolvimento de um plano para enfrentar desastres causados por furacões no sudeste desse Estado e na cidade de Nova Orleans". "A equipe do IEM para a administração de catástrofes assume o desafio de integrar as necessidades e as capacidades em um plano efetivo para enfrentar os desastres causados por impactos de furacões", dizia a empresa em um comunicado. O texto foi retirado de seu site na Internet depois que o Katrina devastou boa parte de três Estados do sul do país, desde o dia 29 passado, e causou a morte de milhares de pessoas. (IPS/Envolverde)

(*) Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Publica periodicamente a coluna "Conservative Watch" na revista eletrônica WorkingForChange.org.

Bill Berkowitz

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