Comércio: Lamy tem a vantagem na disputa pela OMC

Genebra, 22/04/2005 – O ex-comissário europeu de Comércio, Pascal Lamy, encontra-se à frente na luta pela direção-geral da Organização Mundial do Comércio, embora nem tudo esteja definido. A OMC, que fixa as normas do intercâmbio de bens e serviços entre seus 148 países-membros, está em processo de escolha, no final do mês, um sucessor para o atual diretor-geral, o tailandês Supachai Panitchpakdi. A campanha oficial começou dia 1º de dezembro passado. O mandato de Supachai termina no próximo dia 31 de agosto. Três candidatos pretendem o cargo, depois que o brasileiro Luiz Felipe de Seixas Correa foi eliminado da disputa na sexta-feira, ao ficar em último na primeira rodada de consultas entre os representantes dos países. Segundo as novas normas da OMS, o candidato com menos apoio é eliminado ao final de cada rodada de consultas.

A presidente do painel de seleção, a representante queniana Amina Mohamed, disse que o francês Lamy conta hoje com maior apoio do que o ministro do Comércio de Maurício, Jaya Krishna Cuttaree, e que Carlos Pérez del Castillo, ex-representante uruguaio na OMC. Mas, Mohamed também afirmou que, embora os três candidatos tenham programas muito semelhantes, Lamy é rejeitado por grandes países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e China. Fontes comerciais disseram que esses países estariam dispostos, inclusive, a se manifestarem contra Lamy na última rodada de consultas. Isso poderia afetar a candidatura, devido à intenção predominante na OMC de tomar todas as decisões importantes por consenso.

Ao que parece, os Estados Unidos se comprometeram a apoiar a candidatura de Lamy em troca do apoio europeu para a designação de seu subsecretário da Defesa, Paul Wolfowitz, como presidente do Banco Mundial. Lamy afirmou na terça-feira, em reunião com a associação de jornalistas especializados em economia e finanças da França, que conta com "mais apoio do que o candidato do Norte" industrial. Também expressou sua confiança de que será eleito. "Segundo todos os critérios, sobretudo o de diversidade Norte-Sul, estou na bem à frente", disse. Os adversários de Lamy tampouco subestimam sua candidatura.

Cuttaree disse na terça-feira no Comitê de Comércio do Parlamento que esperava uma votação final renhida entre ele e o funcionário francês, pois acreditava que Castillo será eliminado na próxima rodada, dia 25. "O candidato uruguaio está bem atrás de Lamy e de mim. Seria lógico que Castillo ficasse fora na próxima rodada", disse o ministro de Maurício depois da reunião de terça-feira. Cuttaree, que ocupou vários cargos ministeriais, tem o apoio do grupo de países da África, do Caribe e do Pacífico, entre os quais há muitos dos membros mais pobres da OMC. O funcionário africano lembrou que Brasil, China e Índia pediram a Lamy que retirasse da disputa, embora tenha se negado a especular sobre a possibilidade de esses países apoiaram sua candidatura.

O candidato de Mauricio disse que pretende ser um construtor de pontes dentro da OMC, de modo a se unir aos países ricos com os pobres para chegar a um acordo de liberalização comercial. "Minha missão será incentivar um acordo global para o desenvolvimento justo e equilibrado do comércio que garanta prosperidade para todos", disse Cuttare. Embora esteja a favor do livre comércio, disse não acreditar que as melhorias no acesso aos mercados resolva todos os problemas econômicos da África. O desenvolvimento sustentável, afirmou, deve ser conciliado com a meta do livre intercâmbio. Quanto às perspectivas de atingir um acordo na Rodada de Desenvolvimento de Doha sobre negociações multilaterais de comércio durante a conferência ministerial de dezembro em Hong Kong, Cuttaree considerou que não é necessário estabelecer um prazo, pois isso "criaria muitas expectativas. Temos o esqueleto de um acordo. Agora, devemos por um pouco de carne nos ossos. Devemos nos concentrar na agricultura", explicou.

A OMC foi criada em 1995 como resultado da Rodada do Uruguai de negociações comerciais multilaterais, que culminaram com a mais ambiciosa reforma do sistema mundial de intercâmbio da história. A OMC funciona como fórum de negociações entre seus 148 membros. Também arbitra disputas e dá assistência e capacitação técnica para os negociadores do Sul em desenvolvimento. o processo anterior de escolha do diretor-geral da organização, em 1999, esteve cercado por intensas disputas, e, após meses de acefalia, dividiu-se o período em duas partes, a primeira encabeçada pelo neozelandês Michael Moore e a seguinte por Supachai.

O diretor-geral da OMC tem grande influência pessoal, mas, ao contrário dos titulares de organismos como o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, carecem de faculdades executivas. O início da segunda rodada de consultas para a escolha do próximo dirigente da organização está previsto para esta quinta-feira, e duraria cerca de 10 dias. Ao longo da rodada, a queniana Mohamed atenderá as considerações dos 18 países que, além disso, também apresentarão suas preferências e, inclusive, uma segunda opção para a direção-geral. Ainda não se sabe como dividirão os votos que antes foram dados a Seixas Correa. Além disso, algum país poderia resolver, tacitamente, mudar o voto da primeira dada de consultas. (IPS/Envolverde)

(*) Com colaboração de Gustavo Capdevila, desde Genebra.

Stefania Bianchi

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