João Paulo II: Consciência e comunicação

Bruxelas, 13/04/2005 – Um provérbio italiano diz "morto um papa, outro seguirá em seu lugar". Significa que a vida continua e que há remédio para tudo. Mas desta vez não é aplicável porque a figura deste papa que foi tão "mundial" que ofuscou todos seus antecessores. Não somente por sua evidente grandeza com pontífice da Igreja Católica. O quarto século de seu reinado coincidiu com a irrupção da televisão na política mundial. A TV existia antes, mas precisamente neste período irrompeu como cenário da vida coletiva, como centro da política, como dominador da imaginação coletiva.

João Paulo II foi o principal beneficiário desta irrupção. Sua figura se converteu na imagem televisiva por excelência, que deixava no canto todas as demais. Suas quase 200 viagens multiplicaram o efeito do "homem de branco", seus encontros com chefes de Estado de todo o planeta fizeram com que todas as televisões, das mais diversas nações e políticas, se vissem obrigadas a reproduzir sua figura. Um "efeito reflexo" multiplicado ao infinito. Nestes anos somente as imagens de guerra competiram com a deste papa roda-mundo, disposto a exibir seu sofrimento, a tornar visível seu "martírio" e a transformá-lo em catequese, em ensino, em admonição. Assim foi até o final, até aquela imagem inesquecível em que ele trata, desde a janela da Praça São Pedro, de falar, de comunicar com sua própria voz e, não conseguindo, manifesta sua impaciência, sua raiva, com um gesto imperioso de desgosto, batendo com a mão enferma.

Nos dias de sua agonia e nos que se seguiram à sua morte, alguns supuseram que por trás do papa operava uma sapiente condução capaz de utilizar o meio televisivo para potencializar a capacidade de seu magistério missionário e da personalíssima potência comunicativa de Karol Wojtyla. Creio que não houve um condutor melhor do que o papa em pessoa e que precisamente ele intuiu a potência do principal meio de comunicação. Digo intuir no sentido de que sabia utilizá-lo instintivamente, como um consumado ator. Ao mesmo tempo, captava a dimensão da mudança de significado da mensagem da qual era ator participante e consciente. João Paulo II compreendera que no mundo televisivo não era possível conceber a catequese como um fato interpessoal, direto, sem mediação. E já que tudo passa pela mediação dos meios, provavelmente pensava que nada deve ficar à margem deles.

Prova de que este Karol Wojtyla sabia disso são as demonstrações de suas sempre agudíssimas reflexões sobre a televisão. Era um "popperiano" no sentido de que, como Karl Popper, considerava perigosa a televisão: para a mente dos espectadores, para a educação das crianças. Nunca disse que não se deve ver televisão (estaria em contradição com ele mesmo). Mas alertou com freqüência contra a manipulação da qual podemos ser objetos, bem como fustigou duramente pela irresponsabilidade demonstrada por numerosos profissionais da informação e comunicação. Liberdade e pluralismo, e busca da liberdade, foram suas mais assíduas exortações, sempre acompanhadas da necessidade de um controle social.

Hoje outro prova de que este papa havia elaborado um pensamento próprio em matéria televisiva. Mais de uma vez, e em contextos diversos, João Paulo II introduziu reflexões agudas e moderníssimas em relação ao homo videns, ao homem vidente. Quando escreveu que |"as imagens se sedimentam" se referia justamente às imagens televisivas. A observação contradiz – daí sua importância – a opinião corrente sobre a transitoriedade da imagem. Não, o papa havia compreendido cabalmente algo que muitos estudiosos da comunicação ainda não haviam compreendido: as imagens têm um efeito acumulativo e quando se repetem numerosas vezes entram no inconsciente ou apenas sob o estrato superior da consciência.

É claro que isto não surpreendeu os publicitários que as utilizam, fixas ou em movimento, com abundância de truques e recursos. Mas me surpreendeu o grau de compreensão do papa sobre como potentes acúmulos de imagens negativas, equivocadas e contaminadoras da mente humana podem transmitir idéias e sedimentar conceitos muito mais eficazes do que qualquer outro canal de comunicação. Via o materialismo consumista e a ideologia capitalista, vencedores do grande combate contra o comunismo, permeados por estas mensagens, como se fossemos inventores deste tipo de comunicação deformadora e brutal. Em comparação, a doutrinação ateísta comunista lhe terá parecido elementar. Seu caráter pedagógico explícito o tornava muito menos perigoso, quase inofensivo, do que a refinada gama dos sistemas de manipulação indireta, nas quais as idéias passam através de canais completamente diversos dos pedagógicos, com as diversões e a publicidade, aparentando carecer de conteúdo e não pretender inculcar idéia alguma. João Paulo II havia entendido que o ateísmo materialista era uma ameaça muito maior do que a do comunismo. (IPS/Envolverde)

(*) Giulietto Chiesa, jornalista e parlamentar europeu.

Giulietto Chiesa

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