Mulher: Corrupção ampara a escravidão sexual na Europa

Paris, 09/03/2005 – Anualmente, centenas de milhares de mulheres jovens do norte da África, dos Bálcãs e da Europa oriental acabam como escravas sexuais na União Européia, um problema alimentado pela corrupção e falta de políticas unificadas do bloco. Estas vítimas são despojadas de todos seus direitos pelos traficantes de pessoas, que as levam para a UE com promessas de trabalho, mas, depois, as obrigam, em muitos casos sob ameaça de morte, a oferecerem seus corpos nos prostíbulos ou na pornografia. Para elas, o Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta terça-feira, perdeu o significado.

"A maioria das instituições multilaterais e organizações não-governamentais que lutam contra a exploração sexual concordam que as vítimas das redes de tráfico de pessoas na UE são entre200 mil e 500 mil a cada ano", explicou à IPS Matiada Ngalikpima, advogada francesa especializada nesse assunto. A maior parte das vítimas é de mulheres jovens, mas, também há meninos e meninas explorados sexualmente e obrigados a traficar drogas. "Sobretudo se procedem do sul, do Magreb, da costa européia no Mediterrâneo, dos Bálcãs, da Grécia, Itália e da Europa oriental através da Alemanha", acrescentou.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) calcula que entre 10% e 30% das vítimas de escravidão sexual procedentes da Europa oriental são meninas e meninos. A Organização das Nações Unidas faz uma distinção entre tráfico de pessoas e tráfico de imigrantes. "O tráfico de imigrantes, freqüentemente feito em condições perigosas e degradantes, envolve pessoas que concordam em serem levadas pelos traficantes. Já no tráfico de pessoas, embora a princípio as vítimas tenham dado seu consentimento, este sempre é obtido pó meio do engano e da coerção", explica um estudo elaborado pela ONU. Outra importante diferença é que o tráfico de migrantes termina com a chegada destes ao seu destino, enquanto o tráfico de pessoas implica uma exploração contínua das vítimas.

A polícia da UE, a Europol, estima que o tráfico de pessoas no bloco gere milhares de milhões de dólares para os traficantes. É o problema de direitos humanos que mais requer uma solução urgente dentro da União Européia, afirma Ngalikpima em seu livro "L´esclavage sexuel: um defi à l´Éurope (A escravidão sexual: um desafio para a Europa), que será publicado este mês. "O desafio da UE é harmonizar o quanto antes suas diversas legislações nacionais e colocar em prática as convenções da ONU sobre tráfico de pessoas, além de encarar o problema de uma perspectiva geral, e não parcial, como vem ocorrendo", afirmou a autora. Ngalikpima destacou que o tráfico de pessoas também prospera graças à corrupção.

Em 2001, o embaixador francês na Bulgária, Dominique Chassard, foi sumariamente removido após ficar comprovado que prostitutas búlgaras em Estrasbrugo e outras cidades do nordeste da França haviam obtido vistos de trabalho. A investigação revelou que funcionários da embaixada francesa em Sofia, coniventes com agências de viagens, emitiram ilegalmente os vistos para os traficantes. A Alemanha realiza uma investigação semelhante sobre um grande número de vistos emitidos na Ucrânia. A União Demcrata-Cristã, de oposição, acusou o ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer, de "ser cúmplice dos traficantes".

Ngalikpima afirma que estes casos demonstram o fracasso das políticas de controle européias. "Por um lado, os governos europeus endurecem suas leis contra a imigração ilegal, um problema menor comparado com o tráfico de pessoas. E, por outro, a burocracia concede vistos permitindo a escravidão sexual", afirmou. a especialistas sustenta que, além de harmonizar suas leis e aplicar os protocolos da ONU, os governos da União Européia deveriam oferecer uma completa proteção legal e programas de reabilitação às vítimas. A luta contra a escravidão sexual e o tráfico de pessoas deve seguir os padrões usados contra outras formas de crime organizado, com o bloqueio das transferências de dinheiro e o congelamento de contas bancárias suspeitas. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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