Nova York, 21/02/2005 – Enquanto exige que Coréia do Norte e Irã renunciem à posse de armas atômicas, os Estados Unidos gastam US$ 40 bilhões por ano em seu arsenal nuclear e investem no desenvolvimento de uma nova geração de mortais artefatos. Estes esforços incluem, segundo informou este mês o jornal The Nova York Times, um orçamento relativamente modesto de US$ 9 milhões para pagar o salário dos engenheiros de três laboratórios de armas nucleares do país, em Los Alamos, Livermore e Sandia. A meta é produzir novos protótipos de ogivas nucleares e mísseis na próxima década.
Segundo a Fundação Legal dos Estados Ocidentais, organização dedicada ao desarmamento, os gastos em armas nucleares dos Estados Unidos aumentaram 84% desde 1995, até chegar aos US$ 40 bilhões. Com desse orçamento cuida-se da manutenção de aproximadamente 10 mil mísseis nucleares, dos quais dois mil estão em estado de alerta máximo. Alguns especialistas consideram que o Programa Confiável de Substituição de Ogivas, aprovado em novembro pelo Congresso, marca uma perturbadora evolução desde a política de "manejo de reservas" instaurada pelo ex-presidente Bill Clinton (1993-2001), pelo qual os laboratórios se concentravam em manter a segurança do arsenal existente.
Os Estados Unidos ratificaram em 1996 o Tratado para a Proibição Total de Testes Nucleares, que permite os testes simulados por computador e subterrâneos de pequeno poder. Nos últimos anos, as autoridades autorizaram 21 provas mil pés abaixo de superfícies desérticas. "O programa de manejo de reservas, hoje dotado de US$ 7 bilhões ao ano, levou ao desenvolvimento das bombas rompe-bunker e bombas nucleares menores", disse à IPS Alicia Slater, presidente do Centro de Ação sobre Recursos Globais para o Meio Ambiente.
"A lacuna no Tratado permitiu que estes programas avançassem, e foram a razão apresentada pela Índia para desenvolver e testar seu arsenal, logo seguida pelo Paquistão", recordou Slater. "Gastamos mais de US$ 3 bilhões em nosso arsenal nuclear. O desperdício de um tesouro intelectual e econômico tem sido enorme, e agora vemos o amargo fruto que deram esses programas: proliferação nuclear na Índia, no Paquistão, na Coréia do Norte e no Irã", acrescentou. China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia, até 1988 as únicas potências nucleares declaradas, assinaram em 1970 o Tratado de Não-Proliferação pelo qual se comprometeram a não usar esse tipo de arma contra países que não tentassem adquiri-las.
Esse tratado será revisado em maio na Organização das Nações Unidas, ocasião em que os prefeitos de Hiroxima e Nagasaki, cidades atingidas por bombas atômicas em 1945, aproveitarão para exigir o início imediato de negociações para eliminar completamente os arsenais. Em 2005 completa 60 anos dos bombardeios dos Estados Unidos contra essas cidades, que mataram cerca de 210 mil pessoas. Foi a única ocasião na história em que bombas atômicas foram empregadas em um contexto bélico. Mais de uma década depois do fim da Guerra Fria, Estados Unidos e Rússia mantêm, cada um, cerca de 10 mil armas nucleares táticas estratégicas, o que soma 95% do arsenal mundial atômico.
A China vem a seguir com 400 armas, de França 350, Israel 200, Grã-Bretanha 185, Índia com pelo menos 60 e Paquistão com até 48, segundo o Centro para a Informação de Defesa, com sede em Washington. A Agência Central de Inteligência (CIA) calculou que a Coréia do Norte possui duas armas nucleares a vários anos. Cerca de 480 mísseis com ogivas nucleares ainda se encontram em bases aéreas dos Estados Unidos na Europa, quase o dobro do que se acreditava haver, assegurou em seu último relatório o não-governamental Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. A maioria desses mísseis aponta para Rússia, Irã e Síria, de acordo com especialistas do Conselho, ainda que Moscou tenha retirado todas suas armas táticas dos países ex-comunistas depois do colapso da União Soviética em 1991.
Os Estados Unidos também retiraram milhares de armas nucleares táticas da Europa ocidental, mas, deixaram, pelo menos 480, conforme o último relatório do Conselho. Os Estados Unidos são o único país que mantém esse tipo de armamento fora de seu próprio território. Todos os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que têm em seu território mísseis nucleares norte-americanos votaram a favor de uma resolução da ONU que exige a "redução das armas nucleares não estratégicas". "Ninguém consegue dar uma boa explicação de como as armas na Europa contribuem para a dissuasão (do uso do arsenal nuclear) de uma maneira que não conseguem os sistemas de armas nucleares de longo alcance", disse o autor do relatório, Hans Kristensen.
"Na Otan circula um argumento institucional: que as armas contribuem com o vínculo entre Europa e Estados Unidos. Mas, realmente, é apenas um remanescente da Guerra Fria", afirmou Kristensen em uma entrevista. O relatório revela pela primeira vez quantas bombas nucleares Washington poderia fornecer a aliados da Otan que não possuem essas armas, na eventualidade de uma guerra: seriam 180, com destino à Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Turquia. Estes acordos, conhecidos por solicitações com base na norte-americana Lei de Liberdade de Informação, publicações militares, fotografias tiradas por satélites comerciais e outras fontes, violariam o Tratado de Não-Proliferação, pois este convênio proíbe uma potência nuclear facilitar essas armas a um país que não as possui.
Um porta-voz do Departamento de Estado disse á IPS que essas armas são mantidas na Europa de acordo com os princípios contidos no Conceito Estratégico da Otan. Os Estados Unidos continuam desenvolvendo minibombas e rompe-bunker, armas que, segundo o governo, são mais adequadas para conflitos de pequena escala ou contra terroristas, e causam menos danos em razão da potência das explosões ou pela radiação. (IPS/Envolverde)

