Teerã, 13/09/2005 – As famosas pradarias onduladas e as florestas encantadas do norte do Irã, perto do litoral do mar Cáspio, se transformam em história como resultado do processamento da madeira para fins comerciais e a degradação causada pelo turismo. "Uma vez estive encarregado de proteger estas florestas, e agora trago caçadores ilegais, contrabandistas de madeira e jovens acomodados da cidade para estas zonas para que acelerem a destruição", lamentou Ahmed Jebelli, de 60 anos, que ganha a vida conduzindo um táxi, após se aposentar da Organização para o Reflorestamento e Pastagens. Edifícios, condomínios e vilas, propriedades das novas elites de terra, dominam o panorama onde antes reinava a beleza natural à passagem do táxi de Jebelli, rumo às setentrionais províncias de Gilán, Mazandrain e Golestán.
Ao longe, ainda é possível apreciar o impoluto azul profundo do mar Cáspio e os densos bosques que ainda cobrem as ladeiras das montanhas de Alborz. Estas montanhas também abrigam exuberantes arrozais e plantações de cítricos que são um imã para os habitantes das cidades e turistas em geral. Entretanto, olhando mais de perto o mato denso, nutrido pelas neblinas úmidas que chegam desde o Cáspio, e o tapete de folhas caídas, pode-se encontrar uma variedade de garrafas de plástico jogadas fora, maços vazios de cigarros e lixo de todo tipo.
Em uma parada para tomar chá ao pé da suave colina Hasan Abad, Jebelli culpa pela constante depredação a explosão demográfica que ocorreu a partir da Revolução Islâmica de 1979, que derrubou o sha do Irã, Mohamed Reza Phalevi, e instalou uma República Islâmica. "A população duplicou nas últimas duas décadas, e a nova geração não se importou com os problemas ambientais. Esta é uma geração com pouca visão de futuro, que só pensa em fazer fila para conseguir leite subsidiado e alimentos básicos, e não se importam se as florestas são contaminadas com seu lixo", lamentou Jebelli. Naser Karami, um especialista em clima que trabalha como instrutor de ecoturismo, tem um ponto de vista mais profissional do que ocorre com as lendárias florestas do Irã.
"A falta de leis duras sobre o uso da terra é o que está fazendo diminuir a área debaixo das florestas e causando a desertificação constante da planície iraniana", disse à IPS. "As pessoas política e economicamente poderosas ou seus parentes próximos se acertam para obter as licenças para explorar os recursos florestais, particularmente a madeira, e o fazem como bem entendem", afirmou Karami. "Agora estão em jogo as florestas do Cáspio (antiga Hircania) que cobrem as montanhas de Alborz, as florestas centrais e as de Arasbar, nas ladeiras dos montes Zagros, e também as florestas costeiras do Golfo", explicou Karami. De fato, o mar Cáspio (o maior mar mediterrâneo do mundo), famoso por suas reservas de esturjões, está se transformando em um vasto depósito de lixo dos países ribeirinhos: Azerbaijão, Rússia, Kazaquistão e Turcomenistão. E a "febre do petróleo", em uma região ecologicamente tão sensível, só piora a situação.
Segundo imagens de satélite divulgadas pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, dos 18 milhões a 21 milhões de hectares de florestas que existiam no Irã no começo da Revolução Islâmica, hoje restam apenas cerca de 12 milhões, destacou Karami. "Guiando-se pelo padrão da FAO, as florestas "genuínas" no Irã agora cobrem apenas sete milhões de hectares (a maior parte no norte do país, que faz limite com o mar Cáspio)", disse o especialista. "Até dois anos atrás, cerca de dois milhões de metros cúbicos de madeira eram extraídos anualmente das florestas iranianas por empresas legalmente autorizadas, mas graças aos protestos de organizações não-governamentais e ambientalistas, a exploração caiu para menos de um milhão de metros cúbicos", acrescentou.
Enquanto o Departamento Florestal afirma que até 78% da contínua extração de madeira provêm de áreas reflorestadas, especialistas como Karami acreditam que o dano real causado às antigas florestas, destroçadas em anos recentes, é irreparável. "Na falta de avaliações independentes feitas por ONGs, por exemplo, quem pode comprovar os argumentos dos funcionários?", pergunta Karami. Antes da criação do atual Departamento Ambiental, várias autoridades estavam encarregadas da caça e pesca, bem como do reflorestamento e das pastagens, e faziam cumprir rigidamente as regras de conservação para salvaguardar a flora e a fauna do Irã.
Em contrapartida, os guardas mal-pagos do Departamento Ambiental não só são ignorados, como também correm risco de algum caçador com contatos os mate com um disparo e fique impune. Testemunho da cruel atitude do governo em relação ao meio ambiente são as pilhas de cartuchos vazios descartados pelo exército que saúdam os visitantes que passeiam pelo Parque Nacional de Kanvir, no centro do Irã. O exército usa a outrora protegida reserva para a prática de exercícios. Uma pesquisa feita pelo ambientalista iraniano Hoshang Zeaee revelou que mais da metade da fauna e da flora que alguma vez existiu na planície iraniana agora se extingue.
As espécies desaparecidas desde 1978, segundo a pesquisa, inclui a gazela Jebeer (Gazella dorcas fuscifrons), o asno selvagem da Pérsia (Equus hemionus), a ovelha vermelha de Alborz (Ovis ammon orientaliss), o guepardo asiático (Acinonyx jubatus), o cervo persa (Dama mesopotâmica) e a gazela persa (Gazela subgutturosa). "A tragédia de perder gradualmente nossas antigas posições de florestas de teixos (Taxus baccata, também chamados árvores de teixos ingleses) no norte e oeste do Irã, cujas origens datam de três milhões de anos, junto com fauna e a flora que sustentavam, é digna de um luto nacional", disse Karami. "Enquanto a maioria dos iranianos está preocupada com outras coisas, este país segue o caminho dos vizinhos Afeganistão e Paquistão, que alguma vez tiveram quantidade de pastagens verdes e florestas florescentes, mas agora estão em sua maioria cobertos por terra estéril e desertos", destacou Karami. (IPS/Envolverde)

