Rússia: A aids avança a passos firmes

Moscou, 16/03/2005 – A população portadora do vírus da aids na Rússia aumentou 10% no último ano e os mais afetados atualmente são jovens entre os 18 e 29 anos de idade, segundo especialistas. Quatro milhões de usuários de drogas injetáveis estão em perigo, se é que já não contraíram o vírus da aids (HIV), de acordo com especialistas de diversas organizações. A quantidade de portadores de HIV aumentou de 270 mil, no início de 2004, para 300 mil, informou à IPS Natalya Ladnaya, pesquisadora do Centro Federal de Aids. O ritmo de contágio entre os jovens de 18 a 20 anos é alarmante, ressaltou.

"O avanço da epidemia de aids na Rússia é um dos mais rápidos do mundo", disse Ladnaya. O vírus foi inicialmente transmitido entre os consumidores de drogas injetáveis, mas, agora, aumenta a incidência por contágio sexual. Mais de 40% dos casos de HIV constatados no último ano corresponderam a mulheres jovens que o contraíram dessa maneira, disse a especialista. "Os jovens sexualmente ativos de mais de 20 anos são os que mais se arriscam. Isso coloca a Rússia diante da ameaça de uma catástrofe demográfica com muito um perigoso potencial econômico", acrescentou.

A rápida disseminação do HIV representa um sobrepeso significativo para o já complicado sistema de saúde da Rússia, disse Vadim Pokrovsky, diretor do Centro Federal da Aids, organização independente parcialmente financiada pelo Estado. A esperança de vida dos homens russos é de 60 anos, em média, muito menor do que a do resto da Europa. A redução da população torna cada vez mais urgente a necessidade de por um freio na aids. Pokrovsky afirmou que os números oficiais se referem apenas aos casos registrados pelas autoridades. Algumas estimativas independentes indicam que 1% da população russa, isto é, entre 1 e 1,5 milhão de pessoas, está infectado.

"O mais provável e que epidemia avance do mesmo modo que na África, onde a principal fonte de contágio é o sexo", acrescentou o especialista. "Necessitamos influir e educar as pessoas para que se cuidem. Mas, se até 2010 os russos continuarem se contagiando com o HVI no mesmo ritmo que agora, será porque não houve vontade para mudar o comportamento social", ressaltou Pkorvsky. Alguns especialistas sugerem que os números reais podem ser 10 vezes maiores do que os oficiais, porque muitos ainda não sabem que estão infectados. "A Duma (câmara baixa do parlamento russo) está preocupada em encontrar algum tipo de entendimento sobre a seriedade da epidemia e suas possíveis conseqüências a longo prazo", disse á IPS a legisladora Tatyana Yakovleva.

Funcionários do governo calculam que cerca de quatro milhões de pessoas sejam usuários habituais de drogas injetáveis, a maioria jovens. A epidemia na Rússia atingiu dimensões perigosas, advertiu John Tedstrom, da não-governamental Aliança Transatlântica contra a Aids. Existem sinais de um aumento nas infecções entre jovens heterossexuais por via sexual, afirmou. Segundo sua organização, cerca de 1,5 milhão de russos já contraíram o HIV. O governo não reconhece publicamente os desafios nem adotou uma resposta estratégica adequada, segundo o especialista. Dadas as implicações de segurança, econômicas e humanas do HIV na Rússia, a negação não é uma opção viável, advertiu.

"É hora de o governo russo enfrentar o desafio da aids com um compromisso sério para melhorar a vida dos já infectados e impedir uma propagação maior da doença", enfatizou Tedstrom. Segundo uma pesquisa recente, mais da metade da população de Moscou conta com informação inadequada sobre a transmissão do vírus HIV, e que 45% dos habitantes da capital apoiariam programas de isolamento dos portadores do restante da sociedade. As campanhas públicas referentes á aids parecem ter se diluído. Os avisos que promovem o uso de camisinhas nos meios de comunicação desapareceram, inclusive dos cartazes de rua.

"Se a Rússia realmente deseja combater a enfermidade, deve combater essa luta em um projeto de longo prazo", disse Tedstrom. "A prioridade para o país é aumentar ou realocar recursos para lutar contra a doença", acrescentou Yakovleva. Esse esforço deve incluir um ataque coordenado contra o estigma que sofrem os portadores, que os impede de receber tratamento, afirmou. A aids não será derrotada perseguindo os mais vulneráveis à infecção, como viciados em droga, prostitutas e homossexuais, segundo Yakovleva. "É necessária uma escalada maciça de esforços de prevenção em todos os níveis da sociedade, mas isso deve ser concentrado em divulgar informação entre os jovens e facilitar-lhes serviços, para reduzir a alta vulnerabilidade desse setor", explicou. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *