Nova York, 16/03/2005 – Os desastres terríveis levam a grandes respostas. Isso nós vimos na efusão mundial de generosidade que se produziu depois do tsunami de dezembro passado. Mas para algumas pessoas, as muito pobres, que constituem um quinto da população mundial e vivem com um dólar ou menos por dia, os desastres são um acontecimento diário. Terremotos, deslizamentos de terra, inundações e incêndios atingem com mais força os mais pobres, que às vezes vivem literalmente à beira de um precipício. Isto não é manchete na imprensa porque não acontece todo de uma vez. Mas a realidade é que a pobreza mata. É um tsunami diário que provoca tanto quanto 18 milhões de mortes por ano. Dois terços destes mortos são mulheres e seus filhos.
Cada um dos mais pobres do mundo vive sob a ameaça da violência, especialmente quando se é mulher. Seu alimento é escasso e insuficiente, sua água para beber está contaminada, ela tem pouca instrução e carece de cuidados sanitários. Freqüentemente, é ela quem mantém a economia do lar mas, uns poucos dias enferma ou uma gravidez não desejada pode levar toda sua família à beira da indigência total. A resposta mais óbvia é encontrar caminhos para por fim à pobreza extrema. Isto parece ambicioso, mas deve ser possível: libertação da violência, água pura, alimento adequado, instrução e cuidados com a saúde, por exemplo, não são outra coisa que direitos humanos básicos.
Inclusive poderia ser mais fácil do que parece: em 2000, os líderes mundiais estabeleceram seis ações para reduzir à metade a pobreza extrema até 2015. Todas estas Metas de Desenvolvimento no Milênio (MDM) se referem às mulheres, três delas diretamente. Algumas exortam no sentido de uma ação de longo alcance em matéria de reformas institucionais. Outras consistem em ajudar as mulheres a escaparem da pobreza dando-lhes ferramentas para elas mesmas se libertarem. No Vietnã, Nguyen Thi Luyen uniu-se a um grupo de microcréditos para mulheres há dois anos, fez um pequeno empréstimo para iniciar a criação de porcos e desde então a renda de sua família aumentou constantemente. "Estamos saindo da pobreza por nossos próprios meios", disse a líder do grupo, Dinh Thi Nga.
Uma pequena quantidade de ajuda (no caso de Luyen, por parte da União de Mulheres do Vietnã e do Fundo das Nações Unidas para a População) pode levar uma mulher e sua família a iniciar adequadamente o longo caminho para sair da pobreza. Para isso, é necessário mais do que dinheiro. Nga disse: "Uma razão de nosso sucesso é que combinamos a capacitação econômica da mulher com o cuidado da saúde reprodutiva e o planejamento familiar. As mulheres necessitam das duas coisas". A gravidez mata mais de meio milhão de mulheres a cada ano. As taxas de mortalidade de mulheres grávidas são muito maiores nos países mais pobres. Em Malawi, por exemplo, o risco de morte por gravidez atinge uma em cada sete mulheres, enquanto nos Estados Unidos é inferior a uma em cada 2.500.
O acesso universal ao planejamento familiar permitiria evitar uma gravidez não desejada e salvar muitas vidas, ao reduzir a mortalidade materna entre 20% e 25%. Isso serviria para encaminhar-se ao cumprimento da meta de uma redução de 75% até 2015. Com um melhor cuidado geral da saúde e um serviço obstétrico de emergência seria possível alcançar essa meta. As próprias mulheres pobres dizem que o que mais temem é a doença. Depois da gravidez, a maior ameaça para a saúde é o HIV/aids. Não existe no horizonte hoje cura para essa enfermidade: o tratamento pode ajudar, mas a prevenção é a chave para acabar com essa pandemia.
Uma pesquisa feita na Índia mostrou que 90% das mulheres infectadas não tinham outro companheiro além de seu próprio marido. Que um homem possa exigir sexo de sua mulher e que ela deva ceder, embora tema ser infectada, demonstra o quanto se está longe de alcançar outra das MDM, a igualdade entre homens e mulheres. Outra MDM pretende assegurar uma instrução primária universal e acesso igual à escola para meninos e meninas. Quanto mais instrução uma mulher tiver, será menos provável que seja pobre. Como o cuidado com a saúde, a instrução pública exige um esforço nacional de grande alcance, mas os projetos locais, como o mencionado do Vietnã, que freqüentemente incluem alfabetização e bom manejo da aritmética, também são de grande utilidade para se alcançar aquela meta.
Para as mulheres do mundo, a vida não deveria ser uma luta constante contra os desastres. É possível ajudá-las a se salvarem do tsunami diário. (IPS/Envolverde)
(*)Thoraya Ahmed Obaid, subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

