Nações Unidas, 14/03/2005 – Elas não estão interessadas em comprar nem usar o produto, mas estão condenadas a pagar um alto preço por ele, denunciaram ativistas sobre as mulheres que sofrem as conseqüências do multimilionário tráfico ilegal de armas leves. Em todo o mundo, mulheres e meninas sofrem violência indiscriminada, destaca um novo relatório preparado conjuntamente pelas organizações Anistia Internacional, Rede Internacional de Ação sobre Armas Pequenas (Iansã) e Oxfam Internacional. Atualmente, circulam pelo mundo 650 milhões de armas, em sua grande maioria propriedade de homens, diz o documento, intitulado "Os efeitos das armas na vida das mulheres".
"São inumeráveis as mulheres e meninas de todo o mundo que resultam feridas ou mortas por causa dos disparos. Milhões mais vivem sob o temor da violência armada", diz a Anistia Internacional, que tem sede em Londres, em seu site na Internet. Seus pesquisadores identificaram mais de 11 empresas que fabricam armas pequenas e munições para, pelo menos, 98 países, e acreditam que estes números tendem a aumentar. Embora não existam cifras sólidas sobre a venda ilegal de armas leves, sabe-se que as vendas ilegais chegam a US$ 21 bilhões ao ano. Essas armas incluem pistolas, revólveres, rifles e metralhadoras portáteis.
"A violência com armas ocorre em todo o mundo. Não somente nos países em desenvolvimento; também em países industrializados", disse Saira Rees-Roberts, da Anistia Internacional. Rees-Roberts negou que as armas sejam necessárias para a proteção pessoal, e citou um dado incluído no relatório de que, nos Estados Unidos, ter uma arma em casa aumenta em 41% o risco de um membro da família ser morto. Enquanto isso, na África do Sul, uma mulher morre por disparos de seu companheiro, ou ex-companheiro, a cada 18 horas. A proliferação de armas continua porque alguns governos são reféns dos interesses econômicos dos fabricantes, enquanto outros se mostram reticentes em tomar medidas de controle de armas por razões políticas.
Por exemplo, "o governo norte-americano está sob pressão da Associação Nacional do Rifle", comentou Rebecca Peters, da Iansã. "E outros governos não detêm a proliferação de armas por motivos políticos", acrescentou. Entretanto, como resultado da campanha dos ativistas, alguns países adotaram várias medidas para promover o controle de armas, com efeitos positivos. "Entre 1995, ano em que o Canadá restringiu suas leis sobre armas de foto, e 2003, o índice de homicídios de mulheres por armas de fogo caiu 40%", diz o relatório."Na Austrália, cinco anos depois que em 1996 foram revistas as leis sobre armas de foto, o índice de homicídios de mulheres por armas de fogo havia sido reduzido à metade?, acrescenta o documento. Mas, as mulheres não sofrem somente pelo uso direto de armas contra elas.
"É a mulher que sofre quando o marido ou filho morre", e, muitas vezes, deve assumir a responsabilidade econômica de toda a família, disse Peters. O documento faz uma série de recomendações, entre elas obrigar qualquer pessoa que queira possuir uma arma de fogo dispor de uma licença, utilizando critérios rígidos que excluam de sua concessão pessoas com antecedentes de violência dentro da família. Além disso, recomenda "proibir a violência contra as mulheres na legislação nacional tipificando-a como um delito penal, introduzindo penas efetivas para os autores e remédios para as sobreviventes, e, ainda, garantindo que estas leis sejam plenamente aplicadas". Outra recomendação é "o estabelecimento de um Tratado sobre o Comércio de Armas que proíba as exportações de armas para quem possa utilizá-las para cometer atos violentos contra mulheres e outras violações dos direitos humanos". (IPS/Envolverde)

