Economia: Banco Mundial acusado de maquiagem contábil

Washington, 16/03/2005 – Um comitê do Congresso norte-americano pretende investigar acusações de irregularidades contábeis no Banco Mundial, a principal agência de ajuda ao desenvolvimento do planeta. O presidente do Comitê Conjunto Econômico, Jim Saxton, informou que as denúncias de ex-funcionários da instituição, que garantiram ser alvo de represálias, "são completamente sérias. As irregularidades nas contas do Banco são problemáticas por si mesmas, mas, também estou preocupado pelo modo como os gerentes teriam manejado esses assuntos. Investigaremos os fatos e determinaremos a validade das acusações", acrescentou.

Segundo os ex-empregados do Banco Mundial, os erros no sistema contábil somaram dezenas de milhões de dólares, que foram compensados nos livros mediante ajustes específicos. A instituição entregou no ano passado mais de US$ 20 bilhões em empréstimos e doações. Os informantes indicaram que os documentos comprovando as irregularidades foram enviados à direção do Banco, inclusive ao seu presidente, James wolfensohn. Alguns destes documentos se referiam a grandes subestimações na amortização de bônus de gastos emitidos pelo próprio Banco mundial.

Embora o problema seja conhecido, ao que parece, há vários anos, quando foi revelado por um contador da instituição, os gerentes tentaram apresentá-lo como um assunto novo. O denunciante teria sofrido represálias, segundo os informantes. David Theis, porta-voz do Banco Mundial, afirmou que as acusações não têm fundamento. "Os controles contábeis são de última geração. Investigamos a acusação deste ex-empregado e concluímos que são completamente falsas", afirmou. "Teremos prazer em entregar ao Comitê (do Congresso norte-americano) qualquer formação que precise para sua revisão e seremos tão abertos e cooperativos quanto pudermos", acrescentou Theis.

Fontes do Congresso disseram à IPS que outras acusações não foram publicamente mencionadas, mas se recusaram a se referir a elas até contarem com uma verificação mais apurada. "O que nos disseram os ex-funcionários certamente causa muitas dúvidas", disse o diretor-executivo do Comitê, Christopher Frenze. Nesta etapa da pesquisa, o Congresso vai procurar ter acesso a mais documentos. "Veremos quais estão disponíveis e então veremos se precisaremos mais. No momento adequado falaremos com o Banco Mundial", acrescentou Frenze.

Saxton, republicano do Estado de Nova Jersey, é há muito tempo um grande crítico do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Seu comitê controla a política econômica norte-americana e examinou as operações financeiras das duas instituições. O Banco Mundial e o FMI são dois dos mais poderosos arquitetos da economia mundial, e estão dominados pelas nações mais ricas do mundo. Os Estados Unidos, a maior economia mundial, desempenha, naturalmente, um papel-chave no funcionamento de ambas, pois é o principal acionista em quase todas as instituições financeiras multilaterais. Segundo o Escritório de Orçamento do Congresso, a participação de Washington no pacote acionário do Banco fica entre 14% e 22%, e no FMI entre 17% e 22%.

Em 2003, o FMI emprestou US$ 40 bilhões. "Como existe uma potencial exposição dos contribuintes (norte-americanos) a respeito destas instituições, certamente é legítimo o Congresso, que tem responsabilidade na salvaguarda do dinheiro dos contribuintes, examinar esses assuntos", disse Frence. O Projeto de Responsabilidade Governamental (GAP), um grupo de advogados de interesses públicos dedicado a proteger os que denunciam irregularidades e promover a responsabilidade estatal e corporativa, disse que três funcionários do Banco Mundial fizeram acusações. Uma funcionária se queixou de maus-tratos depois de denunciar suposta corrupção e fraude em um projeto do Banco na África oriental. Os mecanismos internos foram inúteis em seu caso, assegurou.

O GAP garantiu que o Banco lhe deu um novo cargo sem nenhuma tarefa, nem mesmo uma sala. O grupo de advogados acusou a instituição, na semana passada, de incentivar "uma cultura de corrupção. Os gerentes rechaçam continuamente qualquer crítica e adotaram duras represálias contra os informantes, arruinando numerosas carreiras com essa atitude", disse o GAP em declaração divulgada na semana passada. As últimas denúncias foram feitas em um período crucial para o Banco. A designação do sucessor de Wolfensohn está prevista para as próximas semanas. As testemunhas atribuíram o grosso das responsabilidades ao Departamento de Integridade Institucional do Banco Mundial, órgão criado especificamente para investigar casos de fraude e corrupção. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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