ONU: Países pobres não querem diretor da OMC na secretaria da Unctad

Nova York, 17/03/2005 – Países em desenvolvimento consideraram "apressada" e "sem consulta" a postulação do tailandês Supachai Panitchpakdi para dirigir a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Supachai, atual diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), assumiria a secretaria-geral da Unctad em setembro próximo. "Annan se apressou em demasia em designar alguém com seis meses de antecipação. Isto é algo incomum", disse á IPS um diplomata do sudeste da Ásia. "Não questionamos as credenciais do candidato, mas a falta de consulta e discussão. Fomos privados dessa cortesia tradicional", acrescentou.

A candidatura de Supachai deveria ser aprovada na semana passada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, de 191 membros. Mas o Grupo dos 77 (G-77) países em desenvolvimento, o maior bloco de países dentro da ONU, com 132 integrantes, pediu à Assembléia Geral que adiasse a votação por 30 dias. Como resultado, a votação foi proposta, e possivelmente ocorra, para o início do próximo mês. Nunca um candidato apresentado pelo secretário-geral para algum alto cargo da organização foi rejeitado pela Assembléia. Esta é a primeira vez nos 60 anos de história da ONU que a Assembléia Geral pede tempo para votar um candidato recomendado pelo secretário-geral.

Sttaford Neil, embaixador da Jamaica e presidente do G-77, disse à IPS que seu grupo quer "mais tempo para refletir, porque a Unctad é muito importante para o G-77". Este grupo foi criado logo depois da criação da Unctad, em 1964, e desde então trabalha em estreita colaboração com esse organismo. Ambos celebraram seu 40º aniversário em junho passado, em uma reunião realizada em São Paulo. Embora Supachai sejam um cidadão da Tailândia, o governo desse país se distanciou de sua candidatura. "Não é um candidato do governo tailandês", disse á IPS a embaixadora tailandesa, Laxanachantorn Laohaphan. Vários candidatos asiáticos aspiravam o cargo e a Tailândia deseja deixar claro que não patrocina a candidatura de Supachai, enfatizou.

Entre os pretendentes ao máximo posto da Unctad figuravam cidadãos do Camboja, Filipinas, Paquistão e Bangladesh. Todos eles foram tomados por surpresa pelo anúncio de Annan. Segundo fontes diplomáticas da ONU, o governo tailandês tomou distância da candidatura de Supachai por acreditar que sua designação à frente da Unctad reduzirá as possibilidades de um cargo maior que tem em mente: a secretaria-geral das Nações Unidas. O candidato oficial da Tailândia para esse posto é o ex-chanceler Surakiat Sathirathai, que chegou a vice-primeiro-ministro em uma reforma do gabinete, na semana passada. A candidatura de Surakiat recebeu o apoio de 10 países que integram a Associação de Nações do Sudeste Asiático: Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Indonesia, Brunei, Birmânia, Camboja e Laos.

Se a Assembléia Geral finalmente confirmar Supachai, será muito difícil que outro cidadão tailandês assuma o mais alto posto dentro da ONU. Como a ásia não tem um secretário-geral por quase 34 ano, desde que o birmanês U Thant ocupou o cargo, os países asiáticos fazem campanha para colocar um candidato da região para substituir Annan, que em dezembro de 2006 encerra seu mandato de cinco anos. o outro candidato oficial da Ásia para a secretaria-geral é Jayantha Dhanapala, do Sri Lanka, ex-subsecretário-geral da ONU para assuntos de desarmamento. A apressada indicação de Supachai foi feita pouco depois de Annan ter exortado à transparência em todas as designações para altos cargos da organização.

De acordo com essa nova política, Annan pediu aos países-membros que apresentassem candidatos para os quatro postos de hierarquia que estão, ou ficarão, vagos no curto prazo. Trata-se dos máximos cargos do Pograma das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Alto Comissariado para os Refugiados, o Escritório de Supervisão Interna e a Agência de Socorros e trabalhos para os Refugiados Palestinos. Fred Eckhard, porta-voz da ONU, disse na segunda-feria aos jornalistas que, pela primeira vez, Annan divulgará uma pré-seleção de candidatos a esses cargos, "para receber a maior quantidade possível de reações, inclusive de organizações não-governamentais". Perguntado porque não se aplicou esse mesmo procediemnto na escolha de Supachai, um alto funcionário das Nações Unidas disse à IPS que "essa indicação foi feita antes que as novas pautas de transparência entraram em vigor". (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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