Nova York, 23/01/2005 – Ativistas dos Estados Unidos viajarão este mês ao Brasil para participarem do Fórum Social Mundial (FSM) decididos a desmentir a crença de que seu país se "republicanizou", em alusão ao Partido Republicano do presidente George W. Bush. Os ativistas também buscarão no fórum, que acontecerá entre os dias 26 e 31 em Porto Alegre, uma fonte de inspiração para sua luta contra a exploração das pessoas e dos recursos naturais. "Desde a reeleição de Bush, muitas pessoas de todo o mundo não querem saber de mais nada com os Estados Unidos", disse Timi Gerson, do Global Trade Watch (Observador do Comércio Mundial), uma divisão do grupo Public Citizen (cidadão Público), de Washington. As principais críticas dirigidas a Bush pelo movimento altermundista representado no FSM incluem sua guerra contra o Iraque e a retirada do Protocolo de Kyoto contra a mudança climática.
Esta será a quarta vez que Gerson participará do FSM, um espaço aberto para discussões e propostas de grupos da sociedade civil contrários ao neoliberalismo, criado em oposição ao Fórum Econômico Mundial, que anualmente reúne os maiores líderes empresariais e políticos na cidade suíça de Davos. "Parte de nossa tarefa será demonstrar que aqui existe resistência e o que mais quatro anos de governo Bush significam para nós", afirmou Gerson. "É importante sentir-se parte de um movimento internacional, em particular para muitos ativistas norte-americanos que agora se sentem isolados", acrescentou. No FSM o ativista se concentrará em estratégias contrárias a polêmicos acordos comerciais promovidos pelos Estados Unidos no continente americano, como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e o Tratado de Livre Comércio da América Central.
Os efeitos destes acordos "afetam todos os trabalhadores, não importando onde vivem, seja um trabalhador da indústria do aço demitido nos Estados Unidos ou agricultor mexicano", afirmou Gerson. Global Trade Watch tenta dar difusão ao FSM, mas "é difícil criar consciência aqui sobre algo que não seja a guerra ou as eleições", lamentou o ativista. Embora o Fórum não seja conhecido do público em geral nos Estados Unidos, sua ampla agenda chama a atenção de dezenas de grupos no país, entre eles sindicatos. Ativistas contra a dívida externa dos países pobres, ambientalistas e defensores do comércio justo também simpatizam com os objetivos do FSM.
Em sua primeira edição anual, em 2001, o Fórum teve 20 mil participantes. No ano passado, cerca de 74 mil ativistas de 117 países se reuniram no FSM, que aconteceu na cidade indiana de Mumbai. A Rede Internacional de Gênero e Comércio, que enviará 23 mulheres ao fórum (duas delas norte-americanas), incluíra em seu site na Internet um link com o FSM, explicou Kirstin Sampson, integrante da Rede. O Center of Concern, outra organização que integra a Rede, também divulgará em seu site um artigo de apresentação do Fórum que será lido em mais de 500 paróquias e escolas católicas dos Estados Unidos. "Para nós, o FSM é um espaço importante para os movimentos sociais: para ver nossa diversidade e encontrar formas de trabalharmos mais juntos em áreas estratégicas", afirmou Sampson.
O FSM acontecerá em um momento de união entre o Norte industrializado e o Sul em desenvolvimento num esforço para ajudar as vítimas do maremoto que em 26 de dezembro devastou as costas de uma dezena de países da Ásia e alguns da África oriental. O desastre criou a oportunidade para discutir questões que afetam o mundo em desenvolvimento, como o alívio da dívida. Temas como este podem ajudar a divulgar os objetivos do FSM nos Estados Unidos. "Em geral, mais norte-americanos agora pensam na cooperação internacional e nos pobres por causa do maremoto", comentou John Catalinotto, que viajará a Porto Alegre com uma delegação do Centro Internacional de Ação, uma das organizações que lideram a campanha para por fim à ocupação do Iraque. "Há muitos temas a serem tratados, como a necessidade de água doce para todos e a reforma agrária. Mas muitos dos grupos que participarão estarão especialmente interessados na oposição à guerra", explicou.
Assim como o Fórum Social Europeu de 2002 uniu 10 milhões de pessoas de todo o mundo em marchas contra a invasão do Iraque, Catalinotto espera que este FSM promova um outro dia internacional de ação por ocasião do segundo aniversário da guerra, no próximo daí 20 de março. "Nos encantaria que o FSM fosse mais conhecido nos Estados Unidos", mas este não é um dos objetivos do fórum, comentou Bem Lilliston, do Instituto de Agricultura e Políticas Comerciais, uma organização do Estado de Minnesota que integra o Conselho Internacional do FSM. Lilliston disse que os subsídios agrícolas e o conseqüente dumping representam um dos principais alvos do fórum, por ser "a prática mais prejudicial do comércio internacional", e atribuiu ás agroempresas norte-americanas a maior responsabilidade pela queda internacional dos preços de produtos agrícolas. "Isto requer uma solução global. O FSM nos ajudará a nos colocarmos todos no mesmo caminho", acrescentou. (IPS/Envolverde)

