Belgrado, 28/03/2005 – A Rússia nega, mas insistentes versões que circulam em Belgrado indicam que nesse país estão radicados sérvios suspeitos de crimes de guerra. A controvérsia se agravou com a entrega ao Tribunal Penal Internacional para Crimes na Antiga Iugoslávia, com sede na cidade holandesa de Haia, do ex-chefe de política dos sérvios na Bósnia-Herzegovina, Gijko Jankovic, acusado de atos de limpeza étnica contra bósnios muçulmanos entre 1992 e 1995. Meios de imprensa indicaram que Jankovic, em poder desde do último dia 13 do tribunal criado pela Organização das Nações Unidas, esteve por cinco anos na Rússia antes de se entregar, ao regressar a Banja Luka, capital da República Sprska, entidade sérvia autônoma na Bósnia-Herzegovina.
Sua esposa, Milica, disse à imprensa sérvia que o visitara em Moscou em dezembro. Jankovic lhe mostrou seu passaporte russo, em nome de Sergey Plutsadiev, afirmou. Também assegurou ter presenciado uma reunião entre seu marido e um homem que lhe mostrou uma identificação de agente do Serviço Federal de Segurança (FSB), órgão de segurança que sucedeu a temida KGB depois da dissolução da União Soviética. As autoridades da República Sprska negaram-se a comentar estes fatos, que desataram outro duro debates sobre o histórico e controvertido vínculo entre sérvios e russos.
Após o fim da guerra em 1995, a Bósnia-Herzegovina se compõe de duas entidades, a Federação Croata-Muçulmana e a República Sprska (ou República Servo-Bósnia), que ainda mantém estreitas relações com a vizinha Sérvia. A Rússia , través de sua embaixada na Bósnia-Herzegovina, assegurou que não deu abrigo a nenhum sérvio suspeito de crimes de guerra. "Todos os acusados de crimes de guerra devem ser levados á justiça. Os organismos oficiais russos nunca consideraram dar asilo ou cidadania aos acusados", diz o comunicado divulgado pela embaixada russa. Moscou colabora plenamente com o tribunal de Haia, acrescenta o texto.
O tribunal processa numerosas pessoas, entre elas o ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, por crimes cometidos nas guerras de secessão dos anos 90, em que morreram cerca de 200 mil pessoas, a maioria bósnio-muçulmanos. Sérvia e Rússia mantêm vínculos históricos. Ambas compartilham a origem eslava e a fé majoritária, conduzida pela Igreja Ortodoxa. Também tiveram regimes comunistas, a Rússia como União Soviética entre 1917 e 1991, e a Sérvia á frente da Federação Iugoslava, desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). No começo das guerras de secessão iugoslavas, em 1991, Milosevic descreveu a Rússia como o único país amigo da Sérvia, pois Belgrado fora isolada pela comunidade internacional mediante sanções políticas e econômicas.
Borislav Milosevic, irmão do ex-presidente da Sérvia e da Iugoslávia, vive em Moscou desde a década de 90, primeiro como embaixador sérvio e, depois, como empresário. Após a queda de Slobodan em 2000, seu filho Marko fugiu para a Rússia. Em 2003, uniu-se a ele sua mãe, a outrora poderosa Mira Markovic. Mas, a velha amizade entre os países é apenas uma parte do problema dos criminosos de guerra sérvios supostamente escondidos na Rússia. "As ligações privadas entre ex-agentes dos serviços de segurança são os canais através dos quais aqueles acusados pelo tribunal de Haia conseguem proteção", disse o general Aleksandar Vasiljevic, ex-chefe de inteligência do exército sérvio. "Para as autoridades russas o problema lhes é indiferente", acrescentou.
Outros especialistas vêem fatores adicionais, mais prosaicos. "Tudo é questão de dinheiro", disse à IPS o analista em segurança Aleksandar Radic. "No começo dos ano 90, agentes da antiga KGB passaram a se dedicar aos negócios e começaram a cooperar com empresários sérvios". Esses empresários, próximos ao regime de Milosevic, lucraram com as sanções internacionais, que lhes abriram todo tipo de oportunidades de negócios ilícitos, especialmente o contrabando, que satisfez a demanda de produtos estrangeiros submetidos a embargo. Um dos traficantes que mais se beneficiaram com esse tráfico foi Marko Milosevic. Depois da queda do regime, a Rússia foi um dos poucos lugares para onde esses empresários podiam levar seu capital. "As ligações que lhes restavam em Moscou propiciaram refúgio aos procurados pela lei", disse Radic.
Diplomatas russos em Belgrado admitiram a existência de vínculos pessoais entre ex-agentes da kgb e criminosos sérvios. "A KGB foi reformada em 1991, depois do fim da União Soviética. Muitos agentes ficaram sem trabalho e muitos se converteram em empresários", disse à imprensa sérvia a primeira-secretária da embaixada russa em Belgrado, Alona Kudrijatavtzeva. "É possível que alguns estivessem envolvidos em transações ilegais, mas não tenho informação sobre a possibilidade de essa gente ter mantido ligações com a comunidade de inteligência da Sérvia ou com a rede que pode ter protegido os fugitivos", acrescentou a diplomata.
O analista russo Alexander Pikayev, consultado pela imprensa sérvia, considerou "possível que alguns fugitivos da justiça tenham se refugiado na Rússia?, mas, afirmou que teriam apelado para contatos particulares, não com o Estado."Não teria permitido, definitivamente, a política do governo russo, que em 1993 aprovou no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas o estabelecimento do tribunal de Haia. Se desse abrigo a pessoas processadas em Haia, a Rússia colocaria sua imagem internacional em risco", afirmou. A entrega ao tribunal de todos os fugitivos de origem sérvia é uma das condições impostas pela União Européia a Belgrado para considerar sua entrada no bloco. A situação do país será analisada pela UE agora em abril.
Um dos fugitivos que, segundo rumores em Belgrado, estaria escondido na Rússia é Vlastimir Djordjevic, o ex-comandante da polícia sérvia na província de Kosovo em 1999. as autoridades sérvias da época qualificaram de "terrorismo" a rebelião de milícias da maioria albanesa de Kosovo. Em 2001, o tribunal de Haia acusou Djordjevic por desalojar cerca de 800 mil albano-kosovares e pela morte de aproximadamente 10 mil civis, no último ato de limpeza étnica atribuído ao regime de Milosevic. (IPS/Envolverde)

