Mundo: Japão coloca Taiwan no centro do tabuleiro da Ásia

Pequim, 24/02/2005 – O novo choque entre China e Japão por causa de Taiwan depois de um ano marcado pela desconfiança mútua, é um mau augúrio para o clima político da Ásia oriental, segundo analistas. Foi o Japão, mais do que os Estados Unidos, o alvo da ira do dragão asiático pela medida sem precedentes de Tóquio e Washington de declarar "interesse comum de segurança" com relação a Taiwan, considerada por Pequim uma província rebelde. A inclusão, no final de semana, de Taiwan na lista de objetivos de segurança conjuntos entre Estados Unidos e Japão deteriorou as já tensas relações políticas entre Pequim e Tóquio.

"Arrastar o Japão ao desacordo entre Estados Unidos e China a respeito de Taiwan não é uma medida inteligente por parte de Washington", comentou o analista Xie Yong no jornal oficialista Beijing News. "Para os Estados Unidos, cerrar fileiras com o Japão em uma questão territorial tão sensível para a China como é Taiwan significa associar-se no imaginário dos chineses com a história invasora do Japão", acrescentou. Apesar das disputas esporádicas entre Pequim e Washington, suas relações política bilaterais estão livres da carga histórica de ódio e desconfiança que caracteriza os vínculos entre China e Japão. O Japão e a China moderna travaram duas guerras, e entre os chineses persiste um forte sentimento antijaponês.

Agora, pela primeira vez, Tóquio deixou de lado suas ambigüidades com relação a Taiwan e em uma reformulação da declaração conjunta de 1996 sobre segurança bilateral assegurou que trabalhará junto a Washington pela "resolução pacífica dos problemas relacionados com o estreito de Taiwan". Também se uniu aos Estados Unidos para "incentivar a China a melhorar a transparência de seus assuntos militares". A reação oficial de Pequim não demorou. A agência estatal de notícias Xinhua condenou Tóquio e Washington por "se intrometerem em assuntos internos chineses" e considerou que a nova declaração de segurança é "uma medida irresponsável que terá graves conseqüências".

A questão de Taiwan é um tema "de soberania nacional, integridade territorial e segurança nacional da China" que não diz respeito a outros países, declarou a chancelaria. O compromisso de Washington de defender Taiwan se a China atacar essa ilha deu lugar a audazes manifestações de Taipe a favor da independência formal. Taiwan se separou da China depois da vitória dos comunistas nesse país, em 1949, e atualmente é governada por autoridades eleitas democraticamente. Nos últimos anos, aumentou o apoio a uma identidade taiwanesa separada entre a população da ilha. Seu atual presidente, Chen Shui-bian, sugeriu que uma revisão da Constituição para refletir a nova realidade.

O inesperado apoio do Japão ao que Pequim chama de "movimento separatista" de Taiwan provocou duras críticas em meios oficiais. Um editorial publicado no Beijing News advertiu sobre "graves conseqüências" para toda Ásia-Pacífico se as "forças direitistas" do Japão "continuarem usando a aliança com Taiwan como meio de conter a China". A agência Xinhua disse que "a mudança de postura oficial do Japão sobre a questão de Taiwan, embora menor, apenas esfria ainda mais as relações sino-japonesas".

Em contraste com as florescentes relações econômicas entre China e Japão (no ano passado a China deslocou os Estados Unidos do posto de principal sócio econômico do Japão), a cooperação política entre os dois vizinhos sempre foi dúbia. As visitas anuais do primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, ao polêmico sepulcro de Uasukini, que homenageia soldados da Segunda Guerra Mundial entre os quais há criminosos de guerra, reavivaram as dolorosas recordações da ocupação japonesa na China. Além disso, em 2004, tanto China como Japão divulgaram informes nos quais identificaram um ao outro como possíveis ameaças militares. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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