Colômbia: População indígena entre fogo cruzado

Natalá, Colômbia, 28/04/2005 – O medo é rei nesta localidade rural do sudoeste da Colômbia, em cujo posto de saúde se refugiam há uma semana centenas de indígenas Nasa da reserva São Francisco, do município de Toribío, no departamento do Cauca. No alto de um monte, sobre uma explanada que domina uma ampla paisagem da cordilheira dos Andes, se levanta o centro de atenção de Natalá, designado pelas autoridades nasa como lugar de "assembléia permanente", nome com que os indígenas chamam seus campos de refugiados. Desde as ladeiras desse monte combatentes das esquerdistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), na segunda-feira disparavam contra o monte que fica à frente, de onde soldados do exército respondiam aos tiros. Os combates se prolongaram sem trégua por toda a tarde e noite adentro.

Enquanto isso, o albergue, de apenas dois banheiros, havia ficado pequeno já no domingo pela presença de 500 pessoas, entre elas 150 crianças, mas desde a segunda-feira entrou em total estado de emergência com o prosseguimento dos combates e, com isso, o aumento do número de refugiados, segundo esta correspondente pôde constatar pessoalmente. Milciades Musicué, governador da reserva indígena de São Francisco, nesse dia havia dito à IPS que "alguns dormem dentro, outros fora e, embora tenham chegado colchonetes e cobertas, não são suficientes". Nos últimos dias, os indígenas chegavam para passar a noite. "As pessoas vêm à tarde porque em meio à confusão e o medo, estar aqui acompanhados nos dá coragem e poder", acrescentou o governador.

A cozinha improvisada em um canto do edifício, ofereceu com almoço no domingo uma sopa de batata com macarrão, sem uma única proteína. O lugar esteve cercado de altos mastros com bandeiras brancas feitas de roupa de cama, plástico e até uma calcinha branca. "Aqui não está toda a comunidade. Natalá tem 1.200 pessoas, entre crianças e adultos", disse o governador. No total, Musicué é responsável por 6.500 pessoas. A noite do sábado para domingo "passamos muito assustados porque às cinco da tarde o Exército disparou para cá, e inclusive uma bala atingiu diretamente o posto de saúde", contou.

Por outro lado, a situação esteve mais calma no domingo, embora na segunda voltasse o barulho das armas obrigando uma parte da comunidade a se refugiar em outros lugares de assembléia, pois em natalá já não cabia mais ninguém. Mas, então, uma criança ficou doente de hepatite A, e o pessoal do serviço de saúde do povoado nasa, serviço esse reconhecido pelo Estado, se via em dificuldades para manter o isolamento do garoto na situação reinante. Na segunda-feira estourou a varicela. A guerrilha esteve entrincheirada na parte baixa das ladeiras desse monte, de onde domina um trecho da estrada que leva a Toribío, por isso o exército não pôde passar com seus tanques vindos do povoado de Tierrero, a 20 quilômetros da sede municipal, e na montanha que ficam em frente de Natalá.

Nesse mesmo lugar permaneceram durante cinco dias, ao contrário do indicado pelas declarações oficiais que davam conta de que os blindados avançavam "lentamente" em direção a Toribío. Foram retirados no domingo por volta das duas e meia da tarde. Os tanques eram esperados na quarta-feira anterior em Toribío. Esta localidade de três mil habitantes e cercada de resguardos do povo Nasa, foi tomada de assalto nos dias 14 e 16 deste mês pelas Farc, a maior organização guerrilheira da Colômbia e que está em luta há mais de 40 anos. O ponto onde os blindados estavam estacionados, em meio a uma fileira de casas que leva o nome de Tierrero, foi fustigado no sábado pela guerrilha a cada 10 minutos, com cilindros de gás cheios de metralha e dinamite, que os insurgentes utilizam como artilharia.

Apesar dos perigos, os militares paravam todos os motoristas, faziam perguntas e revistas. Assim aconteceu com o veículo todo-terreno em que viajavam esta correspondente e Nicole Karsin, jornalista independente a serviço do jornal norte-americano San Francisco Chronicle, escoltados por cinco guardas indígenas, a vigilância civil do povoado nasa armada apenas de bastões. Também foi detida e abordada uma ambulância que transportava uma dezena de voluntários médicos e paramédicos da Fundação Salamandra, que foram em ajuda dos indígenas, e com um ônibus de linha lotado de civis e encomendas para os locais de assembléia permanente.

Karsin foi proibido por um militar de tirar fotos no local sob ameaça de ficar sem o "rolo" de sua câmera digital. No momento em que Kasin reclamava junto ao oficial pela obstrução do trabalho jornalístico, explodiu um cilindro com explosivos contra o barranco poucos metros abaixo da barreira do exército e dos tanques, o que causou pânico entre os civis. Os cilindros, capazes de destruir um blindado e que em Tierrero serviram para deter o avanço do exército até Toribío, foram usados também pelas Farc no ataque à população. O saldo material desse assalto urbano, além do dano causado por essa arma altamente imprecisa para atingir o alvo, foi de 18 casas totalmente destruídas e outras 206 avariadas, que depois tiveram de ser demolidas.

Tanto o governo colombiano de Álvaro Uribe quanto as Farc anunciaram que não darão o braço a torcer na batalha neste território indígena, que nesta quinta-feira completa duas semanas de intensos combates. "Isto vai para a área rural, e creio que continuará assim ainda por 15 dias ou um mês", segundo Arquimedes Vitonás, o indígena nasa prefeito do município assediado. Vitonás se preocupa que "as pessoas vivem do jornal diário e toda esta semana não pôde trabalhar. Hoje (um sábado) não teve com que fazer compras no mercado. O café começa a cair, porque é tempo de colheita", acrescentou. Com mais um mês de combates, ele acredita que os 30 mil habitantes do município sofrerão uma severa crise econômica.

Com sua política de "segurança democrática", principal bandeira eleitoral, o direitista presidente Uribe espera levar a presença da força de segurança do Estado a todo o país, ao mesmo tempo em que nega existir uma guerra civil. Para Uribe, o conflito armado interno é uma "ameaça terrorista". Assim, enviou para Toribío no final de 2003 um grupo de policiais, que este Mês foi alvo do ataque guerrilheiro que se prolonga. Outros 15 postos de polícia foram instalados em outros tantos povoados da região. O governo destinou totais esforços para combater o que considera a retaguarda das Farc, no sul do país, através do chamado Plano Patriota, financiado pelos Estados Unidos e assessorado por militares desse país.

O analista em questões de segurança Alfredo Rangel disse à IPS que o governo destinou 20% de sua força militar efetiva para o Plano Patriota, somente na Amazônia, e deixou uma precária disponibilidade de tropas em regiões com Cauca, onde, além de tudo, a guerrilha estaria se fortalecendo "aceleradamente". Rangel disse que na mesma noite do ataque a Toribío a guerrilha fustigou simultaneamente quatro povoados do vizinho departamento de Nariño, limítrofe com o Equador, e outro povoado no Cauca. Para ele, a batalha de Toribío, que já se estendeu a outros municípios da região indígena, "é o mais importante enfrentamento militar entre as Farc e Uribe".

O presidente declarou na terça-feira em Bogotá que "tirará" as Farc do Cauca e que "é preciso persistir. Se houve diálogos (de paz com a guerrilha) não estaríamos nesta situação. Existe um governo muito radical. Ele (Uribe) acredita que lá, sentado, em meio a tantos batalhões, a coisa a fazer é mandar. E uma coisa é mandar, mas outra é estar aqui nestas montanhas", disse o governador Musicué. "O governo nacional diz que tem controlada a região e que não há combates, mas vocês podem ver como os combates continuam. Então, uma coisa é ele (Uribe) falar lá sentado e dormindo tranqüilo e outra é estar aqui no meio das pessoas que sofrem", acrescentou.

"O povo Nasa estava em alerta vermelho sobre a violência. Nós, como autoridades, temos de prevenir, nas reuniões com a comunidade", explicou. "Neste momento em que estamos amontoados aqui, o que temos dito é que se deve ter paciência, porque, para onde correr, se não vamos deixar abandonado nosso território, porque aqui vivemos e aqui morreremos", disse. "Sabemos que se formos para as cidades será mais fome, mais necessidade e miséria. Não queremos ir para os centros povoados. Aqui temos nossas matas de yuca, feijão, milho, e sabemos que quando a guerra ceder um pouquinho poderemos ir buscar nosso sustento", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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